segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Trecho Exclusivo Novembro 9

Oi!

Gente, a Galera Record disponibilizou um capitulo do livro que esta fazendo um grande sucesso, um romance que estou empolgada pra ler. Gente pensa em uma lista de livros que só aumenta, são tantos livros que não sei por qual começar. Segue a baixo um trecho deste romance.

Foto: Capa Livro
Novembro 9
Livro: Novembro 9
Autor: Colleen Hoover
Tradução: Ryta Vinagre
Comprar: Saraiva Cultura Amazon
Fallon
Que barulho será que faria se eu quebrasse esse copo na lateral da cabeça dele? É um copo grosso. A cabeça dele é dura. Há potencial para uma bela pancada.Será que ele sangraria? Tem guardanapos na mesa, mas não são do tipo que conseguiria absorver muito sangue.— Então, é isso. Estou um pouco chocado, mas está acontecendo — diz ele.Sua voz me faz apertar mais o copo na esperança de que continue na minha mão e não acabe de fato na cabeça dele.— Fallon? — Ele pigarreia e tenta suavizar suas palavras,mas ainda me cortam como se fossem facas. — Vai dizer alguma coisa?Bato o canudo na parte oca de um cubo de gelo, imaginando que o gelo é a cabeça dele.— O que quer que eu diga? — resmungo, parecendo uma criança birrenta, e não a adulta de 18 anos que sou. —Quer que eu te dê os parabéns?Minhas costas tocam o encosto atrás de mim e cruzo os braços. Olho para ele e me pergunto se o arrependimento que vejo em seus olhos é consequência de ter me decepcionado ou se ele está simplesmente fingindo de novo. Faz só cinco minutos que se sentou e já transformou o lado dele da mesa num palco. E, mais uma vez, sou obrigada a ser a plateia.
Os dedos dele tamborilam na xícara de café e ele me observa em silêncio por vários segundos. Taptaptap.Taptaptap.Taptaptap. Ele acha que vou acabar desistindo e dizendo o que ele quer ouvir, mas ele não esteve comigo o suficiente nos últimos dois anos para saber que não sou mais aquela garota.Quando me recuso a reconhecer sua atuação, ele, por fim, suspira e baixa os cotovelos na mesa.— Bom, achei que você ficaria feliz por mim.Eu me forço a balançar a cabeça depressa.— Feliz por você? Não pode estar falando sério.Ele dá de ombros e um sorriso presunçoso surge em sua expressão já irritante.— Eu não sabia que podia ser pai de novo.Deixo escapar uma gargalhada alta e incrédula.— Ejacular na vagina de uma mulher de vinte e quatro anos não torna ninguém um pai — digo, com certa amargura.Seu sorriso presunçoso desaparece, ele se recosta e inclina a cabeça. Na tela, esse gesto sempre foi sua saída de emergência quando ele não sabia como reagir. “Passe a impressão de que está refletindo profundamente e vai funcionar com quase qualquer emoção. Tristeza, introspecção, arrependimento,compaixão.” Ele não deve se lembrar de que foi meu professor de atuação durante a maior parte da minha vida e esta expressão foi uma das primeiras que ele me ensinou.— Não acha que tenho o direito de me considerar um pai? — Ele parece ofendido com a minha resposta. — O que você acha que isso me torna, então? Trato essa pergunta como retórica e golpeio outra pedra de gelo. Com habilidade, puxo o canudo e coloco o gelo na boca. Mordo, triturando-o de forma ruidosa e despreocupada. Certamente ele não espera que eu responda a essa pergunta. Ele não foi um “pai” desde a noite em que minha carreira de atriz foi interrompida, quando eu só tinha 16 anos. E, para ser franca comigo mesma, nem tenho certezas e ele foi pai antes daquela noite. Estávamos mais para professore aluna de interpretação.Uma das mãos dele toca os caros folículos de cabelo implantado que delimitam sua testa.— Por que está fazendo isso? — A cada segundo, ele fica mais irritado com minha atitude. — Ainda está brava por eu não ter ido à sua formatura? Já te falei, tive um conflito na agenda.— Não — respondo tranquilamente. — Eu não convidei você para a minha formatura. Ele recua, olhando incrédulo para mim.— Por que não?— Eu só tinha quatro convites.— E? — disse ele. — Sou seu pai. Por que você não me convidaria para sua formatura no colégio?— Você não teria ido.— Você não tinha como saber — rebate ele.— Você não foi. Ele revira os olhos.— Bem, é claro que não, Fallon. Não fui convidado.Suspiro fundo.— Você é impossível. Agora entendo por que mamãe te largou.Ele balança a cabeça de leve.— Sua mãe me deixou porque eu dormi com a melhor amiga dela. Minha personalidade não teve nada a ver comisso.Nem mesmo sei o que responder. O homem tem absolutamente zero remorso. Tanto odeio quanto invejo isso. De
