quinta-feira, 18 de maio de 2017

Trecho exclusivo do livro "Londres é nossa" da autora Sarra Manning

Oi Gente!!

Eu amei a capa deste livro, sempre ouvi dizer que não devemos julgar um livro pela capa, mas eu estava certa pelo que li no trecho abaixo, e eu gostei, o livro é voltado para para o publico adolescente, um gênero de que gosto muito. A história é de Sunny uma adolescente que tem dezessete anos em uma fase de descobertas, e tomada de decisões muito importantes mas também o drama do mundo adolescente e uma traição. Elementos que todos nós passamos em nossas adolescência, dúvidas, desilusões mas também muito romance. Eu gostei mesmo do li, e quando acabei de ler este trecho eu queria continuar lendo, saber o que iria acontecer.

O livro é narrado em primeira pessoa pela Sunny, os acontecimentos são pelo ponto de vista dela, onde ela divide com o leitor suas dúvidas, incertezas e felicidades. Posso afirmar que o livro já entrou na minha lista de leitura, e estou ansiosa para saber o que vai acontecer. Agora vou deixar vocês com um trecho do livro, espero que gostem também. 

Foto: Capa livro
Londres é nossa
Livro: Londres é nossa
Autor: Sarra Manning
Tradução: Priscila Catão
Comprar: Saraiva Cultura Amazon

"Querida Sunny,
O importante é lembrar que você ficará bem sozinha em
casa por uma semana. Perfeitamente bem.
Se tiver medo, Emmeline ou uma de suas outras amig(a)s
pode lhe fazer companhia. Mas nada de garotos dormindo
aqui. Por favor, não abuse de nossa confiança em você,
nem veja isso como uma oportunidade de convidar
Mark e tomar uma decisão da qual pode muito bem se
arrepender pelo resto da vida. Claro que legalmente você
tem idade suficiente para transar com quem quiser, mas
quer mesmo perder a virgindade com um garoto que anda
por aí com a cueca à mostra? Além disso, com 17 anos
não se pode votar nem comprar bebida alcoólica ou fogos
de artifício, então acha mesmo que é idade suficiente para transar? Pense nisso!
Mark é um ótimo garoto, não estou dizendo que não é, mas tem alguma coisa nele de que eu simplesmente não gosto. É intuição de mãe. Mas minha intuição de mãe também sabe que VOCÊ É SENSATA O SUFICIENTE PARA TOMAR A DECISÃO CERTA!!!!!!!

Não esqueça que a água quente é ligada todo dia às seis da manhã. É o aquecedor que vai fazer aquele ruído surdo engraçado, não é ninguém tentando invadir a casa para roubar. (Mas se lembre de trancar tudo, como Terry ensinou. Incluindo todas as janelas e a porta dos fundos.)
Se achar que há um intruso na casa, ou se tiver uma tempestade imprevista e uma árvore entrar por uma das janelas, ligue para o Max do apartamento de cima. Mas só se for uma emergência mesmo, pois sabe o quanto ele ficou irritado quando a deixamos dormindo sozinha na Páscoa e você achou que tinha um poltergeist em casa.
Se realmente não aguentar ficar sozinha, pode ir para a casa de tio Dee e Yolly. 
Talvez seu pai volte antes de Edimburgo, assim você poderia ficar com ele como tínhamos planejado, mas como seu pai sempre prioriza a carreira, e não as obrigações familiares, não conte com isso.

Por favor, não leve nenhum tipo de carne para dentro de casa. Mesmo que eu não esteja aí, você sabe o que acho de comer carne, Sunny, e eu ficaria magoada. Em algum nível cósmico, mesmo se eu estiver num acampamento no sul da França, vou saber e ficarei muito desapontada com você.
Tem uma ração úmida especial (e muito cara) para Gretchen Weiner no lugar do Whiskas de sempre. Se ela começar a esfregar o bumbum no tapete de novo e der aquele miado horrível, você vai ter de levá-la ao veterinário para espremer as glândulas anais. De novo. A melhor maneira de fazer ela entrar na caixa de transporte é colocar luvas de borracha bem longas, jogar uma toalha
em cima dela e rezar.

Nada de festas. Pode reunir alguns amigos, mas não coloque nenhum convite no Facebook. Não quero chegar em casa e descobrir que quinhentos adolescentes drogados, destruíram completamente a casa. Tenho certeza de que o seguro não cobre algo do tipo.
Fizemos compras antes de sair, mas há 30 libras no falso pote de geleia no armário de metal para leite e perecíveis. Quero as notas fiscais!

Então recapitulando: Emmeline pode ficar aqui. Mark, não. Nada de carne. O aquecedor liga às seis. Fique de olho no bumbum de Gretchen Weiner. POR FAVOR, NÃO TRANSE COM AQUELE
GAROTO (SE TRANSAR — E ISSO NÃO SIGNIFICA DE JEITO ALGUM QUE APROVO
A IDEIA DE VOCÊ TRANSAR COM AQUELE GAROTO —, POR FAVOR, USE CAMISINHA).
Deixamos uma caixa de Calippos no freezer. Nos vemos em uma semana. Você vai ficar bem.
Acreditamos em você!
Com muito, muito, muito e muito amor,
Mamãe e Terry
Beijos

P.S.: Dan agradece por você ter concordado em alimentar os lagartos. Ele deixou uma lista detalhada com as instruções sobre o que fazer, mas você não deve bisbilhotar enquanto estiver no quarto. Eu disse que você tinha mais o que fazer que ficar remexendo na gaveta de cuecas dele.

