segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Trecho do terceiro livro Outlander de Daiana Gabaldon

Oi!!

Gente, estou super ansiosa para poder ler o livro Outlander da autora Daiana Gabaldon, super, me recomendaram esta série e estou contando os minutos para te-los em mãos para ler, ainda não li nada desta série, por isso a curiosidade esta me matando. O livro esta disponível para compra nas livrarias, e para vocês que já acompanham e para os que assim com eu, ainda não leu, segue abaixo um trecho do segundo livro.

Foto: Capa Livro
O Resgate no Mar parte II
Livro: O Resgate no mar  Parte II 
Série: Outlander
Autor: Daiana Gabaldon
Tradução: Geni Hirata
Comprar: Saraiva Cultura Amazon

"A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO

Foi uma viagem de quatro dias a cavalo de Arbroath a Lallybroch,
e houve pouca conversa durante o trajeto. Tanto o Jovem Ian
quanto Jamie estavam preocupados, provavelmente por razões
diferentes. Quanto a mim, estava ocupada pensando, não só sobre o pas‑
sado recente, mas sobre o futuro imediato.
Ian devia ter contado a meu respeito a Jenny, irmã de Jamie. Como
ela receberia o meu reaparecimento?
Jenny Murray fora o mais próximo que eu tivera de uma irmã e
sem dúvida a melhor amiga da minha vida. Devido às circunstâncias, a
maioria dos meus amigos mais próximos nos últimos quinze anos era
de homens; não havia outras médicas, e o abismo natural entre o pessoal
da enfermagem e os médicos impedia mais do que um relacionamento
superficial com as outras mulheres que trabalhavam no hospital. Quanto
ao círculo de Frank, às secretárias dos departamentos e às esposas dos
professores...
Acima de tudo, entretanto, havia a certeza de que, de todas as pessoas
do mundo, Jenny era a que devia amar Jamie tanto quanto eu — se
não mais. Eu estava ansiosa para revê-la, mas não podia deixar de imaginar
como ela aceitaria a história da minha suposta fuga para a França,
e meu aparente abandono de seu irmão.
Os cavalos tinham que seguir em fila indiana pela estreita trilha
de descida. Minha própria égua baia reduziu o passo obedientemente
quando o alazão de Jamie parou, depois virou, segundo seu comando,
em direção a uma clareira, semioculta por uma abóbada de galhos de
amieiros.
Um rochedo cinzento erguia‑se à margem da clareira; suas fendas,
protuberâncias e prateleiras estavam tão recobertas de musgo e liquens
que ele parecia o rosto de um velho parcialmente coberto de pelos e salpicado
de verrugas. O Jovem Ian desceu de seu pônei com um suspiro
de alívio; estávamos cavalgando desde o alvorecer.
— Ufa! — exclamou ele, esfregando as costas com força. — Estou
todo dormente.
— Eu também — disse, fazendo o mesmo. — Mas imagino que seja
melhor do que ficar com o traseiro esfolado da sela. — Desacostumados
de montar por longas horas a fio, tanto Ian quanto eu sofremos muito
nos dois primeiros dias da viagem. Na realidade, eu estava tão dolorida
na primeira noite que não consegui nem desmontar sozinha; tive que
ser erguida de meu cavalo de forma humilhante e carregada para dentro
da estalagem nos braços de Jamie, para seu grande divertimento.
— Como o tio Jamie consegue? — perguntou‑me Ian. — O traseiro
dele deve ser de couro.
— Não dá para saber — retruquei distraidamente. — Mas para onde
ele foi? — O alazão, já amarrado, mordiscava o capim sob um carvalho a
um dos lados da clareira, mas não havia nenhum sinal de Jamie.
Eu e o Jovem Ian nos entreolhamos; dei de ombros e dirigi‑me para
o paredão do rochedo, onde um filete de água escorria. Mergulhei as
mãos em concha na água e bebi, satisfeita com o líquido frio que descia
pela minha garganta seca, apesar do ar de outono que avermelhava minhas
faces e deixava meu nariz dormente.
Aquela minúscula clareira num vale estreito, invisível da estrada,
era uma característica da maior parte da paisagem das Terras Altas,
pensei. Enganadoramente áridos e inóspitos, os penhascos e charnecas
eram cheios de segredos. Se você não conhecesse a região, poderia caminhar
a poucos centímetros de um veado, uma tetraz ou um homem
escondido e nem perceber. Não era de admirar que a maioria dos que
fugiram para os urzais após a Batalha de Culloden tivessem conseguido
escapar. O conhecimento desses esconderijos tornava‑os invisíveis aos
olhos cegos e aos pés desajeitados dos perseguidores ingleses.
Com a sede saciada, virei‑me e quase me choquei contra Jamie, que
parecia ter brotado da terra por um passe de mágica. Ele colocava sua
caixa de pederneira de volta no bolso do casaco, que exalava um leve
cheiro de fumaça. Deixou um graveto queimado cair na grama e esmagou‑o
na terra com o pé.
— De onde você surgiu? — perguntei, piscando de surpresa. — E
por onde andou?
— Há uma pequena caverna ali adiante — explicou ele, apontando
para trás com o polegar. — Eu só queria ver se alguém esteve lá.
— E alguém esteve? — Olhando mais atentamente, pude ver a borda
do afloramento de rocha que ocultava a entrada da caverna. Disfarçada
entre as outras fendas profundas, só seria vista por uma pessoa que
a estivesse procurando.
— Sim — disse ele. Sua testa estava ligeiramente franzida, não de
preocupação, mas como se estivesse pensando. — Há carvão misturado
à terra; alguém fez uma fogueira lá.
— Quem você acha que foi? — perguntei. Estiquei o pescoço para
espiar além da borda do afloramento, mas não vi nada além de uma
estreita faixa escura, uma pequena fissura na superfície da montanha.
Parecia bastante inóspita.
Imaginei se um de seus contatos com o contrabando teria seguido
seu rastro desde o litoral até Lallybroch. Ele estaria preocupado com uma
perseguição ou uma emboscada? Olhei por cima do ombro, mas não
vi nada além de amieiros, folhas secas farfalhando na brisa de outono.
— Não sei — disse ele, absorto. — Um caçador, imagino. Há ossos
de tetraz espalhados por lá também.
Jamie não parecia perturbado com a possível identidade do desconhecido
e eu relaxei, sentindo-me segura por estar nas Terras Altas.
Tanto Edimburgo quanto a enseada dos contrabandistas pareciam muito distantes.
O Jovem Ian, fascinado com a revelação da caverna invisível, desaparecera
pela fenda. Reapareceu agora, tirando uma teia de aranha dos
cabelos.
— É como a caverna de Cluny, tio? — perguntou ele, os olhos brilhantes.
— Não tão grande, Ian — respondeu Jamie com um sorriso. — O
pobre Cluny não conseguiria passar por esta entrada. Era um sujeito
corpulento, sua cintura era quase o dobro da minha. — Tocou o peito
com melancolia, no ponto onde um botão fora arrancado quando ele se
espremeu para passar pela entrada estreita.
— O que é a caverna de Cluny? — perguntei, sacudindo as últimas
gotas de água gelada das minhas mãos e enfiando‑as sob as axilas para
aquecê-las.