certo modo, queria ser mais parecida com ele e menos com minha mãe. Ele não se importa com os próprios defeitos,enquanto os meus são o foco da minha vida. Meus defeitos são o que me faz acordar de manhã e o que me deixa acordada toda noite.— Quem pediu salmão? — pergunta o garçom. Que timing impecável.Levanto a mão e ele coloca o prato diante de mim. Já perdi o apetite, então empurro o arroz com o garfo pelo prato.— Ei, espere um segundo. — Olho para o garçom, ma sele não está falando comigo, e sim olhando intensamente para o meu pai. — Você é...Ah, meu Deus. Lá vamos nós de novo.O garçom dá um tapa na mesa e eu estremeço.— É você! Você é Donovan O’Neil! Você fez Max Epcott! Meu pai dá de ombros, com modéstia, mas sei que neste homem não há nada de modesto. Embora ele não interprete mais Max Epcott desde que o programa saiu do ar,dez anos atrás, ele ainda age como se fosse o maior acontecimento da televisão. E as pessoas que o reconhecem são o motivo para ele ainda reagir desse jeito. Agem como se nunca tivessem visto um ator na vida real. Estamos em Los Angeles, pelo amor de Deus! Todo mundo aqui é ator!Continuo com minha vontade de atacar enquanto enfio o garfo no salmão, mas então o garçom me interrompe para perguntar se posso tirar uma foto deles dois.Suspiro.De má vontade, saio do meu lugar. Ele tenta me entregar seu celular para que eu tire a foto, mas ergo a mão,protestando, e dou a volta por ele.— Preciso usar o banheiro — murmuro, me afastando da mesa. — É só tirar um selfie com ele. Ele adora selfies.
Sigo depressa para o banheiro para sentir algum alívio da presença do meu pai. Não sei por que pedi para ele me encontrar hoje. Talvez porque eu esteja me mudando e nem sei quanto tempo ficarei sem vê-lo, mas esta nem de longe é uma boa desculpa para me colocar nesta situação.Abro a porta da primeira cabine. Tranco e puxo o papel de proteção para o assento, colocando-o na tampa da privada. Certa vez, li um estudo sobre bactérias em banheiros públicos. A primeira cabine de cada banheiro estudado tinha a menor quantidade de bactérias. As pessoas supõem que a primeira cabine é a mais usada, então pulam. Eu não.É a única que vou usar. Nem sempre fui germofóbica, mas os dois meses que passei no hospital quando tinha 16 anos me deixaram um pouco obsessiva-compulsiva quando se trata de higiene.Quando termino de usar o banheiro, levo pelo menos um minuto inteiro lavando as mãos. Fico olhando fixamente para elas o tempo todo, me recusando a me voltar para o espelho.Evitar meu reflexo fica mais fácil a cada dia que passa,mas ainda tenho um vislumbre de mim quando vou pegar o papel-toalha. Não importa quantas vezes eu tenha me olhado num espelho, ainda não me acostumei com o que vejo.Levanto a mão esquerda e toco as cicatrizes do lado esquerdo do meu rosto, seguindo pelo meu maxilar e descendo até o pescoço. As cicatrizes desaparecem abaixo da gola da minha blusa, porém, por baixo da roupa, descem por todo o lado esquerdo do meu corpo, parando pouco abaixo da cintura. Passo os dedos pelas áreas da pele que agora parecem couro enrugado. Cicatrizes que constantemente me lembram de que o incêndio foi real, não só um pesadelo do qual posso me obrigar a acordar com um beliscão no braço.
Fiquei meses enfaixada depois do incêndio, incapaz de tocar a maior parte do meu corpo. Agora que as queimaduras estão curadas e fiquei com marcas, fico tocando-as obsessivamente. As cicatrizes parecem veludo esticado e seria normal ficar revoltada com a sensação, como fico coma aparência. Em vez disso, gosto mesmo de senti-las. Estou sempre passando distraidamente os dedos por meu braço ou pelo pescoço, lendo o braile da minha pele, até me dar conta do que estou fazendo e parar. Não devia gostar de nenhum aspecto da única coisa que atrapalhou minha vida, mesmo que seja simplesmente a sensação na pontados meus dedos.Já a aparência é outra coisa. Cada um de meus defeitos tem recebido as luzes de refletores cor-de-rosa, postos à mostra para o mundo inteiro ver. Por mais que eu tente esconder com o cabelo e a roupa, estão ali. Sempre estarão ali. Um lembrete permanente da noite que destruiu todas as melhores partes de mim.Não sou de me apegar a datas e aniversários, mas, essa manhã, quando acordei, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi a data de hoje. Provavelmente porque foi o último pensamento que tive antes de dormir na noite passada.Faz dois anos desde o dia em que a casa do meu pai foi engolida pelas chamas que quase tiraram minha vida.Talvez por isso eu quisesse ver meu pai hoje. Talvez eu esperasse que ele fosse se lembrar, que dissesse algo para me reconfortar. Sei que ele já se desculpou o bastante, mas até que ponto posso perdoá-lo por se esquecer de mim?Eu só ficava na casa dele uma vez por semana, em média.Mas naquela manhã tinha lhe mandado uma mensagem de texto, contando que passaria a noite lá. Então, era de se pensar que meu pai, quando ateasse fogo na casa por acidente, fosse me resgatar do meu sono.