LISTA DO SÁBADO À NOITE
Bolsa ✓
Cartão Oyster ✓
Óculos escuros da Topshop ✓
Protetor labial de cereja ✓
Rímel ✓
Elástico de cabelo ✓
Creme de mãos ✓
Band-aids comuns ✓
Curativos para bolhas ✓
Absorventes ✓
Garrafa de água ✓
Carregador de telefone ✓
Perfume Blackberry & Bay, da Jo Malone, de minha mãe ✓
(LEMBRAR DE DEVOLVER A SEU QUARTO ANTES
QUE ELA PERCEBA QUE SUMIU).
Chiclete ✓
Lenços de papel ✓
Cuide-se antes que se estrepe.

CRYSTAL PALACE
Crystal Palace é um dos lugares mais altos de Londres, e tem esse nome devido ao Crystal Palace construído originalmente no Hyde Park, em 1851, para receber a Grande Exposição. Ele foi transferido para um local em Penge Common, em 1854, tornando-se o centro magnífico de um parque de lazer vitoriano, com labirinto, 33 réplicas de dinossauros em tamanho real e tantas fontes que precisaram construir duas torres de água só para fazê-las funcionar.
Infelizmente, o Crystal Palace foi destruído por um incêndio em 1936, mas o parque ainda existe e é onde fica atualmente o Centro Nacional de Esportes. Entre as pessoas famosas que moraram na vizinhança do Crystal Palace, estão Sir Arthur Conan Doyle, autor dos livros de Sherlock Holmes, e
Francis Pettit Smith, um dos inventores da hélice.
Demoramos mais de duas horas e tivemos de pegar um trem de Victoria, nem foi o trem de superfície, mas Emmeline e eu finalmente chegamos ao Crystal Palace Park. Bem, o lugar tem nome de parque, mas é basicamente uma colina gigantesca. Talvez seja até uma pequena montanha.

Caminhamos para cima, e mais para cima, ofegando à medida que a inclinação aumenta. As alças das sacolas da loja de bebidas alcoólicas deixam marcas em nossos punhos, e a condensação das garrafas
geladas roça nas pernas descobertas. Nossas nucas também estão brilhando, pois ainda está o maior calor — mesmo enquanto o sol começa a baixar sutilmente no céu azul-claro raiado de rosa e laranja.
Não temos ideia de aonde estamos indo.
— O problema do sul de Londres é que, bem, ele não foi feito para ser colonizado. Ou não seria tão difícil chegar aqui — diz Emmeline, ofegante.
— É verdade — concordo. — Mas não está sendo um pouco sulista?
— Não acho que existe sulismo aqui em Londres, Sun. Não é feito racismo, é? Nem homofobia. É só escolher não morar no sul de Londres. Jesus, se essa colina ficar mais íngreme, vamos precisar de ganchos de ferro.
— Não consigo mais falar. Preciso poupar meu oxigênio. Continuamos nos arrastando. Emmeline estende o telefone na frente do corpo, como se estivesse fazendo radiestesia.
— A gente segue o caminho que dá a volta no Lago Baixo, como estamos fazendo agora, mas tem dois outros lagos e não sei qual deles é mais baixo que os outros e... Ah, olhe! Dinossauros!
— O quê? — Desvio o olhar da mensagem de texto que estava enviando para Mark, e vejo dinossauros bem na minha frente. Não, tipo, dinossauros reais. São feitos de fibra de vidro ou algo assim, e estão em poses de ação ao redor do pequeno lago.
 — Meu Deus, parece Jurassic Park.
Emmeline balança a cabeça. Apesar de ela ter se besuntado com protetor solar fator 50, seu rosto está bem vermelho.
— Talvez eu tenha sido chata demais com o sul de Londres.
— Você é chata demais com tudo. É assim e pronto.
— Pois é, eu sei. Gosto de meus pontos fortes — diz Emmeline, prestando atenção no rochedo onde brincam os dinossauros, do outro lado do pequeno lago e de uma grade. Sei exatamente o que ela
está pensando antes mesmo que diga qualquer coisa. 
— Então, deveter um jeito de a gente entrar na área dos dinossauros e tirar umas fotos, né? Eu e você, montadas num sei-lá-o-quê-sauro. Postar no Instagram. A gente ganharia mais likes que na foto em que eu fingi fazer garganta profunda com aquela salsicha Cumberland no seu churrasco.
— Você precisa tirar aquela foto de lá antes que minha mãe veja a prova de que teve carne no quintal da casa dela.
 — Olho a água. Tem uma lata de Coca boiando desamparadamente na outra margem do lago.
 — Eu atravessaria o lago numa boa, mas ele não parece muito limpo e não quero pegar doença dos legionários.
— Não dá pra pegar doença dos legionários pisando na água. Vamos, tire os tênis. Estamos de short. Impossível esse lago ser fundo, né? 
— Emmeline já está desamarrando seus sapatos.
 — Se a gente pegar alguma doença horrível e você tiver de amputar as pernas, vou visitá-la todo dia. Empurro sua cadeira de rodas. Deixo você ficar com o controle da TV.
— Bem, assim não dá pra recusar, né?
 — Pelo menos dessa vez, não é difícil. 
— Não, acho que vou recusar.
— Você não é nada aventureira...
Escuto o barulho do celular. Na hora certa para que Emmeline não tente mais me convencer, o que normalmente, quando acontece, acabo fazendo algo que resulta em detenção/castigo/lesão. Uma vez, quando estávamos numa excursão do colégio ao Globe Theatre para assistir a Do Jeito que Você Gosta, Emmeline fez com que eu me juntasse a ela na sua roda punk de uma só pessoa, e eu ganhei as três coisas de uma vez. Quando tiro o celular das profundezas da bolsa, vejo o rosto de
Mark na tela.
— I got sunshine on a cloudy day. — Ele canta quando atendo. 
Linda, já chegou ao Crystal Palace?
— Sim, demoramos séculos! E nem foi no trem de superfície, foi num trem comum mesmo.