— Ah, é Cluny MacPherson — respondeu Jamie, jogando água
fria no rosto. Piscou várias vezes para retirar as gotículas cintilantes
de suas pestanas e sorriu para mim. — Um homem muito engenhoso,
o Cluny. Os ingleses incendiaram sua casa e demoliram as fundações,
mas ele escapou. Construiu para si um lugar quente e confortável
numa caverna próxima e fechou a entrada com galhos de salgueiro
entrelaçados e vedados com barro. As pessoas diziam que se podia
ficar a um metro de distância e não perceber que havia uma caverna
ali, a não ser pelo cheiro do cachimbo de Cluny.
— O príncipe Charles também ficou lá, durante certo tempo, quando
estava sendo caçado pelos ingleses — informou o Jovem Ian. —
Cluny escondeu‑o por vários dias. Os malditos ingleses procuraram‑no
por toda parte, mas nunca encontraram Sua Alteza, ou o próprio Cluny!
— concluiu ele, com satisfação.
— Venha aqui lavar‑se, Ian — disse Jamie, com um tom áspero que
fez o Jovem Ian piscar. — Você não pode encarar seus pais imundo desse
jeito.
Ian suspirou, mas obedientemente começou a jogar água no rosto,
cuspindo e arfando. Ele não estava muito imundo, mas inegavelmente
apresentava uma ou duas manchas da viagem.
Virei‑me para Jamie, que observava as abluções do sobrinho com
um ar de abstração. Eu me perguntei se ele antecipava o que prometia
 ser um encontro desagradável em Lallybroch ou se rememorava
Edimburgo, com as ruínas fumegantes de sua gráfica e o homem morto
 no porão do bordel. Ou algo mais distante ainda: Charles Edward
Stuart e a época da revolução.
— O que você diz a seus sobrinhos a respeito dele? — perguntei
baixinho, sob o resfolegar de Ian. — De Charles?
Jamie me encarou com uma expressão perspicaz; eu estava certa,
então. Seu olhar enterneceu‑se ligeiramente e surgiu o esboço de um
sorriso, mas ele logo ficou sério.
— Nunca falo dele — disse ele, também baixinho. Em seguida, virou‑se
e foi pegar os cavalos.
Três horas mais tarde, atravessamos o último desfiladeiro varrido pelo
vento e saímos na descida final que levava a Lallybroch. Jamie, na liderança,
 freou o cavalo e esperou até que o Jovem Ian e eu o alcançássemos.
— Lá está — disse ele. Olhou para mim, sorrindo, uma das sobrancelhas
erguida. — Mudou muito?
Sacudi a cabeça, arrebatada. À distância, a casa parecia absolutamente igual.
Construída com pedras caiadas de branco, tinha três andares e reluzia
imaculadamente em meio ao aglomerado de construções anexas
 simples e a extensão de campos marrons cercados por um
muro de pedras. Na pequena elevação atrás da casa erguiam‑se as ruínas
da torre antiga, uma construção circular de pedras que dava nome
ao lugar.
Ao examinar mais atentamente, pude ver que as construções externas
haviam mudado um pouco; Jamie dissera‑me que os soldados ingleses
haviam incendiado o pombal e a capela no ano seguinte a Culloden,
e eu podia ver as lacunas onde antes eles ficavam. No espaço onde
o muro da horta desmoronara havia agora uma rocha de cor diferente
e um novo barracão construído com pedras e sobras de madeira estava
evidentemente servindo de pombal, a julgar pela fileira de aves gordas
e emplumadas alinhada na viga da cumeeira, aproveitando o sol tardio
do outono.
A roseira silvestre plantada pela mãe de Jamie, Ellen, transformara‑se
num exuberante emaranhado, espalhado pela treliça presa à parede
lateral da casa, somente agora perdendo as últimas folhas.
Uma nuvem de fumaça erguia‑se da chaminé a oeste, sendo levada
na direção sul por um vento vindo do mar. Tive uma repentina visão do
fogo na lareira da sala de estar, sua luz rosada no rosto bem delineado de
Jenny, na noite em que ela estava em sua poltrona, lendo em voz alta um
romance ou livro de poesia, enquanto Jamie e Ian se entretinham em um
jogo de xadrez, ouvindo apenas parcialmente. Quantas noites passamos
assim, as crianças nas suas camas nos quartos em cima e eu sentada à
escrivaninha de jacarandá, escrevendo receitas de remédios ou fazendo
intermináveis consertos de roupas?
— Você acha que nós vamos viver aqui outra vez? — perguntei a
Jamie, com o cuidado de não deixar transparecer nenhum saudosismo
na voz. Mais do que qualquer outro lugar, a casa de Lallybroch fora um
lar para mim, mas isso acontecera há muito tempo, e uma infinidade de
coisas tinha mudado desde então.
Ele fez uma longa pausa, pensando. Por fim, sacudiu a cabeça, recolhendo
as rédeas na mão.
— Não sei, Sassenach — disse ele. — Seria bom, mas... não sei como
vão ser as coisas. — Franziu ligeiramente a testa, olhando para a casa lá
embaixo.
— Tudo bem. Se vivermos em Edimburgo, ou mesmo na França,
está tudo bem, Jamie. — Ergui os olhos para seu rosto e toquei sua mão
para tranquilizá‑lo. — O que importa é que estejamos juntos.
O leve ar de preocupação desfez‑se por um instante, tornando suas
feições mais leves. Ele tomou minha mão, levou‑a aos lábios e beijou‑a
delicadamente.
— Eu também não me importo, Sassenach, desde que você esteja
ao meu lado.
Permanecemos ali, fitando um ao outro nos olhos, até que um pigarro
alto e exagerado nos alertou da presença do Jovem Ian. Respeitoso
com nossa privacidade, mostrara‑se circunspecto na viagem de
Edimburgo, embrenhando‑se a uma grande distância nos urzais quando
acampávamos, esforçando‑se para não nos surpreender inadvertidamente
em um abraço indiscreto.
Jamie riu e apertou a minha mão antes de soltá‑la e virar‑se para o
sobrinho.
— Estamos quase chegando, Ian — disse ele, quando o garoto
trouxe o pônei para junto de nós. — Se não chover, chegaremos bem
antes do jantar — acrescentou, estreitando os olhos sob a proteção
da mão para avaliar as nuvens que flutuavam sobre as montanhas
Monadhliath.
— Mmmhummm. — O Jovem Ian não parecia entusiasmado com
a perspectiva e eu olhei para ele com simpatia.
— Lar é o lugar onde você sempre deve ser aceito quando precisar
— parafraseei o famoso poema de Robert Frost.
O Jovem Ian lançou‑me um olhar enviesado.
— Sim, é isso que eu temo, tia.
Jamie, ouvindo a conversa, olhou para trás, para o Jovem Ian, e deu
uma piscadela encorajadora.
— Não fique desanimado, Ian. Lembre‑se da parábola do filho pródigo,
hein? Sua mãe vai ficar feliz de vê‑lo de volta são e salvo.
O Jovem Ian lançou‑lhe um olhar de profunda descrença.
— Se você pensa que é o novilho engordado que vai ser morto, tio
Jamie, não conhece minha mãe tão bem.
O garoto ficou parado, mordendo o lábio inferior por um instante,
depois se endireitou na sela com um profundo suspiro.
— É melhor acabar logo com isso, não é?
— Será que os pais dele vão ser realmente duros? — perguntei, observando
o Jovem Ian prosseguir com todo o cuidado pela descida pedregosa.
Jamie deu de ombros.
