quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Trecho exclusivo do livro Cidade dos espelhos


Oi!!!

Gente, estava olhando o site da Editora Arqueiro e vi que ela disponibilizou um trecho do livro Cidade dos espelhos o terceiro e ultimo livro da Série A passagem. Para os fãs que estavam ansiosos para a chegada deste ultimo livro poderão conferir um trechinho desta série apaixonante e matar um pouquinho da curiosidade de saber o que ira acontecer,  o livro ja esta a venda nas livrarias. Segue abaixo o trecho do livro:

Foto: Capa do Livro
A cidade dos espelhos
Livro: A cidade dos espelhos #3
Série: A passagem
Autor: Justin Cronin
Tradução: Alves Calado
Comprar: Saraiva Cultura Amazon
UMREGIÃO CENTRAL DA PENSILVÂNIA Oito meses depois da libertação da Pátria Agosto de 98 D.V. O chão cedia com facilidade sob a faca,  liberando um cheiro negro de terra. O ar estava quente e úmido; pássaros cantavam  nas árvores. De joelhos, apoiando as mãos no chão, ela golpeava o solo, soltando-o. Um punhado de cada vez, e jogava de lado. Parte da fraqueza havia sumido,  mas não toda. Seu corpo pareciafrouxo, desorganizado, exaurido. Havia a dor e a lembrança da dor. Três dias tinham se passado, ou seriam quatro? O suor  formava gotas em seu rosto; ela lambeu os  lábios e sentiu gosto de sal. Cavava e cavava.  O suor escorria, caindo na terra. É para onde tudo vai, no fim das  contas, pensou Alicia. Para a terra. O monte ao seu lado crescia. Que profundidade seria suficiente? A um metro o solo começou a mudar. Ficou mais frio, com odor de argila. Parecia um sinal. Jogou o corpo para trás, sentando-se sobre as botas, e tomou um longo gole do cantil. Suas mãos estavam em carne viva; a pele na base do polegar tinha se soltado quase inteira. Levou o dedo à boca e usou os dentes para cortar o pedaço de pele, que cuspiu na terra. Soldado a esperava nos limites da clareira, a mandíbula trabalhando ruidosa num trecho de capim que ia até a cintura. A graça de suas ancas, a crina brilhosa, a magnificência dos cascos, dos dentes e dos grandes olhos negros: uma aura de esplendor o cercava. Quando queria, ele era dono de uma calma absoluta; depois, no instante seguinte, podia realizar feitos notáveis. Seu rosto sábio se levantou ao ouvi-la se aproximar. Sei. Estamos prontos. Ele se virou num arco lento, o pescoço abaixado, e a acompanhou na direção das árvores, até o lugar onde ela havia montado sua lona. No chão, junto ao saco de dormir ensanguentado, estava a trouxa menor, feita de um cobertor cheio de manchas. Sua filha tinha vivido menos de uma hora, mas naquela hora Alicia havia se tornado mãe. Soldado observou enquanto ela saía de baixo da lona. O rosto do bebê estava  coberto; Alicia puxou o pano para trás. Soldado baixou a cara para o rosto da criança, as narinas se abrindo, sentindo o cheiro. Nariz e olhos minúsculos, a boca um botão de rosa, espantosos em sua humanidade; a cabeça coberta por  uma touca de cabelos ruivos e macios. Mas não existia vida, não existia respiração.  Alicia tinha se perguntado se seria capaz de amá-la – aquela criança  concebida em terror e dor, gerada por um monstro. Um homem que a havia espancado, estuprado, xingado depois de acabar. Como tinha sido idiota! Voltou à clareira. O sol estava a pino; insetos zumbiam no capim, uma pulsação rítmica. Soldado ficou junto enquanto ela colocava a filha na sepultura. Quando o trabalho de parto havia começado, Alicia rezara. Que ela esteja bem. Enquanto as horas de agonia se dissolviam uma na outra, sentiu a presença fria da morte por dentro. A dor a golpeava, um vento de aço que ecoava nas células como um trovão. Algo estava errado. Por favor, Deus, proteja-a, proteja-nos. Mas suas orações tinham caído no vazio. O primeiro punhado de terra foi o mais difícil. Como seria possível fazer isso? Alicia tinha enterrado muitos homens. Alguns ela conhecera, outros não; apenas um ela havia amado. O garoto, Cano Longo. Tão divertido, tão vivo, e se fora. Deixou a terra escorrer por entre os dedos. Os torrões bateram no pano com um som de tapinhas, como as primeiras gotas de chuva caindo sobre folhas. Pouco a pouco sua filha desapareceu. Adeus, pensou. Adeus, minha querida, meu amor. Voltou à tenda. Sua alma estava despedaçada, como um milhão de cacos de vidro dentro do corpo. Os ossos eram canos de chumbo. Precisava de água, comida; o estoque havia acabado. Mas caçar estava fora de questão, e o riacho, uma caminhada de cinco minutos