— Deixe isso pra lá, Sunny — diz Emmeline que, graças a Deus, está colocando o All-Star de volta, tendo obviamente desistido de andar com os dinossauros.
 — É o mínimo que pode fazer depois de me obrigar a passar essa semana na sua casa.
— Você gosta de ficar lá em casa.
A mãe de Emmeline trabalha à noite, e a irmã mais velha, Mary (a mãe de Emmeline é muito envolvida com feminismo então escolheu os nomes das filhas para homenagear Mary Wollstonecraft, feminista do século XVIII, e Emmeline Pankhurst, líder das sufragistas — Emmeline acha que ficou com a pior das opções), domina a sala de estar com o namorado repugnante. Eles sempre terminam na horizontal no sofá, trocando beijos molhados, então ela ficar na minha casa não foi
exatamente um suplício.
— Sunny! Pare de falar com Em e comece a falar comigo, seu namorado. Lembra de mim?
Sorrio.
— Muito difícil me esquecer de você.
— Ótimo, fico feliz. Então você vai passar só uma hora aí, não é? Depois vai voltar para a civilização, como concordamos. — Não é muito comum Mark demonstrar tanta vontade de me ver. Queria que isso acontecesse mais vezes.
 — Não acredito que você teve de ir ao Crystal Palace logo hoje.
— Pois é, mas Em e eu fizemos um acordo. Ela me protegeu de intrusos a semana inteira, e hoje sou sua parceira.
— Eu poderia ter protegido você de intrusos — salienta Mark. Ele faz um barulho engraçado, meio engasgando, meio rindo. — Também podia ter feito outras coisas. Podia ter sido uma semana inteira fazendo outras coisas.
— Mas eu não tinha certeza se queria fazer outras coisas...
Olho para Emmeline, que nunca acha errado escutar descaradamente as ligações dos outros — ou as minhas, especificamente —, mas ela está franzindo o rosto para o Google Maps no celular, com o

lábio inferior entre os dentes e a franja grudada na testa em mechas úmidas e loiras.
— Mas agora tem? — pergunta Mark, a voz ficando mais aguda e estridente no fim da frase, como se estivesse nervoso. — Quero dizer, você quer?
— Sim, acho que sim. Quero dizer, você ainda quer, né?
— Bem, só se você quiser. — Acho que Mark não veria nenhum problema se eu dissesse não, mas o fato de eu estar surtando um pouco não me parece razão suficiente para dizer não.
— Mas eu tô dentro se você quiser. No sentido figurado. Não no literal. Sim, mas tô dentro no sentido literal, ou, pelo menos, mais tarde. Você entendeu.
Eu me sinto melhor por ver que Mark, que é sempre tão confiante, tão determinado, tão direto, também está surtando um pouco.
— Eu ficaria ofendida se você não se animasse.
— Ah, vou ficar muito animado. Prometo. — Espero que o sexo se torne um pouco menos apavorante depois que a gente transar, pois uma palavra nunca aterrorizou tanto meu coração; nem palavras como “recuperação”, “nesga” ou “couve-flor”. 
— Então vou comprar, tipo, algumas camisinhas e queria saber se você tem alguma, tipo, preferência.
Preferências?
— O quê?
— Reforçada ou colorida... talvez não colorida, pois seria estranho. Ou se você for alérgica a látex, podemos comprar uma daquelas especiais sem látex — diz Mark rapidamente. — Você não é alérgica, é?
— Acho que não. Compre apenas alguma que não deixe o esperma passar.
Fico impressionada por ter conseguido falar com uma voz calma, mas depois dou uma risada, pois essa conversa é muito surreal e também prova que a suposta intuição especial de mãe está errada.
Mark é encantador e está bem informado e sendo responsável para que a gente não pegue nenhuma doença nojenta nos genitais ou para que eu não engravide. Para resumir, ele está sendo um namorado
maravilhoso.
— Tá certo — diz Mark. — Vou comprar. A gente se encontra às onze no Lock Tavern?
— Sim, nos encontramos lá. E amanhã cedo você me ajuda a encerar o barracão e terminar de limpar os restos de carne do churrasco?
Acho que estou surtando mais com isso de arrumar a casa antes que minha mãe volte da França que com o sexo.
— Depende. Se você for ruim de cama, vou inventar alguma desculpa para ir embora.
— Não diga isso! Talvez eu seja ruim. Provavelmente vou ser ruim. É a primeira vez. Não me pressione...
— Sunny! Sunny! Foi uma brincadeira. Eu estava brincando. Tenho de sair bem cedo porque vou almoçar na casa de minha avó em Godalming, mas a gente se ama, não é?
— Bem, sim...
— Então vai ficar tudo bem. Nos vemos mais tarde, linda.
Estou sentindo tantas coisas. Todas as coisas. De uma vez só.
Nem consigo analisá-las, pois Emmeline empurra o celular bem no meu rosto e diz para eu sorrir, então agora o susto que tomei está falando mais alto.
— Não faça isso!
— Queria tirar uma última foto sua no estado de virgindade — explica ela, e me mostra a tela do celular, onde eu estou com o rosto reluzente e confuso.
— Não acredito que vai transar. Com Mark!
— Com quem mais eu transaria?
Ela balança a cabeça.
— Vamos. É melhor a gente se apressar, pois você tem um compromisso urgente com o pênis de Mark mais tarde. — Emmeline se afasta com o passo pesado, sem me esperar. Ela sabe caminhar muito bem com passos largos. Acha muito melhor que andar normalmente.
— Não acredito que não me contou — diz ela, quando a alcanço.