— Bem, eles o perdoarão, é claro, mas é provável que receba uma
grande descompostura e uma surra no lombo antes disso. Terei sorte se
escapar com o mesmo — acrescentou ele ironicamente. — Receio que
Jenny e Ian não vão ficar muito satisfeitos comigo também. — Ele atiçou
sua montaria e começou a descer a encosta. — Vamos, Sassenach. É melhor
acabar logo com isso, não é?
Eu não sabia ao certo o que esperar da nossa recepção em Lallybroch,
mas, na verdade, ela foi reconfortante. Como em todas as chegadas anteriores,
 nossa presença foi anunciada por um bando variado de cachorros,
que saíram em disparada pela cerca viva, pelo campo e pela horta,
primeiro latindo para intimidar, depois de alegria.
O Jovem Ian largou as rédeas e apeou no meio do mar peludo de
boas‑vindas, agachando‑se para saudar os cachorros que pulavam sobre
ele e lambiam seu rosto. Levantou‑se sorrindo, com um filhote nos braços,
que trouxe para me mostrar.
— Este é Jocky — disse ele, erguendo o inquieto cãozinho branco e
marrom. — É meu; papai o deu pra mim.
— Lindo cachorrinho — disse a Jocky, acariciando suas orelhas
pendentes. O cãozinho latiu e contorceu‑se de satisfação, tentando lamber
a mim e a Ian simultaneamente.
— Você está ficando coberto de pelos de cachorro, Ian — disse uma
voz límpida, aguda, em tom de acentuada desaprovação. Erguendo os
olhos, vi uma jovem alta e esbelta de mais ou menos dezessete anos,
levantando‑se do seu banco ao lado da estrada.
— Bem, e você está coberta de cauda‑de‑raposa, pronto! — retorquiu
o Jovem Ian, virando para se dirigir à pessoa que lhe falava.
A jovem jogou para trás a cabeleira de cachos castanho‑escuros e
inclinou‑se para limpar a saia, que de fato tinha inúmeros resquícios da
planta grudados no tecido rústico.
— Papai disse que você não merece ter um cachorro — observou
ela. — Fugindo e abandonando‑o como fez.
O rosto de Ian crispou‑se defensivamente.
— Eu realmente pensei em levá‑lo — disse ele, a voz ligeiramente
entrecortada. — Mas achei que não estaria a salvo na cidade. — Abraçou
o cachorro com mais força, o queixo descansando entre as orelhas peludas.
 — Ele cresceu um pouco. Está comendo bem?
— Veio nos cumprimentar, não é, pequena Janet? Muita gentileza
sua. — A voz de Jamie soou agradavelmente atrás de mim, mas com um
tom cínico que fez a jovem erguer o olhar de repente e corar.
— Tio Jamie! Oh, e... — Seu olhar voltou‑se para mim e ela abaixou
a cabeça, ficando ainda mais vermelha.
— Sim, esta é sua tia Claire. — Jamie segurava meu cotovelo
com firmeza ao balançar a cabeça, cumprimentando a jovem. —
A pequena Janet ainda não havia nascido da última vez que você
esteve aqui, Sassenach. Sua mãe está em casa, não é? — disse ele,
dirigindo‑se a Janet.
A jovem assentiu, me encarando com os olhos arregalados de fascínio.
Inclinei‑me sobre o meu cavalo e estendi‑lhe a mão, sorrindo.
— Prazer em conhecê‑la — disse.
Ela fitou‑me por um longo instante, depois se lembrou repentina‑
mente de seus modos e flexionou os joelhos numa rápida saudação. Levantou‑se
e apertou minha mão cautelosamente, como se receasse que
ela fosse se evaporar. Retribuí o cumprimento e ela pareceu um pouco
mais calma, ao ver que eu era de carne e osso.
— Muito... prazer, senhora — murmurou ela.
— Mamãe e papai estão muito zangados, Jen? — O Jovem Ian colocou
o cachorrinho no chão delicadamente, junto a seus pés, quebrando
o transe. Ela olhou para seu irmão mais novo, a expressão de impaciência
mesclada a certa compaixão.
— Bem, e por que não estariam, seu cabeça de vento? — disse ela.
— Mamãe achava que você talvez tivesse se deparado com um urso na
floresta ou tivesse sido levado pelos ciganos. Ela mal dormiu enquanto
não descobriram onde você estava — acrescentou, olhando para o irmão
com uma expressão ameaçadora.
Ian cerrou os lábios com força, abaixando os olhos para o chão, mas
não retrucou.
Ela se aproximou e, com ar de desaprovação, começou a retirar as
folhas amareladas e úmidas grudadas nas mangas de seu casaco. Apesar
de ela ser alta, ele a ultrapassava em mais de quinze centímetros, esquelético
e desengonçado ao lado da figura esbelta da jovem. A semelhança
entre eles limitava‑se à cor escura e luxuriante de seus cabelos e a alguns
traços fisionômicos.
— Você está com uma aparência ridícula, Ian. Andou dormindo
de roupa?
— Bem, claro que sim — disse ele, impaciente. — Acha que fugi
com um camisolão e o trocava toda noite na charneca?
Ela deu uma risada diante da imagem, e sua expressão aborrecida
desanuviou‑se um pouco.
— Ora, vamos, então, tolinho — disse ela, com pena. — Venha até
a copa comigo e eu o ajudarei a se pentear e escovar a roupa antes que
mamãe e papai o vejam.
Ele olhou‑a furiosamente, em seguida se voltou para mim, com
uma expressão mista de aborrecimento e perplexidade.
— Por que, em nome de Deus — perguntou ele, a voz entrecortada
de tensão —, todo mundo acha que estar limpo vai ajudar?
Jamie riu e desmontou. Bateu de leve em seu ombro, levantando
uma pequena nuvem de poeira.
— Mal não faz, Ian. Vá com ela. Talvez seja melhor seus pais não
terem que lidar com tantas coisas ao mesmo tempo. Além disso, antes
de mais nada, vão querer ver sua tia.
— Mmmhummm. — Com um impertinente meneio de cabeça, o
Jovem Ian afastou‑se em direção aos fundos da casa, arrastado por sua
determinada irmã.
— O que andou comendo? — perguntou ela, examinando‑o através
de olhos estreitados enquanto se afastavam. — Tem uma grande mancha
de sujeira em volta da boca.
— Não é sujeira, são pelos de barba! — sibilou ele furiosamente,
com um rápido olhar para trás, para ver se Jamie e eu teríamos ouvido a
conversa. Sua irmã parou subitamente, olhando‑o atentamente.
— Barba? — exclamou ela em voz alta, incrédula. — Você?
— Vamos! — Agarrando‑a pelo cotovelo, apressou‑a a atravessar o
portão da horta, os ombros arqueados de acanhamento.
Jamie deitou a cabeça na minha coxa, o rosto enterrado nas minhas saias.
Um observador distraído, acharia que ele estava ocupado em
afrouxar os alforjes e não teria visto seus ombros sacudindo‑se ou ouvido
sua risada baixa.
— Tudo bem, já se foram — eu disse, momentos depois, tentando
recuperar o fôlego depois do esforço para conter o riso.
Jamie levantou o rosto vermelho, sem ar, das minhas saias e usou
uma dobra do tecido para enxugar os olhos.