colina abaixo, parecia a quilômetros de distância. As necessidades do corpo: o que importam? Nada importava. Deitou-se no saco de dormir, fechou os olhos e logo adormeceu. Sonhou com um rio. Um rio largo e escuro, sobre o qual brilhava a lua. Ele espalhava a luz sobre a água como uma estrada de ouro. Alicia não sabia o que estava adiante, só que precisava atravessar esse rio. Deu o primeiro passo, cautelosa, na superfície luzidia. Sua mente estava dividida: metade se maravilhava com a estrada improvável, metade, não. Quando a lua tocou a sombra oposta, ela percebeu que fora enganada. O caminho estava se dissolvendo. Em pânico, começou a correr, desesperada para chegar à outra margem antes que o rio a engolisse. Mas a distância era grande demais; a cada passo o horizonte saltava mais para longe. A água borbulhava ao redor dos tornozelos, dos joelhos, da cintura. Não tinha forças para lutar contra a correnteza. Venha a mim, Alicia. Venha a mim, venha a mim, venha a mim. Ela estava afundando, tomada pelo rio, mergulhando na escuridão… Acordou com uma luz fraca, alaranjada; o dia estava quase acabando. Ela permaneceu imóvel, juntando os pensamentos. Tinha se acostumado com esses pesadelos; as peças mudavam, mas jamais a sensação – a inutilidade, o medo.  
Mas desta vez havia algo diferente. Um aspecto do sonho tinha passado para a vida; sua camisa estava encharcada. Olhou para baixo e viu manchas se alargando. Seu leite havia chegado. Ficar ali não tinha sido uma decisão consciente; a vontade de continuar simplesmente desaparecera. Então sua força retornou. Veio com passos pequenos e, depois, como uma visita há muito esperada, chegou de repente. Ela construiu um abrigo com galhos secos e trepadeiras, usando a lona como cobertura. A floresta era cheia de vida: esquilos e coelhos, perdizes e pombos, cervos. Alguns eram rápidos demais para ela, mas não todos. Alicia montava armadilhas e esperava para recolher a caça ou usava sua besta: um disparo, uma morte limpa, depois o jantar, cru e quente. No fim de cada dia, quando a luz se esvaía, tomava banho no riacho. A água era límpida e de um frio atroz. Foi numa dessas excursões que viu os ursos. Um farfalhar 10 metros rio acima, algo pesado movendo-se no mato baixo, e depois eles apareceram à beira do rio, mãe e dois filhotes. Alicia nunca vira esse tipo de criatura em carne e osso, apenas nos livros. Eles entraram juntos na água rasa, empurrando a lama com o focinho. Havia algo frouxo e malformado em sua anatomia, como se os músculos não estivessem presos com firmeza à pele sob os pelos pesados e emaranhados com gravetos. Uma nuvem de insetos cintilava ao redor deles, captando as últimas luzes. Mas os ursos não a notaram, ou, se notaram, não acharam que ela fosse importante. O verão foi sumindo. Num dia, o bosque era um mundo de folhas verdes e volumosas, denso de sombras; em seguida, explodia em cores vibrantes. De manhã, o chão da floresta estalava com a geada. O frio do inverno baixara com um sentimento de pureza. A neve era pesada na terra. As linhas pretas das árvores, as pequenas pegadas dos pássaros, o céu caiado, descorado: tudo fora reduzido à essência. Que mês seria? Que dia? À medida que o tempo passava, a comida se tornava um problema. Durante horas, até mesmo dias inteiros, ela mal se movia, conservando as forças; não falava com ninguém havia quase um ano. Aos poucos percebeu que já não pensava com palavras; era como se tivesse se tornado uma criatura da floresta. Imaginou se estaria enlouquecendo. Começou a falar  com Soldado, como se ele fosse uma pessoa. Soldado, dizia, o que vamos jantar? Soldado, você acha que é hora de catar lenha para o fogo? Soldado, parece que vai nevar? Uma noite acordou no abrigo e percebeu que estivera escutando trovões durante algum tempo. Um vento úmido de primavera chegava em sopros sem 