— Só decidi mesmo hoje de manhã, e achei que você fosse ficar
um pouco... sabe...
— Só acho, Sunny, que você não está pronta — argumenta Emmeline, como se fosse muito mais velha e sábia que eu, quando na verdade ela nasceu apenas dois meses antes de mim e precisou refazer a prova de matemática de fim de curso.
— A gente não conhece ninguém que já tenha transado, e você não é muito... não estou dizendo
isso de uma maneira ruim... você não é muito desbravadora, é?
Ela não está dizendo isso de uma maneira ruim. Eu realmente não gosto de me arriscar. Fui a última do grupo a usar calça boyfriend e esmalte neon, e a fazer rafting na nossa viagem do Outward Bound
com o colégio. E, mesmo assim, quando entrei no bote, tive um ataque de pânico, caí aos prantos e decidi que viveria muito feliz sem a possibilidade de uma morte horrível e dolorosa de encontro às rochas.
De todo jeito, eu não seria a primeira deles a transar.
— Alex já transou, e os garotos já transaram.
— Os garotos não contam — rebate Emmeline imediatamente.
— Porque eles são todos mentirosos. Tipo, que coincidência todos terem transado com garotas aleatórias. “Ah, você não a conhece. Eu a conheci na casa do meu primo, sabe.” Ou então: “sim, ela estuda num colégio do outro lado de Londres.” Mentira! São todos virgens, e Alex ficou muito bêbada em Glasto, transou com um cara qualquer num trailer que estava vazando. E preciso lembrar com quem ela foi para Glasto?
Suspiro.
— Com os pais. E sim, também me lembro de que ela pediu que parassem numa farmácia a caminho de casa pra comprar a pílula do dia seguinte.
Emmeline me lança um olhar puritano.
— Ela disse que perder a virgindade foi a pior experiência da vida dela.
— Sim, mas... é completamente diferente porque Mark não é um cara qualquer. Estamos juntos há oito meses, e nos amamos.

— Vocês se amam! — Emmeline tem mesmo dificuldade com sentimentos. 
— Enfim, o que sabe sobre ele? Ele apareceu do nada para fazer o A-Level com sua voz elegante e seu cabelo desleixado e elegante, e só sai com você a cada 15 dias, o que é muito, muito suspeito.
Não digo nada por um tempo porque o caminho ficou tão íngreme que é quase vertical; só consigo ofegar. Quando fica um pouco mais nivelado, consigo defender Mark.
— Os pais se divorciaram, e ele precisou sair do colégio interno e se mudar para o outro lado de Londres. Não tem nada de estranho nisso. Você devia sentir pena, isso sim.
— Olhe, não estou dizendo que ele é malvado ou algo assim. Só estou dizendo que ele me deixa um pouco inquieta — insiste Emmeline.
— Eu julgo muito bem as pessoas. Você sabe disso.
— Acho que está sendo dura demais. — Precisei me preparar para dizer isso, pois agora Emmeline está com as narinas alargadas como se fosse um pequeno touro zangado.
— Ele sempre foi muito legal com você. E quando ficou trancada fora de casa e ele subiu pelo lado
e entrou pela janela do banheiro para se ajudar? Ou quando gastou o dinheiro do almoço num bilhete de loteria...
— Era um prêmio acumulado!
— Que seja. Você teria passado fome se Mark não tivesse comprado um sanduíche pra você e...
— Cale a boca! — Foi a maior grosseria, mesmo para Emmeline, especialmente porque ela também agarrou minha camiseta. — Cale a boca e olhe aquilo!
Estamos no pico da colina. Olho na direção que o dedo de Emmeline está apontando, e vejo Londres. Londres inteira. Não a Londres que costumamos ver do alto de Primrose Hill ou de Ally Pally. Nós
só tínhamos visto o horizonte de Londres do norte, e agora estamos do lado errado. Do outro lado.
Lá está o Gherkin. O prédio engraçado que parece um ralador de queijo. O Shard, e bem mais distante à esquerda está a cúpula de St. Paul’s Cathedral. Entre eles, há igrejas e prédios residenciais altos.
Guindastes e andaimes. Não importa de que lado observamos o horizonte; sempre me sinto em casa. É Londres.
Enquanto estamos paradas, Emmeline lança o braço ao redor de meu pescoço. O tempo está quente e grudento demais para que alguém faça isso, mas por mais que a gente discuta, estar ao lado de Emmeline também faz com que eu me sinta em casa.
— Eu amo este lugar — declara ela de repente. — Quando vejo a cidade assim, toda grande e impressionante, penso no quanto minha vida é pequena em comparação, mas eu ainda faço parte dela, não é, Sun?
— Talvez eu ame a cidade de Londres por ser uma londrina — canto, com um sotaque trêmulo e ridículo.
Emmeline afasta o braço e me empurra levemente.
— Não faça isso. É horrível — diz ela estremecendo. — Parece Dick Van Dyke.
— Deus te abençoe, Mary Poppins! — gritamos nós duas, como fizemos tantas vezes antes, e nossa discussão acaba na hora.
Elas sempre começam do nada e desaparecem por causa de um olhar compartilhado, uma piada, uma pequena observação que nos lembra do quanto nossa amizade é antiga, forte, do tipo que aguenta
tudo — até mesmo o fato de Emmeline ser tão mandona ou minha incapacidade de manter a mesma opinião.
Emmeline entrelaça o braço com o meu. Começamos a andar novamente, e ela pergunta baixinho:
— Está com medo?
Tenho medo de tantas coisas. Às vezes, à noite, não consigo dormir porque fico listando todas as coisas que me dão medo, e já tenho até uma nova sublista de medos dedicada apenas ao que vou fazer
com Mark daqui a algumas horas.
Tenho medo de que vá doer. Tenho medo de que vá ser péssimo e de que eu não queira nem
beijar Mark depois, e de que seja nosso fim.