— Barba? Você? — disse ele com voz esganiçada, imitando a sobrinha,
e nós gargalhamos. Ele sacudiu a cabeça, engasgado. — Nossa, ela
é igual à mãe! Foi exatamente o que Jenny me disse, no mesmo tom de
voz, quando me pegou fazendo a barba pela primeira vez. Quase cortei a
garganta! — Enxugou os olhos outra vez com as costas da mão e passou a
palma delicadamente pela barba curta, macia e espessa, que recobria seu
próprio maxilar e pescoço com uma penugem castanho‑avermelhada.
— Você quer ir barbear‑se primeiro, antes de encontrar‑se com
Jenny e Ian? — perguntei, mas ele balançou a cabeça.
— Não — disse ele, alisando para trás os cabelos que haviam escapado
do laço. — O Jovem Ian tem razão: ficar limpo não vai ajudar.
Eles deviam ter ouvido os cachorros lá fora; tanto Ian quanto Jenny estavam
na sala de estar quando entramos, ela no sofá tricotando meias de
lã, enquanto ele esquentava a parte de trás das pernas, de pé diante da
lareira, de casaco e calças de tecido marrom liso. Uma bandeja de bolinhos
com uma garrafa de cerveja caseira estava arranjada, obviamente
aguardando a nossa chegada.
Era uma cena muito aconchegante e acolhedora, e eu senti o can‑
saço da viagem esvair‑se quando entramos no aposento. Ian virou‑se
assim que nos viu, ainda contrafeito, mas sorrindo — no entanto, era
Jenny quem eu estivera procurando.
Ela também estivera à minha procura. Permaneceu imóvel no sofá,
os olhos arregalados, voltados para a porta. Minha primeira impressão
foi a de que ela estava muito diferente; a segunda, a de que ela não mudara
absolutamente nada. Os cachos negros continuavam lá, espessos
e viçosos, mas grisalhos e com mechas de pura prata. A estrutura óssea
também era a mesma — as maçãs do rosto altas, largas, o maxilar forte,
o nariz longo como o de Jamie.
Foi a luz bruxuleante do fogo na lareira e as sombras do final de tarde
que davam a estranha impressão de mudança, às vezes aprofundando
as linhas ao redor da boca e dos olhos até ela parecer uma mulher
idosa e encarquilhada; outras vezes, apagando‑as com o brilho avermelhado
da juventude.
Em nosso primeiro encontro no bordel, Ian agira como se eu fosse
um fantasma. Jenny reagia quase da mesma forma agora, piscando levemente,
a boca meio aberta, mas sem alterar a expressão, enquanto eu
atravessava a sala em sua direção.
Jamie vinha logo atrás de mim, a mão no meu cotovelo. Apertou‑o
levemente quando chegamos ao sofá e soltou‑o. Senti‑me um pouco
como se estivesse sendo apresentada na Corte e tive que resistir ao impulso
de fazer uma reverência.
— Estamos em casa, Jenny — disse ele. Sua mão repousava em minhas
costas, incutindo‑me confiança.
Ela dirigiu um olhar rápido ao irmão, depois voltou a fitar‑me.
— É você mesmo, então, Claire? — disse ela com voz baixa e hesitante,
familiar, mas não a voz forte da mulher que eu me lembrava.
— Sim, sou eu — respondi. Sorri e estendi as mãos para ela. — É
muito bom revê‑la, Jenny.
Ela tomou as minhas mãos nas suas, mas com grande leveza. Em
seguida, apertou‑as com um pouco mais de força e se levantou.
— Meu Deus, é realmente você! — disse ela, um pouco ofegante,
e subitamente a mulher que eu conhecera estava de volta, os olhos
azul‑escuros vivos e inquietos, examinando meu rosto com curiosidade.
— Bem, claro que é — disse Jamie bruscamente. — Ian não lhe contou?
Achou que ele estivesse mentindo?
— Você não mudou quase nada — disse ela, ignorando o irmão
enquanto tocava meu rosto, admirada. — Seus cabelos estão um pouco
mais claros, mas, por Deus, você continua a mesma! — Seus dedos estavam
frios; suas mãos cheiravam a ervas e geleia de groselha, e a um leve
vestígio de amônia e lanolina da lã colorida que ela tricotava.
O cheiro da lã, havia muito esquecido, trouxe tudo de volta instantaneamente
— tantas recordações do lugar e a felicidade da época em
que vivera ali — e meus olhos encheram‑se de lágrimas.
Ela notou e abraçou‑me com força, os cabelos macios contra meu
rosto. Ela era bem mais baixa do que eu, de compleição pequena e aparência
geral delicada, mas ainda assim eu tinha a sensação de estar sendo
envolvida, aconchegantemente embalada e presa com braços fortes,
por alguém maior do que eu.
Ela me soltou após alguns instantes e recuou um pouco, meio rindo.
— Nossa, você tem até o mesmo cheiro! — exclamou ela, e eu também
desatei a rir.
Ian aproximara‑se; inclinou‑se e abraçou‑me delicadamente, roçando
os lábios no meu rosto. Ele cheirava vagamente a feno seco e folhas de
repolho, com um resquício de cheiro de fumaça de turfa sobrepondo‑se
ao seu próprio cheiro, almiscarado e penetrante.
— É bom vê‑la de volta, Claire — disse ele. Seus meigos olhos castanhos
sorriram para mim e a sensação de volta ao lar aprofundou‑se. Ele
recuou um passo, um pouco sem jeito, sorrindo. — Gostariam de comer
alguma coisa, talvez? — Indicou a travessa sobre a mesa.
Hesitei por um instante, mas Jamie aceitou prontamente, dirigindo‑se
à mesa com vivacidade.
— Um gole não cairia mal, Ian, muito obrigado — disse ele. — Aceita
um pouco, Claire?
Os copos foram abastecidos, o prato de biscoitos passado de mão
em mão e pequenas amabilidades murmuradas com a boca cheia, enquanto
sentávamos ao redor do fogo. Apesar da aparente cordialidade,
eu tinha plena consciência de uma tensão subjacente, nem toda ela devida
ao meu súbito reaparecimento.
Jamie, sentado ao meu lado no banco de carvalho, de braços e espaldar
alto, tomou apenas um pequeno gole de sua cerveja, deixando o
bolinho de aveia intacto sobre o joelho. Eu sabia que ele não aceitara o
lanche por fome, mas para disfarçar o fato de que nem sua irmã nem seu
cunhado haviam lhe dado um abraço de boas‑vindas.
Percebi Ian e Jenny trocarem um rápido olhar; e um olhar fixo, mais
demorado, inescrutável, entre Jenny e Jamie. Uma estranha ali em mais
de um aspecto, mantive meus próprios olhos abaixados, observando sob
o abrigo das minhas pestanas. Jamie estava sentado à minha esquerda;
pude sentir um pequeno movimento entre nós quando seus dois dedos
rígidos da mão direita tamborilaram em sua coxa.
A conversa, a pouca que havia, definhou e extinguiu‑se, e o aposento
mergulhou num silêncio desconfortável. Através do fraco assobio da
turfa queimando na lareira, eu podia ouvir alguns baques distantes para
os lados da cozinha, mas nada semelhante aos sons que eu costumava
ouvir naquela casa, de atividade e alvoroço constantes, pés sempre ressoando
na escada, os gritos das crianças e o berreiro dos bebês cortando
o ar no seu quarto no andar de cima.
— Como vão todos os seus filhos? — perguntei a Jenny, para quebrar
o silêncio. Ela sobressaltou‑se e percebi que, inadvertidamente, eu
fizera a pergunta errada.