direção, lançando-se contra o topo das árvores. Sem se afetar pelo que ouvia, Alicia escutou a aproximação da tempestade; e subitamente ela estava ali. Um clarão de raio se bifurcou no céu, congelando a cena em seus olhos, seguido por um estrondo capaz de rachar os ouvidos. Ela deixou Soldado entrar enquanto o céu se rasgava, lançando gotas de chuva pesadas como balas de revólver. O cavalo tremia de terror. Alicia precisou acalmá-lo; bastaria um movimento em pânico no espaço minúsculo e o corpo enorme despedaçaria o abrigo. Meu bom garoto, murmurou, acariciando o flanco do animal. Com a mão livre, passou a corda em volta do pescoço de Soldado. Meu bom garoto. O que acha? Quer fazer companhia a uma garota numa noite de chuva? O corpo dele estava tenso de medo, uma parede de músculos contraídos, no entanto, quando ela lentamente o puxou para baixo, ele permitiu. Do lado de fora das paredes do abrigo os relâmpagos brilhavam no céu. Soldado se ajoelhou com um suspiro portentoso, virou-se de lado junto ao saco de dormir; e foi assim que ambos caíram no sono enquanto a chuva se derramava durante toda a noite, lavando o inverno. Ela viveu dois anos naquele lugar. Ir embora não era fácil; a floresta havia se tornado um refúgio, um conforto. Alicia tinha assumido os ritmos dela como se fossem seus. Mas quando o terceiro verão começou, um novo sentimento surgiu: era hora de partir. De terminar o que havia começado. Ela passou o resto do verão se preparando. Isso implicava fabricar uma arma. Partiu a pé para as cidades ribeirinhas e retornou três dias depois, carregando uma sacola cheia. Entendia o básico do que estava tentando fazer, tendo assistido ao processo muitas vezes; os detalhes viriam através de tentativa e erro. Uma pedra chata junto ao riacho serviria como bigorna. À beira d’água, atiçou o fogo e o observou arder até virar carvão. O truque era manter a temperatura certa. Quando sentiu que tinha conseguido, tirou a primeira peça do saco: uma barra de aço 3/8 com 5 centímetros de largura e 1 metro de comprimento. Do saco tirou também uma marreta, uma pinça de ferro e um par de luvas de couro grossas. Pôs a ponta da barra de aço no fogo e viu a cor mudar enquanto o metal se aquecia. Então começou a trabalhar. Precisou fazer mais três viagens rio abaixo, em busca de suprimentos, e o resultado foi grosseiro, mas no final ficou satisfeita. Usou cipós ásperos para enrolar no cabo, permitindo uma empunhadura firme no metal, que, do contrário, ficaria liso. O peso era agradável na mão. A ponta polida brilhava ao sol. Mas o primeiro corte seria o verdadeiro teste. Na última viagem rio abaixo tinha  
encontrado uma plantação de melões do tamanho de cabeças humanas. Eles cresciam num terreno denso, entre emaranhados de trepadeiras com folhas em forma de mão. Escolheu um e carregou para casa, no saco. Então, equilibrou-o em cima de um tronco caído, mirou e baixou a espada num arco vertical. As metades partidas balançaram preguiçosamente, separando-se uma da outra, como se perplexas, e caíram no chão. Nada restava para mantê-la naquele lugar. Na noite anterior à partida, Alicia visitou a sepultura da filha. Não queria fazer isso no último segundo; sua saída deveria ser limpa. Durante dois anos o lugar tinha ficado sem qualquer marco. Nada parecera digno. Mas deixá-la sem nenhum reconhecimento parecia errado. Com o resto do aço, fez uma cruz. Usou a marreta para fincá-la no chão e se ajoelhou na terra. A essa altura o corpinho teria se reduzido a nada. Talvez alguns ossos ou uma impressão de ossos. Sua filha havia passado para o solo, as árvores, as pedras, até o céu e os animais. Tinha ido para um lugar além do conhecimento. Sua voz estava no canto dos pássaros; os cabelos ruivos, nas folhas chamejantes do outono. Alicia pensou nessas coisas, uma das mãos tocando a terra macia. Mas não tinha mais orações por dentro. Uma vez partido, um coração permanecia partido para sempre. – Desculpe – disse. A manhã nasceu de modo pouco notável: sem vento, cinza, cheia de névoa. A espada, enfiada numa bainha de couro de cervo, estava às costas, em diagonal; as facas, enfiadas nas bandoleiras, foram fixadas num X diante do peito. Óculos escuros, com abas de couro nas têmporas, protegiam seus olhos. Prendeu a bolsa da sela e montou em Soldado. Durante dias ele havia andado de um lado para outro, inquieto, sentindo a partida iminente. Vamos fazer o que acho que vamos fazer? Eu gosto um bocado daqui, sabe? O plano de Alicia era cavalgar para o leste, ao longo do rio, seguir seu curso através das montanhas. Com sorte chegaria a Nova York antes que as primeiras folhas caíssem. Fechou os olhos, esvaziando a mente. Só quando tivesse limpado esse espaço a voz emergiria. Vinha do mesmo lugar dos sonhos, como vento saindo de uma caverna, sussurrando em seu ouvido. Alicia, você não está sozinha. Conheço sua tristeza porque ela é minha. Estou esperando você, Lish. Venha a mim. Venha para casa. Bateu os calcanhares nos flancos de Soldado. Fonte Editora Arqueiro

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