Tenho medo de que seja maravilhoso, de que eu queira transar o tempo inteiro e de que todo mundo fique achando que sou a maior piranha.
Tenho medo de que eu faça algo de errado. Meu Deus, tem tantas coisas que posso fazer errado. Quando penso em sexo, em onde vai isso ou aquilo e em quanto tempo demora, tudo me parece ridiculamente e desnecessariamente complicado.
Tenho medo de que, quando eu ficar pelada, Mark olhe todas as partes de meu corpo, meus peitos, meus joelhos protuberantes, as discretas estrias nos meus quadris e aquilo (e ninguém nunca olhou
meu aquilo antes), e sinta tanto nojo que literalmente não consiga ficar de pau duro.
Tenho medo de que eu já esteja com calor e suada, e de que fique com ainda mais calor e mais suada se eu não tomar um banho primeiro.
Tenho medo de que Mark ache que seria sexy a gente tomar um banho juntos e que talvez eu me sinta pronta para transar com ele, mas não para tomar banho com ele.
— Apavorada — respondo para Emmeline. — Mas tenho medo de tudo, não é?
Emmeline faz que sim.
— Mas estranhamente você é a única pessoa que conheço que não tem medo de aranhas.
Fico me sentindo melhor imediatamente. Não tenho nenhum problema com aranhas. Se eu fosse levada para a floresta num reality show terrível, gritaria como louca se tivesse que atravessar uma ponte de corda desgastada ou nadar em rios cheios de jacarés, mas enfrentaria aranhas nojentas numa boa.
— Bem, pelo menos isso.
— Talvez você fique menos nervosa se pensar que Mark é uma aranha gigante — argumenta Emmeline. — Várias perninhas peludas se agitando em cima de você. Eca! Eu que estou ficando com medo.
— Por favor, não fique imaginando que meu namorado é um aracnídeo gigan...

— Em! Emmy! Aqui!
Tem um grupo de pessoas espalhadas no declive coberto de grama mais abaixo, a maioria garotas, e uma garota em particular, Charlie, está acenando para chamar a atenção de Emmeline.
Emmeline lambe os lábios e agitadamente passa os dedos na franja, que terminou ficando grudada com o calor.
— Estou bonita? — pergunta ela ansiosamente. — Não acha que minhas pernas estão incrivelmente grossas com esse short?
— Não! Você está linda. — Já estou descendo o declive, e Emmeline
continua parada. — Venha! Só tenho uma hora!

DEZ MINUTOS DEPOIS

Outra coisa que me dá medo são os novos amigos de Emmeline. Mas não acho que isso seja coisa minha; acho que é normal quando você está com as novas amigas de sua velha amiga, que ela conheceu depois que entrou para a Liga Recreativa de Roller Derby de Londres, onde ela está meio que em fase de treinamento.
Não pensei ser possível Emmeline ficar mais barulhenta ou competitiva do que já era (nunca mais jogo Banco Imobiliário com Emmeline depois que ela arremessou o tabuleiro para longe quando construí hotéis em Bond Street, Regent Street, Oxford Street e Park Lane), mas então ela descobriu o roller derby. Agora ela coloca um par de patins e ganha pontos por gritar e ser competitiva com quem aparecer na sua frente.
Emmeline queria que eu me inscrevesse também, mas eu não queria correr o risco de cair e quebrar alguma parte essencial do corpo que não pudesse ser consertada. Porém, foi mais por causa do capacete. Nem quero pensar no que ele faria com meu cabelo. Mesmo assim, as amigas do roller derby de Emmeline são bem legais quando não estão se mutilando, e não sou a única negra presente,
o que costuma acontecer muito quando me atrevo a sair da diversidade racial do bairro londrino de Haringey pular de Haringey, como meu pai diz sarcasticamente), então apesar de estar de olho no relógio, eu me apoio nos cotovelos e tento me divertir.