Só que isso não aconteceu... ele esqueceu que eu estava lá. Ninguém sabia que havia alguém na casa, até que me ouviram gritar no segundo andar. Sei que ele carrega muita culpa por isso. Durante semanas, ele se desculpou toda vez que me viu, mas as desculpas começaram a rarear junto das visitas e dos telefonemas. O ressentimento que guardo continua muito presente, embora eu preferisse o contrário.O incêndio foi um acidente. Eu sobrevivi. Estas são as duas coisas em que tento focar, mas é difícil, quando penso nisso sempre que olho para mim mesma.Penso nisso sempre que alguém olha para mim.A porta do banheiro se abre e uma mulher entra, meolha rapidamente, vira a cara com a mesma rapidez e vai para a última cabine.Devia ter escolhido a primeira, moça.Eu me olho mais uma vez no espelho. Eu costumava usar o cabelo na altura dos ombros com franja enviesada, mas ele cresceu muito nos últimos anos. E sem motivo algum.Roço os dedos pelas mechas compridas e escuras de cabelo que treinei para cobrir a maior parte do lado esquerdo do meu rosto. Puxo a manga do braço esquerdo até o pulso,depois levanto a gola para cobrir a maior parte do pescoço.Assim, as cicatrizes quase não são visíveis e posso suportar me olhar no espelho. Eu costumava me achar bonita. Mas agora o cabelo e a roupa podem encobrir muita coisa.Ouço a descarga, então me viro depressa e sigo para aporta antes que a mulher saia da cabine. Faço o que posso para evitar as pessoas na maior parte do tempo, e não porque tenha medo de que elas olhem minhas cicatrizes. Eu as evito porque elas não olham. No segundo em que me veem,logo viram o rosto, porque têm medo de demonstrar grosseria ou crítica. Pelo menos uma vez, seria legal se alguém me olhasse nos olhos e sustentasse meu olhar. Já faz tanto
tempo que isso aconteceu... Detesto admitir que sinto faltada atenção que costumava receber, mas é verdade.Saio do banheiro e volto à mesa, decepcionada porque ainda vejo a nuca do meu pai.Eu tinha esperança que surgisse alguma emergência e ele fosse solicitado a ir embora enquanto eu estava no banheiro.É triste que eu prefira ser recebida por uma mesa vazia em vez de pelo meu próprio pai. Esse pensamento quase me leva a fazer uma careta, mas de repente o cara sentado à mesa que preciso contornar chama minha atenção.Não costumo notar as pessoas, considerando que elas fazem o que podem para evitar contato visual comigo. Mas os olhos deste cara são intensos, curiosos e estão fixos nos meus. A primeira coisa que penso quando o vejo é: “Quem dera fosse dois anos atrás.”Penso muito nisso quando encontro garotos que posso considerar atraentes. E esse cara, sem dúvida nenhuma,é uma graça. Não do jeito típico de Hollywood, como a maioria dos caras que moram nesta cidade. Esses são todos iguais, como se houvesse um molde perfeito para um ator bem-sucedido e eles estivessem tentando se encaixar.Esse cara é o completo oposto. Sua barba por fazer não é uma obra de arte simétrica e intencional. Em vez disso, é suja e irregular, como se ele tivesse trabalhado até tarde da noite, sem tempo de se barbear. O cabelo dele não está penteado com gel para dar uma aparência zoneada de quem acabou de sair da cama. O cabelo desse cara é mesmo bagunçado. Mechas de cabelo cor de chocolate caem em sua testa, algumas erráticas e rebeldes. É como se ele tivesse acordado tarde para um compromisso e tivesse pressa demais para se dar o trabalho de se olhar no espelho.