— Ah, vão bem — respondeu ela, hesitante. — Todos muito saudáveis.
E os netos também — acrescentou, exibindo um sorriso repentino
ao mencioná‑los.
— A maioria foi para a casa do Jovem Jamie — complementou Ian,
respondendo à minha verdadeira pergunta. — A mulher dele teve um
bebê na semana passada, de modo que as três meninas foram ajudar
um pouco. E Michael está em Inverness no momento, para buscar algumas
coisas que chegaram da França.
Outro olhar atravessou rapidamente a sala, dessa vez entre Ian e Jamie.
Senti a pequena inclinação da cabeça de Jamie e vi um sinal quase
imperceptível de Ian em resposta. O que, afinal, seria aquilo?, perguntei‑me.
Havia tantas contracorrentes de emoção na sala que senti o súbito impulso
de levantar‑me e impor ordem à reunião, apenas para quebrar a tensão.
Aparentemente, Jamie sentia o mesmo. Ele pigarreou, olhando direto
para Ian, e levantou o principal ponto da agenda, dizendo:
— Nós trouxemos o garoto para casa.
Ian respirou fundo, seu rosto comprido e simples endurecendo ligeiramente.
— Ah, trouxeram, então?
A fina camada de amabilidade visível até então logo desapareceu,
como o orvalho da manhã.
Eu podia sentir a presença de Jamie ao meu lado, ficando mais tenso
ao se preparar para defender o sobrinho da melhor maneira possível.
— Ele é um bom garoto, Ian — disse ele.
— É mesmo? — Foi Jenny quem respondeu, as bem torneadas sobrancelhas
negras unidas no semblante carregado. — Não parece, do
jeito que ele age em casa. Mas talvez ele seja diferente com você, Jamie.
— Havia um forte tom de acusação em suas palavras, e senti Jamie ficar
ainda mais tenso ao meu lado.
— É bondade sua tentar defender o garoto, Jamie — disse Ian, com
um frio aceno da cabeça para seu cunhado. — Mas acho melhor ouvirmos
do próprio Jovem Ian, se não se importa. Ele está lá em cima?
Um músculo junto à boca de Jamie contorceu‑se e ele respondeu de
forma não comprometedora:
— Na copa, eu acho. Ele quis se arrumar um pouco antes de vê‑los.
Sua mão direita deslizou e apertou minha perna, alertando‑me. Ele
não mencionara o encontro com Janet e eu compreendi; ela fora afastada
da casa juntamente com seus irmãos, para que Jenny e Ian pudessem
lidar com a questão do meu reaparecimento e de seu filho pródigo com
alguma privacidade, mas retornara às escondidas, sem que seus pais
percebessem, ou para dar uma olhada em sua famosa tia Claire ou para
oferecer ajuda a seu irmão.
Abaixei os olhos, indicando que eu havia compreendido. Não havia
motivo para mencionar a presença da jovem numa situação já tão carregada
de tensão.
O ruído de passos e da batida regular da perna de pau de Ian soaram
no corredor sem tapete. Ian deixava a sala e dirigia‑se à copa. Retornou
em seguida, conduzindo o Jovem Ian à sua frente com um ar colérico.
O filho pródigo estava tão apresentável quanto sabão, água e uma
lâmina de barbear podiam deixá‑lo. Seus maxilares ossudos estavam
avermelhados do atrito da lâmina e os cabelos na nuca estavam molhados
e espetados, a maior parte da poeira fora escovada de seu casaco e
a gola redonda de sua camisa, perfeitamente abotoada até a clavícula.
Pouco podia ser feito em relação à parte chamuscada de sua cabeça, mas
a outra metade estava perfeitamente penteada. Não usava nenhum lenço
ao pescoço e havia um grande rasgo na perna de sua calça, mas no
cômputo geral ele parecia tão bem quanto qualquer pessoa que espera
ser fuzilada a qualquer momento.
— Mamãe — disse ele, abaixando a cabeça, sem jeito, na direção de
sua mãe.
— Ian — disse ela brandamente, e ele levantou os olhos para ela,
obviamente surpreso com a doçura em seu tom de voz. Um leve sorriso
curvou seus lábios ao ver o rosto do filho. — Estou feliz que você esteja
em casa, são e salvo, mo chridhe — disse ela.
O rosto do rapaz desanuviou‑se instantaneamente, como se ele tivesse
acabado de ouvir o adiamento da pena de morte ser lido para o pelotão
de fuzilamento. Entretanto, viu de relance a expressão no rosto do
pai e retesou‑se. Engoliu em seco e abaixou a cabeça outra vez, olhando
fixamente para as tábuas do assoalho.
— Mmmhummm — disse Ian. Soou como um escocês severo;
muito mais parecido com o reverendo Campbell do que com o homem
calmo e relaxado que eu conhecera um dia. — Muito bem, gostaria de
ouvir o que tem a dizer em sua própria defesa, rapaz.
— Ah. Bem... eu... — A voz do Jovem Ian se esvaiu lamentavelmente,
depois ele limpou a garganta e tentou outra vez. — Bem... nada, na
verdade, papai — murmurou ele.
— Olhe para mim! — disse Ian rispidamente. Seu filho ergueu a
cabeça com relutância e olhou para seu pai, mas seu olhar se desviava,
como se receasse fitar demoradamente o semblante carrancudo à sua
frente.
— Você sabe o que fez à sua mãe? — perguntou Ian. — Desapareceu,
deixando‑a com medo de que estivesse morto ou ferido. Partiu sem
dizer uma palavra, e não havia nem sombra de você por três dias, até Joe
Fraser trazer a carta que você deixou. Pode imaginar o que esses três dias
representaram para ela?
Ou as feições do rosto de Ian ou suas palavras pareceram produzir
um forte efeito em seu filho errante; o Jovem Ian abaixou a cabeça outra
vez, os olhos fixos no chão.
— Sim, bem, pensei que Joe traria a carta mais cedo — murmurou ele.
— Sim, e que carta! — O rosto de Ian ficava cada vez mais congestionado
à medida que falava. — “Fui para Edimburgo”, dizia, desgraçadamente fria.
 — Bateu a mão espalmada sobre a mesa, com uma força
que fez todo mundo estremecer. — Fui para Edimburgo! Nem um “com
sua permissão”, nem “mandarei notícias”, nem nada como “Querida
mãe, fui para Edimburgo. Ian”!
O Jovem Ian levantou a cabeça abruptamente, os olhos flamejando de raiva.
— Isso não é verdade! Eu disse “Não se preocupe comigo” e: “Com
amor, Ian”! Disse, sim! Não foi, mamãe? — Pela primeira vez, ele olhou
para Jenny, suplicante.
Ela mantivera‑se imóvel como uma estátua de pedra desde que seu
marido começara a falar, o rosto composto e indecifrável. Neste momento,
seus olhos se enterneceram e o esboço de um sorriso aflorou à
boca larga e cheia outra vez.
— Disse, sim, Ian — respondeu ela suavemente. — Foi gentil ter
dito... mas eu me preocupei, não é?
Os olhos dele abaixaram‑se e pude ver o enorme pomo de adão subir
e descer em seu pescoço esquelético quando ele engoliu em seco.
— Perdão, mamãe — disse ele, tão baixo que mal pude ouvi‑lo. —
Eu... eu não queria... — Suas palavras desapareceram gradualmente, terminando
num breve dar de ombros.