Estamos no piquenique de aniversário de uma das garotas do time B do roller derby de Londres. Emmeline e eu fizemos palitos de queijo e bolinhos de frutas hoje à tarde, e eles só ficaram um pouco queimados. Agora estão todos arrumados em toda a sua glória levemente queimada em cima de um prato de papel, ao lado de quiches e saladas, enroladinhos de salsicha, enroladinhos de salsicha vegetarianos, enroladinhos de salsicha veganos, alguns sanduíches bem moles e uma quantidade incrível de bolos caseiros, tudo em cima de uma toalha xadrez, definhando com o calor.
Emmeline está conversando com as amigas, e eu deixo as palavras passarem por cima de minha cabeça, como as minúsculas nuvens pretas no céu azul que escurece acima de mim. 
De vez em quando, tomo um gole de uma das garrafas de cerveja que trouxemos, apesar de não achar o gosto bom — mas Emmeline disse que, se a gente chegasse com garrafas de Bacardi Breezer, daríamos a impressão errada.
Mais um grupo de garotas chega com dois pugs cor de areia. Os pugs, Fred e Ginger, tentam avançar para cima dos enroladinhos de salsicha. Depois eles percebem que estou olhando e se aproximam
lentamente, com a baba pendurada na boca. Eles me pressionam dos dois lados e rolam para cima imediatamente, mostrando as duas barrigas imponentes, provavelmente para que eu as coce. Até os dois pugs a quem ainda não fui apresentada acham que sou molenga.
— Oi, Sunny. Está tudo bem? — Charlie senta do meu lado com o prato encurvado de tanta comida. Assim ela também ficou bem mais perto de Emmeline.
— Pediram seu passaporte quando atravessou a fronteira para o sul de Londres?
Charlie é bem legal. Ela é superlegal. É o que Emmeline acha, mas apesar de toda a atitude, Em acha difícil dar em cima de uma pessoa de quem está a fim há meses. É por isso que estou aqui — para ajudar Emmeline.
Ser sua parceira.
Porém, a verdade é que não sou muito boa em elogiar Emmeline e incluí-la na conversa gradualmente. Tudo que consigo é dar um relato detalhado e muito entediante de nossa jornada de Crouch End até ali.
— E depois trocamos em Highbury e Islington, apesar de eu ter dito pra Ems que a gente devia ter pegado o ônibus para Dalston Juction e depois o trem de superfície até o fim, mas ela disse que a opção dela era muito mais rápida, então a gente trocou de novo em Victoria e demoramos séculos até chegar em Penge West.
Pego uma delicada tortinha de queijo de cabra e tomate, que parece ter sido feita em alguma delicatéssen luxuosa, e não na cozinha de alguma garota que faz roller derby. Enfio a tortinha inteira na boca para não falar mais. Melhor decisão que tomei no dia.
— Precisa provar isso, Ems — murmuro, sentindo a saborosa explosão de sabores.
Era a deixa que ela esperava desesperadamente. Emmeline se aproxima, de joelhos.
— E aí? — diz ela. — Ah, oi, Charlie...
— Oi, Ems.
Elas se olham e depois desviam o olhar, como se nunca tivessem se agarrado numa festa depois de uma partida de roller derby em Cardiff.
— Essas tortinhas de mirtilo parecem incríveis — murmuro, e
Charlie sorri para mim, agradecida.
— Sim, Chloe disse que só convidou aqueles dois porque sabia que eles trariam tortinhas maravilhosas.
Estendo as pernas. Sei que vou ficar com a marca da grama na
parte de trás das coxas quando me levantar.
— Quem faz tortinhas maravilhosas?
— Aqueles franceses, os Godards.
Eu endireito a postura imediatamente.
— Eles estão aqui! Sério?

Olho ao redor freneticamente, e, na parte mais longe do círculo de pessoas ao redor da comida, tem dois garotos magros e pálidos lado a lado. Pode estar quente, mas eles estão de ternos pretos, de corte
superjusto, para combinar com seus corpos magros, e óculos escuros.
O cabelo escuro de ambos é quase do tamanho do meu.
Emmeline esquece que está sendo tímida.
— Meu Deus! São eles! — Ela agarra minha mão. — Achei que fossem uma lenda urbana!
Os Godards. Garotos franceses. Antes existia só um. A gente o via andando tranquilamente de lambreta pelo norte de Londres. Depois de um bom tempo, cerca de um ano atrás, apareceu o segundo.
Como se o Godard número um tivesse se clonado. Ninguém sabe se são gêmeos ou melhores amigos ou namorados. Tem até um boato de que eles nem são franceses. Todo mundo tem uma opinião sobre eles.
Existe até um Tumblr, FuckYeah!TheGodards, em que as pessoas dizem onde os avistaram e postam fotos dos dois.
A única pessoa que sei que os conhece é, surpreendentemente minha mãe. Eles têm um café que funciona em uma antiga van da Citroën, e ficam dois dias por semana em Spitalfields, onde fica a loja
de antiguidades dela.
— Garotos ótimos — diz ela sempre. — Café ótimo. Comida ótima. Tão bem-educados.
Uma vez, ela até pediu para um deles escrever um e-mail em francês para um vendedor de antiguidades em Toulouse, que vendera para ela um jogo de quarto cheio de caruncho.
— Aparentemente, eles não são gays — comenta Charlie. — Uma vez eu vi os dois numa boate tentando ficar com a mesma garota.
— Não que ser gay seja errado — digo, pois eu devia estar ajudando Emmeline. — Não tem nada de errado mesmo.
— Sim, obrigada, Sunny. — Emmeline consegue estender a perna e me chutar, e não sei por que estou aqui para ajudá-la, se ela não vai fazer nada; ela está apenas lançando olhares dissimulados para Charlie, e, quando Em não está vendo, Charlie também fica encarando-a.