Uma aparência tão desleixada devia ser brochante, mas é isso que acho tão estranho. Apesar de ele dar a impressão de não ter um pingo de narcisismo, é um dos caras mais atraentes que já vi.Eu acho.Este pode ser um efeito colateral da minha obsessão por limpeza. Talvez eu deseje desesperadamente o tipo de descuido que esse cara exibe e esteja confundindo inveja com fascínio. Também posso achar que ele é uma graça apenas por ser uma das poucas pessoas nos últimos dois anos que não virou o rosto imediatamente ao olhar nos meus olhos.Ainda preciso passar pela mesa dele para chegar à minha,atrás dele, e não consigo decidir se me apresso para ficar livre do olhar dele, ou se devo passar em câmera lenta para aproveitar a atenção.Ele se mexe quando começo a passar na sua frente e, de repente, seu olhar se torna excessivo. Invasivo demais. Sinto minhas bochechas corarem e a pele formigar, então olho para meus pés e deixo que meu cabelo caia no rosto. Até puxo uma mecha para a boca, com a intenção de bloquear ainda mais a visão dele. Não sei por que o olhar dele me deixa desconfortável, mas é o que acontece. Apenas alguns segundos atrás, eu estava pensando em como sentia falta de ser olhada, mas agora que está acontecendo, só quero que ele vire o rosto para o outro lado.Pouco antes de ele sair da minha visão periférica, olho na direção dele e pego o resto de um sorriso.Ele não deve ter notado minhas cicatrizes. É o único motivo para um cara como ele ter sorrido para mim.Ai. É irritante até pensar desse jeito. Eu não era essa garota.Era confiante, mas o incêndio derreteu cada pingo de autoestima que eu tinha. Tentei recuperá-la, mas é difícil
acreditar que alguém possa me achar atraente quando nemeu consigo me olhar no espelho.— Isso nunca me cansa — diz meu pai enquanto me sento de volta à mesa.Olho para ele, quase esqueci que estava ali.— O que nunca te cansa?Ele indica o garçom com o garfo, que está perto da caixa registradora.— Isso — diz ele. — Ter fãs. — Dá uma garfada na comida e fala com a boca cheia. — Então, o que você queria falar comigo?— O que te faz pensar que eu queria falar alguma coisa com você?Ele gesticula pela mesa.— Estamos almoçando juntos. É óbvio que você precisa me dizer alguma coisa.É triste que nossa relação tenha chegado a isto. Saber que um simples encontro para almoçar tem que ser mais do que uma filha querendo ver o pai.— Vou me mudar para Nova York amanhã. Bom, na verdade,esta noite. Mas meu avião sai tarde e oficialmente só vou pousar em Nova York no dia 10.Ele pega o guardanapo e disfarça uma tosse. Pelo menos acho que é uma tosse. Com certeza não foi a notícia que o fez engasgar com a comida.— Nova York? — dispara ele.E então... ele ri. Ri. Como se eu morando em Nova York fosse uma piada. Calma, Fallon. Seu pai é um babaca. Isso não é nenhuma novidade.— Justo lá? Por quê? O que tem em Nova York? — As perguntas dele vão surgindo à medida que ele processa a informação. — E, por favor, não me diga que conheceu alguém na internet.
Meus batimentos cardíacos estão enfurecidos. Ele não pode pelo menos fingir que apoia uma das minhas decisões?— Quero uma mudança de ritmo. Estava pensando em fazer testes para a Broadway. Quando eu tinha sete anos, meu pai me levou para ver Cats na Broadway. Foi minha primeira vez em Nova York e foi uma das melhores viagens da minha vida. Até esse momento,ele sempre tinha me empurrado para a carreira de atriz. Mas foi só quando vi aquele espetáculo ao vivo que soube que precisava ser atriz. Nunca tive a oportunidade de fazer teatro porque meu pai ditou cada passo da minha carreira, e ele gosta mais do cinema. Mas já são dois anos desde que fiz alguma coisa. Não sei se realmente tenho coragem para fazer um teste por agora. Contudo, decidir me mudar para Nova York foi uma das maiores iniciativas que tomei desde o incêndio.Meu pai dá um gole na bebida, baixa o copo e seus ombros relaxam quando ele suspira.— Fallon, me escute — diz ele. — Sei que você sente falta de atuar, mas não acha que está na hora de procurar mais opções? Já passei tanto do ponto de me importar com os motivos dele que sequer mesmo presto atenção no monte de asneira que ele acabou de me dizer. Durante toda a minha vida, só o que meu pai fez foi me pressionar para seguir os passos dele. Depois do incêndio, seu estímulo acabou de vez. Não sou nenhuma idiota. Sei que ele acha que não tenho mais o que é necessário para ser atriz, e parte de mim sabe que ele tem razão. Aparência é muito importante em Hollywood. E é exatamente por isso que quero me mudar para Nova York. Se eu quiser voltar a atuar, o teatro pode ser minha melhor esperança.