Jenny fez um movimento impulsivo, como se fosse estender a mão
para ele, mas Ian fitou‑a incisivamente e ela deixou a mão cair no colo.
— A questão é — disse Ian, falando devagar e com clareza — que
não é a primeira vez, hein, Ian?
O garoto não respondeu, mas contorceu‑se ligeiramente num mo‑
vimento que poderia ser considerado de assentimento. Ian deu mais um
passo em direção ao filho. Apesar de serem quase da mesma altura, as diferenças
entre eles eram evidentes. Ian era alto e esbelto, mas de músculos
rijos, um homem vigoroso. Em comparação, seu filho parecia quase frágil,
um pássaro recém‑emplumado e desajeitado.
— Não, não é que você não soubesse o que estava fazendo; que não
o tivéssemos avisado de todos os perigos, que não o tivéssemos proibido
de ir além de Broch Mordha, que não soubesse que nós iríamos ficar
preocupados, hein? Você sabia de tudo isso, e mesmo assim fugiu.
Essa análise implacável de seu comportamento fez com que uma
espécie de tremor indefinido, como uma contorção interna, percorresse
o corpo do Jovem Ian, mas ele manteve um silêncio obstinado.
— Olhe para mim, rapaz, quando eu estiver falando com você!
O garoto levantou a cabeça devagar. Parecia tristonho agora, mas
resignado; evidentemente ele já passara por cenas iguais àquela e sabia
para onde elas caminhavam.
— Nem vou perguntar ao seu tio o que você andou fazendo — disse Ian.
— Só posso esperar que não tenha sido tão tolo em Edimburgo quanto
foi aqui. Mas você me desobedeceu e partiu o coração de sua
mãe, de qualquer forma.
Jenny moveu‑se outra vez, como se fosse falar, mas um movimento
brusco da mão de Ian interrompeu‑a.
— E o que foi que eu lhe disse da última vez, Ian? O que disse quando
lhe dei uma surra? Diga‑me, Ian!
Os ossos do rosto do Jovem Ian pareceram ainda mais proeminentes,
mas ele manteve a boca fechada, selada numa linha de teimosia.
— Diga‑me! — rugiu Ian, batendo a mão na mesa outra vez.
O Jovem Ian piscou em reflexo e contraiu os ombros, depois os endireitou,
como se estivesse tentando alterar seu tamanho, mas estivesse
indeciso entre ficar maior ou tentar ficar menor. Engoliu com dificuldade
e piscou outra vez.
— O senhor disse... disse que ia arrancar meu couro. Na próxima
vez. — Sua voz soou esganiçada e ele fechou a boca com força.
Ian sacudiu a cabeça com profunda desaprovação.
— Sim. E eu que achava que você teria bastante juízo para ver que
não haveria próxima vez, mas eu estava errado, não é? — Inspirou fundo
e expirou com um ronco de desdém. — Estou muito decepcionado com
você, Ian, essa é a verdade. — Fez um gesto com a cabeça indicando a
porta. — Vá lá para fora. Eu o encontro no portão daqui a pouco.
Fez‑se silêncio na sala de estar, enquanto o som dos passos arrastados
do homem cruel desaparecia pelo corredor. Eu mantinha meus
próprios olhos cautelosamente fixos nas mãos, entrelaçadas no colo.
Ao meu lado, Jamie respirou fundo e devagar, e sentou‑se ainda mais
ereto, retesando‑se.
— Ian — falou Jamie suavemente a seu cunhado. — Gostaria que
você não fizesse isso.
— O quê? — A testa de Ian ainda estava franzida de raiva quando
ele se voltou para Jamie. — Dar uma surra no garoto? E o que é que você
tem a dizer a esse respeito, hein?
— Não tenho nada a dizer a respeito, Ian, ele é seu filho. Faça o que
achar melhor. Mas me deixe falar sobre a maneira como ele agiu.
— Como ele agiu? — gritou Jenny, ganhando vida repentinamente.
Ela podia deixar a tarefa de lidar com o filho para Ian, mas quando se
tratava do irmão, não deixaria ninguém falar por ela. — Saindo furtivamente
à noite como um ladrão, é o que quer dizer? Ou talvez queira dizer
associando‑se a criminosos e arriscando o pescoço por causa de
um barril de conhaque!
Ian silenciou‑a com um gesto rápido. Ele hesitou, ainda com o cenho
franzido, mas depois assentiu bruscamente para Jamie, dando-lhe
permissão.
— Associando‑se a criminosos como eu? — perguntou Jamie à
irmã, num tom ríspido. Fitaram‑se diretamente nos olhos, fendas azuis
do mesmo calibre. — Você sabe de onde vem o dinheiro, Jenny, que
mantém você e seus filhos e todos aqui alimentados, e impede o teto de
cair em sua cabeça? Não é da impressão de exemplares dos Salmos em
Edimburgo!
— E por acaso eu achava que era? — retrucou ela. — Eu lhe perguntei
o que você fazia?
— Não, não perguntou — retorquiu ele. — Acho que você preferia
não saber. Mas você sabe, não é?
— E vai me culpar pelo que faz? É culpa minha ter filhos e precisar
alimentá-los? — Ela não ficava vermelha como Jamie; quando Jenny se
descontrolava, ficava mortalmente pálida de raiva.
Eu podia vê‑lo lutando para manter a calma.
— Culpá‑la? Não, claro que não, mas está certo você me culpar por
Ian e eu não conseguirmos manter todos vocês apenas trabalhando a
terra?
Jenny também se esforçava para dominar a raiva crescente.
— Não — disse ela. — Você faz o que tem que fazer, Jamie. Sabe mui‑
to bem que eu não me referia a você quando falei em criminosos, mas...
— Estava se referindo aos homens que trabalham comigo? Eu faço
as mesmas coisas, Jenny. Se eles são criminosos, o que eu sou, então? —
Fitou‑a com raiva, os olhos flamejando de ressentimento.
— Você é meu irmão, por menos que isso me agrade de vez em
quando. Droga, Jamie Fraser! Sabe muito bem que eu não pretendo
questionar o que quer que ache melhor fazer! Se assalta pessoas na estrada
ou mantém um bordel em Edimburgo é porque não há outro jeito.
Isso não significa que eu queira que leve meu filho para fazer parte disso!
Os olhos de Jamie estreitaram‑se ligeiramente à menção do bor‑
del em Edimburgo e ele lançou um rápido olhar de acusação a Ian,
que sacudiu a cabeça. Ele parecia ligeiramente perplexo com a ferocidade da mulher.
— Eu não disse uma palavra — garantia ele. — Você conhece sua
irmã.
Jamie respirou fundo e voltou‑se para Jenny outra vez, obviamente
resolvido a ser sensato.
— Sei, compreendo. Mas não pode pensar que eu colocaria o Jovem
Ian em perigo. Pelo amor de Deus, Jenny, eu gosto dele como se fosse
meu próprio filho!
— É mesmo? — exclamou ela com notório ceticismo. — Então foi
por isso que o encorajou a fugir de casa e o manteve com você, sem nenhuma
palavra para nos tranquilizar sobre o seu paradeiro?
Dessa vez, Jamie teve a dignidade de se sentir envergonhado.
— Sim, bem, desculpe‑me por isso — murmurou ele. — Eu pretendia...
— Parou e fez um gesto de impaciência. — Bem, não importa o
que eu pretendia, devia ter mandado avisá‑los e não o fiz. Mas quanto a
encorajá‑lo a fugir...