Preciso ir embora em 20 minutos. Não tenho tempo para isso.
— Vá logo falar com ela. De verdade. Vai! — sussurro.
— Não posso simplesmente começar a falar com ela do nada.
— Pode sim. É o que as pessoas fazem quando gostam de outras
pessoas. Quer que eu suma um pouco? Posso pegar mais tortinhas. —Não estou oferecendo só por generosidade. Quero olhar os Godards de perto.
 — Posso dar para Charlie um de nossos bolinhos de frutas. Um que não esteja todo carbonizado. Para mostrar o quanto você sabe cozinhar.
— Nem se atreva — resmunga Emmeline. — Sei me virar sozinha.
— E se virar é o mesmo que não fazer nada?
— Olhe que eu te chuto de novo. Isso seria fazer alguma coisa? Está quente demais, e estou confortável demais para dizer a Emmeline que não.
— Então, Charlie, Em está precisando trocar as rodas dos patins. Onde comprou as suas?
Essas palavras mágicas fazem Emmeline e Charlie começarem a conversar, e estou bem alegre sentada aqui, passando minha noite de sábado comendo tortinhas e acariciando as barrigas gordas dos pugs.
Então meu celular faz um barulho, e, na mesma hora, minha alegria acaba.
Deve ser Mark dizendo que minha hora terminou. O medo volta. O medo é amargo e afasta a doçura da massa da tortinha e o gosto salgado do queijo de cabra. Pego o celular e fico aliviada e somente
um pouco desapontada quando vejo a mensagem de Martha.
Emmeline e eu a chamamos secretamente de Ai-Meu-Deus-Martha porque toda vez, quando começa a falar, ela diz: “Ai, meu Deus, você nunca vai acreditar no que eu acabei de descobrir!”. Ela é o TMZ de Crouch End.
Porém, preciso admitir uma coisa — as fontes de Martha costumam ser impecáveis.
— Mensagem de Martha — aviso a Emmeline. — Tem uma foto
em anexo, então deve ser coisa boa.

— Ah, deixe eu ver! — pede ela.
Ergo o celular para que Emmeline enxergue perfeitamente minha
tela, e... nós duas dizemos:
— Ai, meu Deus!
Fecho os olhos. Não consigo olhar. Não consigo não olhar. Abro os olhos de novo e tudo que vejo é a foto de um garoto que parece Mark, meu Mark, com a boca colada na boca de uma garota que não sou eu.
Ele está com a mão na bunda arrebitada dela, que está aparecendo quase toda por causa do short curtinho.
AI, MEU DEUS! Mark está com essa garota no Lock Tavern.
Vcs terminaram? :( bjs M
— Por que ela acharia isso? Ela sabe que a gente não terminou.
Ela foi ao meu churrasco dois dias atrás, quando eu estava com Mark. Nós dois estávamos superjuntos. Enfim, esse cara nem parece Mark.
— Eu sento e semicerro os olhos, focando na tela. — Não é ele.
— Bem... isso parece a pulseira da amizade vermelha que você deu para ele, e essa parece a camisa quadriculada azul que você roubou de Terry e que Mark pegou emprestada e nunca devolveu — salienta Emmeline.
— Muitas pessoas têm pulseiras da amizade vermelhas e camisas quadriculadas azuis. Muitas.
Meu celular faz barulho de novo. É Ai-Meu-Deus-Martha. Aqui vai outra foto. Achei que vc devia ver. :( Amo vc bjs M É a mesma garota de cabelo brilhante beijando um garoto que só
pode ser Mark. A foto foi tirada de um ângulo um pouco diferente, então não tenho mais como confundir seu cabelo loiro desleixado nem a pinta no maxilar que beijei incontáveis vezes. Reconheço até a cueca azul-marinho, pois ele usa a calça jeans tão baixa que ver a cueca de Mark mesmo antes de a gente transar era inevitável.

A dor é repentina e avassaladora. Como dar uma topada com o dedão ou prender o dedo na porta. Antes mesmo que eu perceba, as lágrimas surgem e escorrem pelo meu rosto. Eu me encurvo e respiro fundo. Emmeline põe a mão nas minhas costas.
Tem de existir uma explicação perfeitamente razoável para o fato de Mark estar dando o maior beijo, com um pouco de língua até, em outra garota, mas não consigo pensar em nenhuma.
— O que eu faço? — pergunto a Emmeline. — Ligo para ele?
— Talvez você não devesse ligar pra ele. Não enquanto estiver tão chateada — diz Emmeline, mas já apertei o botão de ligar.
Escuto o ruído de estática, e depois cai direto na caixa postal.
Ouço a voz de Mark, sua voz ridícula.
— E aí! Você sabe o que fazer.
Abro a boca e faço esforço para puxar o ar, mas, antes que eu
possa dizer alguma coisa, Emmeline agarra o telefone de minha mão.
— Não. Não vai deixar mensagem. Ele não vai se safar assim. Beijar outra garota e depois levar um pé na bunda por caixa postal. Ele merece algo bem pior, e você merece algo bem melhor!
— Mas pode ter sido um beijo inocente. Tá, não parece, mas pode ter sido — protesto.
Então caio aos prantos.
Estou sentindo uma dor no peito e estou pegajosa e com frio, e chorando na frente de um monte de gente que não conheço muito bem.
— Sunny, por favor, não chore. — Emmeline não é de abraçar os outros, então ela esmurra meu braço gentilmente. — Odeio quando você chora. E vai terminar estragando sua maquiagem.
Com muito esforço, consigo parar bruscamente. Nem tirei os óculos escuros e, quando passo o dedo debaixo de cada olho, percebo que estão manchados de rímel preto.
— Más notícias, Sunny? — Charlie está nos observando com uma expressão constrangida; ela é uma testemunha involuntária de meu desespero repentino. — Quer um lenço? Quer que eu vá pegar alguns guardanapos?