Eu queria que ele não fosse tão transparente. Minha mãe ficou feliz da vida quando contei que queria me mudar.Desde a formatura e da minha mudança para o apartamento de Amber, quase não saio de casa. Minha mãe ficou tão triste ao descobrir que eu iria para longe, mas feliz ao perceber que eu estava disposta a deixar os limites não só da minha casa, mas de todo o estado da Califórnia.Eu queria que meu pai se desse conta de como isso representa para mim um passo enorme.— O que aconteceu com aquele trabalho de narração?— pergunta ele.— Não deixei de trabalhar com isso. Os audiobooks sãogravados em estúdios. Existem estúdios em Nova York.Ele revira os olhos.— Infelizmente.— Qual é o problema com os áudio books? Ele me olha sem acreditar.— Além do fato de que narrar áudio books é considerado o fundo do poço do trabalho de ator? Você pode fazer melhor do que isso, Fallon. Ora essa, curse uma faculdadeou coisa assim.Fico triste. Justo quando eu achava que ele não podia ser mais egoísta.Ele para de mastigar e olha fixo para mim quando percebe o que disse. Rapidamente limpa a boca com o guardanapoe aponta para mim.— Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Não estoudizendo que você se reduziu a audiobooks. O que estoufalando é que você pode encontrar uma profissão melhor,agora que não pode mais atuar. Não dá muito dinheiro essenegócio de narração. Nem a Broadway, aliás.Ele diz Broadway como se tivesse veneno na boca.
— Para sua informação, há muitos atores respeitáveis que também narram áudio books. E é mesmo necessário que eu cite uma lista dos atores de elite na Broadway agora? Tenho o dia todo. Ele assente, mas sei que não concorda realmente comigo.Só se sente mal por insultar um dos poucos trabalhos relacionados à atuação que eu posso fazer.Ele leva o copo vazio à boca e vira a cabeça para trás o suficiente para recuperar um gole do gelo derretido.— Água — diz ele, sacudindo o copo até que o garçom faz um gesto de cabeça e se aproxima para encher o copo.Ataco de novo o salmão, que não está mais quente. Torço para ele terminar de comer logo, porque não sei se ainda tenho estômago para esta visita. A essa altura, o únicoalívio que sinto é o de saber que amanhã, a essa hora, estareino litoral oposto ao dele. Mesmo que eu esteja trocando o sol pela neve.— Não faça planos para meados de janeiro — diz ele,mudando de assunto. — Vou precisar que você volte a Los Angeles por uma semana.— Por quê? O que vai acontecer em janeiro?— Seu velho vai juntar as escovas de dente.Aperto minha nuca e baixo os olhos para o meu colo.— Pode me matar agora.Sou tomada pela culpa, porque eu não pretendia dizer isso em voz alta, por mais que quisesse que alguém realmente me matasse agora.— Fallon, não pode julgar se vai gostar dela ou não antes de conhecê-la.— Não preciso conhecê-la para saber que não vou gostar dela — respondo. — Afinal, ela vai se casar com você.— Tento disfarçar a verdade em minhas palavras com um
sorriso sarcástico, mas tenho certeza de que ele sabe que fui sincera em cada palavra que disse.— Caso tenha se esquecido, sua mãe também escolheu se casar comigo e você parece gostar muito dela — retruca ele. Agora ele me pegou.— Touché. Mas, em minha defesa, este é seu quinto pedido de casamento desde que eu tinha dez anos.— Mas é só a terceira esposa — esclarece ele.Por fim, enfio meu garfo no salmão e dou uma mordida.— Você me dá vontade de dispensar os homens para sempre — digo de boca cheia.Ele ri.— Isso não deveria ser um problema. Sei que você só saiu com um garoto e isso já faz mais de dois anos.Engulo a seco o pedaço de salmão. Sério? Onde eu estava quando distribuíram os pais decentes? Por que tive que ficar com esse imbecil estúpido? Quantas vezes será que ele mordeu a língua durante o almoço de hoje? É melhor ele se cuidar, ou vai acabar semlíngua nenhuma. Ele realmente não faz ideia de que dia éhoje. Se fizesse, jamais teria dito algo tão negligente.Noto que sua testa se franze de repente porque ele estátentando pensar em um pedido de desculpas pelo queacabou de dizer. Tenho certeza de que ele não tinha a intenção de falar o que eu entendi, mas isto não tira minha vontade de retrucar com minhas próprias palavras.Coloco o cabelo atrás da orelha esquerda, deixando as cicatrizes totalmente à mostra, e olho bem nos olhos dele.— Bom, pai. Não recebo a mesma atenção dos homens como antes. Você sabe, antes que isso acontecesse. — Indico meu rosto, mas já me arrependo das palavras que escapuliram da minha boca.