— Não, não acho que você tenha feito isso — interrompeu Ian. —
Não de uma forma direta, de qualquer modo. — A raiva desaparecera
de suas feições. Parecia cansado e um pouco triste. Os ossos do rosto
estavam mais pronunciados, deixando as faces encovadas na mortiça
luz do final de tarde. — A questão é que o garoto o adora, Jamie — disse
ele serenamente. — Eu o vejo prestando atenção a tudo que você diz
quando vem nos visitar e sempre fala sobre o que você faz; eu posso ver
no rosto dele. Ele acha que tudo é animação e aventura, sua maneira de
viver é muito diferente de trabalhar com a pá, juntando bosta de cabra
para a horta da mãe. — Esboçou um sorriso, a contragosto.
Jamie deu ao cunhado um breve sorriso e fez um ligeiro movimento
de ombro.
— Bem, mas é comum um garoto da idade dele querer um pouco de
aventura, não? Você e eu também éramos assim.
— Quer ele queira ou não, não deve participar do tipo de aven‑
turas que vai ter com você — interrompeu Jenny rispidamente. Ela
sacudiu a cabeça, a ruga entre as sobrancelhas aprofundando‑se enquanto
olhava para o irmão com ar de desaprovação. — Deus sabe
que há um feitiço em sua vida, Jamie, ou já teria morrido uma dúzia
de vezes.
— Sim, bem. Suponho que Ele tinha alguma coisa em mente ao me
preservar. — Jamie olhou para mim com um breve sorriso e sua mão
procurou a minha. Jenny também me lançou um olhar, o rosto inescrutável,
depois retornou ao assunto em pauta:
— Bem, pode ser. Mas não posso dizer que o mesmo seja verdade
para o Jovem Ian. — Sua expressão abrandou‑se um pouco ao olhar para
Jamie. — Não sei tudo a respeito da maneira como você vive, Jamie, mas
eu o conheço muito bem para saber que provavelmente não é maneira
de um garoto viver.
— Mmmhummm. — Jamie esfregou a mão em seu queixo áspero
com a barba crescida e tentou outra vez: — Sim, bem, era isso o que eu
queria dizer sobre o Jovem Ian. Ele se comportou como um homem na
semana passada. Não acho certo você surrá‑lo como se fosse um garotinho, Ian.
As sobrancelhas de Jenny ergueram‑se, graciosas asas de escárnio.
— Então agora ele é um homem, hein? Ora, ele não passa de uma
criança, Jamie, ele tem apenas catorze anos!
Apesar de sua contrariedade, Jamie deu um sorriso torto.
— Eu era um homem aos catorze, Jenny — disse ele suavemente.
Ela fez um muxoxo, mas seus olhos marejaram.
— Você achava que era. — Levantou‑se e virou‑se bruscamente,
pestanejando. — Sim, eu me lembro de você naquela época — disse
ela, o rosto virado para a estante de livros. Estendeu a mão como se
precisasse se apoiar, agarrando a borda do móvel. — Você era um belo
rapaz, Jamie, partindo a cavalo com Dougal para o seu primeiro assalto,
a adaga brilhando sobre a perna. Eu tinha dezesseis anos e pensei
que nunca vira algo tão belo quanto você em seu pônei, tão empertigado
e alto. E lembro‑me de você voltando também, todo coberto de
lama e com um arranhão no rosto por ter caído no meio do matagal,
e Dougal gabando‑se da sua bravura para o papai, dizendo que você
arrebanhara seis vacas sozinho e levara um golpe na cabeça com a
prancha de um espadão sem dar sequer um gemido por isso. — Com
o rosto novamente controlado, ela voltou‑se de sua contemplação dos
livros para encarar o irmão. — Isso é ser homem, é?
Uma ponta de humor infiltrou‑se de novo no semblante de Jamie
quando ele encontrou o olhar da irmã.
— Sim, bem, talvez haja mais alguma coisa além disso — disse ele.
— Há mesmo? — disse ela, ainda mais secamente. — E o que será?
Ser capaz de deitar‑se com uma garota? Ou matar um homem?
Eu sempre achara que Janet Fraser era um pouco vidente, par‑
ticularmente no que dizia respeito ao irmão. Evidentemente, o talento
estendia‑se ao filho também. O rubor nas maçãs do rosto de Jamie
intensificou‑se, mas sua expressão não se alterou.
Ela sacudiu a cabeça devagar, olhando fixamente para o irmão.
— Não, o Jovem Ian ainda não é um homem, mas você é, Jamie. E
sabe muito bem a diferença.
Ian, que estivera observando o tiroteio entre os dois Fraser com o
mesmo fascínio que eu, tossiu discretamente.
— Seja como for — disse ele secamente —, o Jovem Ian está esperando
seu castigo há mais de quinze minutos. Seja ou não adequado
surrá‑lo, fazê‑lo esperar mais tempo é um pouco cruel, não?
— Tem mesmo que fazer isso, Ian? — Jamie fez uma última tentativa,
voltando‑se para apelar a seu cunhado.
— Bem — disse Ian devagar —, como eu disse ao rapaz que ele iria
levar uma surra e ele sabe muito bem que merece o castigo, não posso
simplesmente voltar atrás. Mas quanto a ser eu quem vai fazer isso...
não, acho que não. — Um toque de humor surgiu nos olhos castanhos.
Abriu uma das gavetas do aparador, tirou uma grossa correia de couro e
enfiou‑a na mão de Jamie. — Faça você.
— Eu? — exclamou Jamie, horrorizado. Fez uma tentativa inútil de
enfiar a correia de volta na mão de Ian, mas seu cunhado ignorou‑o. —
Não posso bater no garoto!
— Ah, acho que pode, sim — disse Ian calmamente, cruzando os
braços. — Você disse muitas vezes que se importa com ele como se fosse
seu filho. — Ele inclinou a cabeça para o lado e, embora seu semblante
continuasse conciliatório, seus olhos castanhos estavam implacáveis. —
Bem, vou lhe dizer, Jamie... não é tão fácil ser o pai dele. É melhor ir e
descobrir isso agora, hein?
Jamie olhou fixamente para Ian por um longo tempo, depois olhou
para a irmã. Ela ergueu uma das sobrancelhas, fitando‑o até ele desviar
os olhos.
— Você merece isso tanto quanto ele, Jamie. Ande logo.
Os lábios de Jamie apertaram‑se com força e suas narinas dilataram‑se,
brancas. Em seguida, ele girou nos calcanhares e desapareceu
sem dizer nada. Passos rápidos soaram nas tábuas do assoalho e ouviu‑se
uma batida abafada no final do corredor.
Jenny olhou de relance para mim e Ian e depois voltou‑se para a janela.
Ian e eu, ambos bem mais altos, nos posicionamos atrás de Jenny. A
luz do lado de fora enfraquecia rapidamente, mas ainda havia claridade
suficiente para ver a figura esmorecida do Jovem Ian apoiada desanimadamente
contra o portão de madeira, a uns vinte metros da casa.
Olhando à volta agitadamente ao som de passos, ele viu seu tio
aproximar‑se e endireitou‑se, surpreso.
— Tio Jamie! — Em seguida, seus olhos recaíram sobre a correia e
ele empertigou‑se ainda mais. — Você... é você quem vai me bater?
Era uma noite silenciosa e eu pude ouvir o assobio agudo do ar por
entre os dentes de Jamie.