— Problemas com o namorado — murmuro. — Tenho lenços na bolsa, mas obrigada.
— Problemas com o ex-namorado — esclarece Emmeline, com firmeza. — Ênfase no ex. Não tem volta depois disso. Temos evidências no seu celular. Essas fotos poderiam ser usadas no tribunal como prova de que Mark não presta. Eu sabia! Só não sabia que ele também te traía.
— Traidores são os piores — concorda Charlie.
Como se eu quisesse ouvir o que ela acha de meu namorado. Não quero mesmo.
— Meu namorado me traiu uma vez; não deixei que isso acontecesse uma segunda. Dei o maior pé na bunda dele — diz uma das garotas sentadas atrás de nós.
— A única coisa que um traidor entende é um pé na bunda.
— Por que eles acham que vão se safar toda vez que são descobertos?
— Pois é, a gente precisa ter tolerância zero com os traidores.
É um coro grego de garotas do roller derby opinando sobre namorados ruins que tiveram, e dizendo que não podemos mostrar nenhuma piedade.
Não consigo pensar. Não consigo organizar a mistura de emoções que disputam minha atenção. Tudo que consigo fazer é olhar as fotos em meu celular.
Então o celular faz barulho de novo. Eu o desligo e guardo na bolsa. Não estou preparada emocionalmente para lidar com as preocupações de Ai-Meu-Deus-Martha me provocando.
— Preciso ir embora — aviso, e me levanto com dificuldade. Eu tinha razão, fiquei com a coxa marcada por causa da grama, mas isso é o menor de meus problemas. — Preciso fazer umas coisas.
Não faço ideia de que coisas são essas. Deve ser chorar mais no pelo fedorento de Gretchen Weiner, e, de vez em quando, tentar criar coragem e ligar para Mark, perguntar o que diabos está acontecendo.
Ao mesmo tempo, não tenho coragem de ligar para Mark porque estou com a sensação terrível e nauseante de que ele deixou de me amar na última meia-hora, desde que a gente se falou pela última vez. Mas não entendo como nem por quê. Não estou entendendo nada.
— Sim, é isso aí! Vá atrás dele e diga bem na sua cara o quanto ele é babaca — sugere Charlie.
Ela esmurra meu braço com bem mais força que Emmeline. Dói.
Essas garotas do roller derby nunca percebem o quanto são fortes.
— Vai mesmo fazer isso? — pergunta Emmeline, desconfiada. 
Vai para casa se lamentar, não é? — Ela começa a juntar suas coisas.
— Tá bom, tudo bem, vou com você. Não vou deixar ninguém se
lamentar do meu lado.
— Vou ficar bem — asseguro rapidamente.
Apesar de apreciar a oferta, Emmeline veio correndo até o Crystal Palace para passar um tempo com as amigas do roller derby, e, ainda mais importante, para conseguir algum avanço amoroso com
Charlie. Não quero estragar seu futuro romântico.
— Você não está bem — insiste Emmeline. — Quem estaria bem? Vamos fazer o seguinte, quando chegarmos a sua casa, pegamos tudo que Mark deixou lá e queimamos. Assim vai se sentir
melhor.
Eu não me sentiria melhor, e naquela semana já aconteceu um incidente infeliz envolvendo chamas; eu não daria conta de outro.
— Por favor, Em. Não vou conseguir lidar com sua abordagem durona agora. Preciso de sorvete e de minha coberta especial da tristeza.
Emmeline estremece ao ouvir falar da minha coberta especial da tristeza (muito esfarrapada e meio que fedorenta).
— Posso amenizar a abordagem durona.
Vejo sinceridade em seu rosto, não tem nada dissimulado. Ela está sendo direta. E falando sério. Se eu quiser que ela volte comigo para o outro lado de Londres, até minha casa, para fecharmos todas
as janelas, isolar o calor do verão e tomar sorvete, pois é o que se faz nessas situações, ela vai topar. Sei que é verdade, apesar de não ter certeza de muitas outras coisas. E Emmeline vai dizer que jamais
gostou muito de Mark. 
Ela vai dizer muito isso. Vai dizer até que aquela garota parecia uma vagabunda, apesar de a mãe de Emmeline sempre dizer que a gente não devia xingar outras garotas — mesmo se elas merecerem.
Emmeline vai fazer isso por ser minha melhor amiga, mas ela lança uma olhadela inevitável na direção de Charlie. É esperançosa, muito esperançosa — e, de repente, sua esperança se transforma em lamento.
Mas isso de melhor amiga é uma via de mão dupla.
— Ah, não — digo. — Eu vou ficar bem, sério. Prometo que não vou ficar muito na fossa. Só preciso organizar minha cabeça, talvez falar com Mark. E de todo jeito preciso limpar o apartamento antes
que minha mãe e Terry voltem, e, se a dor de cotovelo falar mais alto, eu ligo para Alex, Martha ou Archie. Acho que vou ligar de todo jeito.
Eles me ajudaram a fazer aquela bagunça.
Então ergo o queixo e consigo sorrir. De um a dez, é um sorriso nota três, no máximo.
— Tem certeza? — pergunta Emmeline.
— Muita. E, se eu mudar de ideia, a gente pode se encontrar no centro mais tarde, se vocês ainda forem à boate.
Embrulhei vários bolos e tortinhas em guardanapos para aguentar a longa jornada. Alguém me dá indicações tão detalhadas para sair do parque que nem eu vou conseguir me perder. E instruções para não ir até Penge West dessa vez, e sim até a estação Crystal Palace e trocar para a linha norte ao chegar em Clapham.
— É melhor eu me mandar. Me desculpem por ir embora — digo, acenando sem disposição para combinar com o sorriso nota três.
Assim que subo a colina e desapareço de vista, pego o celular e
ligo para Mark.
Ele atende no primeiro toque.
— Linda — diz ele, em vez de atender cantando sobre a luz do sol,
como costuma fazer. — Ia ligar pra você agora. Não é o que você está
pensando, não mesmo..." Fonte Editora Record


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