Por que sempre desço ao nível dele? Sou melhor do que isso.Os olhos dele se fixam no meu rosto e logo baixam à mesa.Ele parece sinceramente arrependido e penso em parar com a amargura e ser um pouco mais legal com meu pai. Mas antes que qualquer coisa gentil possa sair da minha boca, o cara da mesa atrás do meu pai se levanta e minha atenção vai para o espaço. Tento puxar o cabelo para cobriro rosto antes que ele se vire, mas é tarde demais. Já está meolhando de novo.O mesmo sorriso que deu para mim antes continua fixoem seu rosto, mas desta vez não viro o rosto. Na verdade,meus olhos não desviam dos dele enquanto ele segue nadireção da nossa mesa. Antes que eu consiga reagir, ele estáse sentando ao meu lado.Puta merda. Mas o que ele está fazendo?— Desculpe pelo atraso, amor — diz ele, passando o braço pelos meus ombros. Ele acabou de me chamar de amor. Esse cara aleatório colocou obraço em volta de mim e me chamou de amor.Que diabo está acontecendo?Olho para o meu pai, pensando que de algum modo ele está envolvido nisso, mas ele olha o cara desconhecido ao meu lado com uma confusão ainda maior do que a que eu devo estar sentindo.Enrijeço sob o braço do garoto quando sinto seus lábios pressionarem a lateral da minha cabeça.— Essa porcaria de trânsito de Los Angeles — murmura ele.O Cara Aleatório acabou de encostar os lábios no meu cabelo.O quê.Está. Acontecendo.
O cara estende o braço pela mesa para apertar a mãodo meu pai.— Meu nome é Ben — diz ele. — Benton James Kessler.Namorado da sua filha.O que da filha dele?Meu pai retribui o aperto de mão. Tenho certeza absoluta de que minha boca está escancarada, então a fecho no mesmo instante. Não quero que meu pai saiba que não faço amenor ideia de quem é esse sujeito. Também não queroque esse Benton pense que fiquei boquiaberta porque gostoda atenção dele. Só estou olhando para ele assim porque...bom... porque obviamente ele é louco.Ele solta a mão do meu pai e se acomoda à mesa. Dá uma breve piscadela para mim e se curva em minha direção, aproximando o suficiente a boca da minha orelha para que um soco nele seja algo justificável.— Siga minhas deixas — sussurra ele.Ele se afasta, ainda sorrindo.Seguir as deixas dele? O que é isso? Uma atividade do curso de improvisaçãodele?Então me dou conta. Ele entreouviu toda a nossa conversa. Deve estar fingindo ser meu namorado numa forma estranha de enfrentar meu pai. Hum. Acho que gosto do meu novo namorado falso.Agora que sei que está jogando com meu pai, abro um sorriso afetuoso para ele.— Não achei que você fosse conseguir chegar. — Eu me inclino para Ben e olho para o meu pai.— Amor, você sabe que eu queria conhecer o seu pai.Você quase nunca consegue vê-lo. Nenhum trânsito ia me impedir de aparecer hoje.
Abro um sorriso satisfeito para o meu novo namorado falso por esse sarcasmo. Ben também deve ter um pai babaca, porque parece saber exatamente o que dizer.— Ah, me desculpe — diz Ben, voltando-se para o meu pai. — Não sei seu nome.Meu pai já está olhando com reprovação para Ben. Meu Deus, estou adorando isso.— Donovan O’Neil — diz meu pai. — Você já deve ter ouvido esse nome. Fui o astro de...— Não — interrompe Ben. — Não me lembra nada. —Ele se vira para mim e dá uma piscadela. — Mas Fallon me falou muito sobre você. — Ele belisca meu queixo e volta a olhar para o meu pai. — E por falar na nossa garota, o que acha de ela se mudar para Nova York? — Ele volta a olhar para mim e franze o cenho. — Não quero que minha joaninha fuja para outra cidade, mas se isso significa que ela está indo atrás do próprio sonho, serei o primeiro a garantir que ela pegue esse avião. Joaninha? É melhor ele se contentar em ser meu namorado falso, porque esse apelido brega me deixou com vontade de dar um chute no saco mentiroso dele.Meu pai pigarreia, evidentemente pouco à vontade com nosso novo convidado para o almoço.— Consigo pensar em alguns sonhos que uma menina de 18 anos deveria ter, mas a Broadway não é um deles. Ainda mais considerando a carreira que ela já teve. A Broadwayé um retrocesso, na minha opinião. Ben se ajeita na cadeira. Ele tem um cheiro muito bom. Eu acho. Já faz tanto tempo que não me sento tão perto de umcara, que talvez ele tenha um cheiro completamente normal.— Ainda bem que ela tem 18 anos — responde Ben. —A essa altura, não importa muito a opinião dos pais sobre oque ela faz com a própria vida.