— Acho que vou ter que fazê‑lo — disse ele francamente. — Mas,
primeiro devo lhe pedir desculpas, Ian.
— A mim? — O Jovem Ian soou um pouco aturdido. Obviamente, ele
não estava acostumado a que os mais velhos achassem que lhe deviam
desculpas, especialmente antes de surrá‑lo. — Não precisa fazer isso, tio Jamie.
A figura mais alta apoiou‑se contra o portão, de frente para a menor,
a cabeça baixa.
— Preciso, sim. Eu errei, Ian, permitindo que ficasse em Edimburgo,
e talvez também tenha errado ao contar‑lhe histórias e fazê‑lo
pensar em fugir, antes de tudo. Eu o levei a lugares que não devia e
isso pode tê‑lo colocado em perigo. E causei mais confusão com seus
pais do que você sozinho teria causado. Sinto muito por isso, Ian, e
peço que me perdoe.
— Ah. — A figura menor passou a mão pelos cabelos, claramente
sem saber o que dizer. — Bem... sim. Claro que sim, tio.
— Obrigado, Ian.
Permaneceram em silêncio por um instante, em seguida o Jovem
Ian deu um suspiro e endireitou os ombros arriados.
— Acho que é melhor nós acabarmos logo com isso, não é?
— Acho que sim. — Jamie soava tão relutante quanto seu sobrinho
e eu ouvi Ian, a meu lado, resfolegar levemente, não sei se indignado ou
achando engraçado.
Resignado, o Jovem Ian virou‑se de frente para o portão sem hesi‑
tar. Jamie seguiu‑o mais devagar. Os resquícios da luz do dia já haviam
praticamente desaparecido e não podíamos ver mais do que as silhuetas
das figuras àquela distância, mas podíamos ouvir claramente de nossa
posição junto à janela. Jamie parou atrás de seu sobrinho, mudando o
peso do corpo de um pé para o outro, como se não soubesse o que fazer
em seguida.
— Mmmhummm. Ah, o que seu pai...
— Geralmente são dez, tio. — O Jovem Ian tirara seu casaco e começava
a tirar a camisa da calça, falando por cima do ombro. — Doze é
muito ruim e quinze é realmente terrível.
— Isso foi apenas ruim, você diria, ou muito ruim?
Ouviu‑se uma risada curta, involuntária, do garoto.
— Se papai está fazendo você cuidar disso, tio Jamie, é porque é realmente
terrível, mas eu deixaria por muito ruim. É melhor ficar com doze.
Ian resfolegou de novo junto ao meu cotovelo. Dessa vez, era definitivamente
por estar achando graça.
— Garoto honesto — murmurou ele.
— Está bem, então. — Jamie inspirou fundo e ergueu o braço, mas
foi interrompido pelo Jovem Ian.
— Espere, tio, ainda não estou pronto.
— Ah, meu Deus, você tinha que falar isso? — A voz de Jamie soou
um pouco embargada.
— Sim. Papai diz que só meninas apanham por cima das saias —
explicou o Jovem Ian. — Os homens têm que apanhar com o traseiro nu.
— Ele certamente tem razão nisso — murmurou Jamie, obviamente
ainda exasperado com a discussão com a irmã. — Está pronto agora?
Terminados os ajustes necessários, a figura maior recuou um passo
e golpeou. Ouviu‑se um forte estalo e Jenny contraiu‑se de compaixão
pelo filho. Com exceção de um repentino resfolegar, entretanto, o garoto
ficou em silêncio e permaneceu assim pelo resto de seu castigo, embora
eu mesma tenha empalidecido um pouco.
Finalmente, Jamie abaixou o braço e enxugou o suor da testa. Estendeu
a mão para Ian, caído sobre a cerca.
— Você está bem, garoto?
O Jovem Ian endireitou‑se, com um pouco de dificuldade dessa vez,
e puxou as calças para cima.
— Sim, tio. Obrigado. — A voz do menino estava um pouco rouca,
mas calma e firme. Ele segurou a mão estendida de Jamie. Entretanto,
para minha surpresa, em vez de trazer o garoto de volta para casa, Jamie
enfiou a correia na outra mão dele.
— Sua vez — anunciou ele, aproximando‑se e inclinando‑se sobre
a cerca.
O Jovem Ian ficou tão chocado quanto nós na casa.
— O quê?! — exclamou ele, perplexo.
— Eu disse que é a sua vez — disse seu tio numa voz firme. — Eu o
castiguei. Agora, você tem que me punir.
— Não posso fazer isso, tio! — O Jovem Ian estava tão escandalizado
como se seu tio tivesse lhe sugerido que cometesse um ato indecente
em público.
— Pode, sim — disse Jamie, endireitando‑se para olhar o sobrinho
nos olhos. — Você ouviu o que eu disse quando lhe pedi desculpas, não
ouviu?
Ian balançou a cabeça, desconcertado.
— Muito bem, então. Eu errei tanto quanto você e também tenho
que pagar por isso. Não gostei de bater em você, e você não vai gostar de
bater em mim, mas nós dois vamos até o fim com isso. Entendeu?
— S‑sim, tio — disse o jovem, gaguejando.
— Muito bem, então. — Jamie arriou suas calças, amarrou a barra
de sua camisa mais em cima e inclinou‑se outra vez, agarrado à cerca.
Esperou um segundo, depois falou de novo, enquanto Ian permanecia
paralisado, a correia pendendo de sua mão inerte: — Ande. — Sua voz
era metálica. A mesma que ele usava com os contrabandistas de bebida;
não obedecer era impensável. Ian adiantou‑se timidamente para fazer o
que lhe ordenavam. Parou e desfechou um golpe desanimado. Ouviu‑se
uma pancada surda. — Essa não contou — disse Jamie com firmeza. —
Olhe, rapaz, fazer isso com você também foi difícil para mim. Agora,
faça um trabalho decente.
A magra figura retesou os ombros com repentina determinação e o
couro assobiou pelo ar. Aterrissou com o estalido de um raio. Ouviu‑se
um uivo surpreso da figura na cerca e uma risadinha reprimida, um
pouco chocada, de Jenny.
Jamie limpou a garganta.
— Sim, assim está bem. Termine, então.
Podíamos ouvir o Jovem Ian contando cuidadosamente para si
mesmo, baixinho, entre os golpes da correia, mas fora um “Santo Deus”
abafado na nona chibatada, não se ouviu nenhum som de seu tio.
Com um suspiro geral de alívio vindo de dentro da casa, Jamie ergueu‑se
 da cerca após a última chicotada e enfiou a camisa nas calças.
Inclinou a cabeça formalmente para o sobrinho.
— Obrigado, Ian.
Deixando de lado as formalidades, ele esfregou as nádegas, dizendo
num tom de queixosa admiração:
— Credo, garoto, que braço você tem, hein?
— Você também — disse Ian, imitando o tom de voz irônico do tio.
As duas figuras, quase invisíveis agora, permaneceram ali por uns ins‑
tantes, rindo e esfregando o traseiro. Jamie passou o braço pelos ombros
do sobrinho e virou‑o na direção da casa.
— Se você estiver de acordo, Ian, eu não quero fazer isso outra vez,
sim? — disse ele, em tom confidencial.
— Combinado, tio Jamie.
Um instante depois, a porta abriu‑se no fim do corredor e, com um
olhar mútuo, Jenny e Ian viraram‑se ao mesmo tempo para saudar os
filhos pródigos. Fonte Editora Arqueiro"

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