Sei que ele só está representando, mas ninguém nuncame defendeu desse jeito. Isso está dando a impressão deque meus pulmões estão se contraindo. Pulmões idiotas.— Não é uma opinião quando vem de um profissional da área — diz meu pai. — É um fato. Estou neste negócio há tempo suficiente para saber quando alguém precisa cair fora.Viro repentinamente a cabeça para o meu pai no instante em que o braço de Ben fica tenso em meus ombros.— Cair fora? — repete Ben. — Você realmente disse...em voz alta... que sua filha precisa desistir? Meu pai revira os olhos e cruza os braços enquanto olha com raiva para Ben, que retira o braço dos meus ombros e imita os movimentos do meu pai, fuzilando-o com os olhos também. Meu Deus, isso é tão desconfortável. E tão maravilhoso.Nunca vi meu pai agindo assim. Nunca o vi antipatizar com alguém de cara.— Escute aqui, Ben. — Ele diz o nome com a boca cheia de desprazer. — Fallon não precisa que você encha a cabeça dela com coisas absurdas simplesmente porque você está animado com a perspectiva de ter um casinho na Costa Leste.Ah, meu Deus. Meu pai acaba de se referir a mim como ocasinho desse cara? Fico boquiaberta enquanto ele continua:— Minha filha é esperta. É durona. Ela aceita que a carreiraque teve durante toda a vida está fora de cogitação,agora que... — Ele gesticula para mim. — Agora que ela...Ele é incapaz de terminar a própria frase e o arrependimento toma conta do seu rosto. Sei exatamente o que ele estava prestes a dizer. Há dois anos ele diz tudo, menos isso.Há apenas dois anos, eu era uma das atrizes adolescentesde melhores perspectivas, e no instante em que o incêndio
destruiu minha aparência, o estúdio rescindiu o contrato. Acho que ele lamenta não ser mais o pai de uma atriz mais do que lamenta ter quase perdido a filha em um incêndio provocado por seu próprio descuido.Depois que meu contrato foi cancelado, nunca mais falamos sobre a possibilidade de eu voltar a atuar. Na verdade, nunca falamos sobre mais nada. Ele deixou de ser o pai que passava dias inteiros no set comigo por um ano e meio,e passou a ser o pai que vejo talvez uma vez por mês. Então eu juro que ele vai concluir o que estava prestes afalar. Faz dois anos que espero para ouvi-lo confessar que é por causa da minha aparência que não tenho mais uma carreira. Até hoje, sempre foi uma suposição silenciosa. Nunca falamos do porquê de eu não trabalhar mais como atriz.Só falamos do fato de que não atuo. E já que ele começou,também seria legal ouvi-lo confessar que o incêndio aindadestruiu nosso relacionamento. Ele não sabe mais como ser um pai para mim, agora que não está mais agindo como treinador e empresário.Estreito os olhos na direção dele.— Termine a frase, pai.Ele balança a cabeça, tentando desprezar totalmente o assunto. Ergo uma sobrancelha, desafiando-o a continuar.— Quer mesmo fazer isso agora? — Ele dá uma olhada em Ben, na esperança de usar meu namorado falso como pretexto.— Na verdade, quero.Meu pai fecha os olhos e suspira fundo. Quando osabre de volta, se inclina para a frente e cruza os braços namesa.— Você sabe que eu te acho bonita, Fallon. Pare de distorcerminhas palavras. É que esta área tem padrões mais
elevados do que um pai e tudo o que posso fazer é aceitar .Na realidade, achei que nós tínhamos aceitado isso — diz ele, olhando para Ben. Mordo o interior da minha bochecha para não dizer nada de que vá me arrepender. Eu sempre soube a verdade.Quando me vi no espelho pela primeira vez no hospital, eu sabia que estava tudo acabado. Mas ouvir meu pai admitirem voz alta que ele também acha que eu devia parar de ira trás dos meus sonhos é demais para mim.— Uau — murmura Ben. — Isso foi... — Ele olha para o meu pai e balança a cabeça, enojado. — Você é o pai dela.Se eu não soubesse a verdade, diria que a careta de Ben é autêntica e ele não está só atuando.— Exatamente. Sou o pai dela. Não a mãe, que alimenta qualquer besteira que ela acha que fará sua garotinha se sentir melhor. Nova York e Los Angeles estão cheias de milhares de garotas indo atrás do mesmo sonho que Fallon vem buscando a vida toda. Garotas que são muito talentosas.Excepcionalmente bonitas. Fallon sabe que eu acredito que ela tem mais talento do que todas as outras juntas, ma sela também é realista. Todo mundo tem sonhos, mas, infelizmente,ela não possui mais as ferramentas para realizar os dela. Precisa aceitar isso antes de desperdiçar dinheiro em uma mudança para o outro lado do país que não vai fazer droga nenhuma pela carreira dela. Fecho os olhos. Quem quer que tenha dito que averdade machuca estava sendo otimista. A verdade é uma filha da puta que provoca uma dor excruciante.— Meu Deus — diz Ben. — Você é inacreditável.— E você não é realista — retruca meu pai.Abro os olhos e cutuco o braço de Ben, para que ele saiba que quero sair da mesa. Não posso mais fazer isso.
Ben não se mexe. Em vez disso, passa a mão por baixo da mesa e aperta meu joelho, insistindo que eu fique sentada. Minha perna enrijece com seu toque, porque meu corpo está mandando sinais confusos ao meu cérebro. Agora estou zangada com meu pai. Muito zangada. Mas de algum modo me sinto reconfortada por este completo estranho que me defende sem nenhum motivo aparente. Estou com vontade de gritar, sorrir e chorar, mas, acima de tudo, quero alguma coisa para comer. Porque agora estou com fome de verdade e quero salmão quente, droga!Tento relaxar a perna para que Ben não sinta como estou tensa, mas ele é o primeiro cara em muito tempo a me tocar de verdade. Para ser sincera, é um pouco esquisito.— Deixe eu te perguntar uma coisa, Sr. O’Neil — começa Ben. — Johnny Cash tinha lábio leporino?Meu pai fica em silêncio. Eu também, torcendo para que a Ben esteja querendo chegar a algum lugar com sua pergunta aleatória. Ele estava indo muito bem até começar a falar de cantores country.Meu pai olha para Ben como se ele fosse louco.— Mas o que um cantor country tem a ver com esta conversa?— Tudo — responde Ben depressa. — Não, ele não tinha. Mas o ator que o interpretou em Johnny e June tinha uma cicatriz muito visível no rosto. Joaquin Phoenix foi até indicado ao Oscar por esse papel.Os batimentos do meu coração se aceleram quando entendo o que ele está fazendo.— E Idi Amin? — pergunta Ben. Meu pai revira os olhos, entediado com este interrogatório.— O que tem ele?
— Ele não era vesgo. Mas o ator que fez o papel... ForestWhitaker... é. Outro indicado ao Oscar, que estranho. E eleganhou.Esta é a primeira vez que vejo alguém colocar meu paiem seu devido lugar. E por mais que toda essa conversa esteja me deixando desconfortável, não estou tão desconfortável assim para deixar de curtir este momento raro e bonito.— Parabéns — diz meu pai a Ben, nem um pouco impressionado.— Você ouviu falar de dois exemplos bem--sucedidos em meio a milhões de fracassos.Tento não levar as palavras do meu pai para o lado pessoal, mas é difícil. A essa altura, sei que se tornou mais uma luta pelo poder entre os dois, e menos sobre mim e ele. Mas é uma grande decepção que ele prefira ganhar uma discussão com um completo desconhecido a defender a própria filha.— Se sua filha é tão talentosa como você alega, você não iria querer encorajá-la a não desistir de seus sonhos? Porque você quer que ela veja o mundo como você? Meu pai enrijece.— E como exatamente você acha que eu vejo o mundo,Sr. Kessler? Ben se recosta na cadeira sem desviar os olhos do meu pai.— Pelos olhos fechados de um babaca arrogante.O silêncio que se segue parece a calmaria que precede a tempestade. Espero um deles dar o primeiro soco, mas, emvez disso, meu pai tira a carteira do bolso. Joga dinheiro na mesa e olha diretamente para mim.— Posso ser sincero demais, mas se prefere ouvir besteira,então esse imbecil é perfeito para você. — Ele sai da mesa. — Aposto que sua mãe adora ele — resmunga.
Estremeço com as palavras dele e morro de vontade de gritar um insulto de volta. Um insulto tão épico que deixaria seu ego ferido por dias. O único problema é que não há nada que alguém possa dizer para magoar um homem sem coração. Em vez de gritar alguma coisa enquanto ele sai pela porta, simplesmente fico sentada em silêncio. Com meu namorado falso. Este só pode ser o momento mais humilhante e constrangedor da minha vida. Assim que sinto a primeira lágrima escorrer, empurro o braço de Ben.— Preciso sair — sussurro. — Por favor. Ele sai da mesa e mantenho a cabeça baixa ao me levantar e passar por ele. Não me atrevo a olhar para ele enquanto vou mais uma vez ao banheiro. O fato de que ele sentiu necessidade de fingir ser meu namorado já é constrangedor o bastante. Mas eu precisava ter a pior briga de todas com meu pai bem na frente dele? Se eu fosse Benton James Kessler, daria um fora em mim de mentirinha agora mesmo. Fonte Galera Record

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