segunda-feira, 12 de junho de 2017

Trecho do livro "Meus dias com Você" de Clare swatman

Oi Gente!!

Tudo bem com vocês?!! Espero que sim! Gente não aguentei, olhando os lançamentos para o próximo mês eu vi um livro que me chamou a atenção... Achei ele muito fofo, então resolvi ler o seu resumo e a trama me cativou. Então descolei para vocês um trecho do livro, a história é linda, um romance que viajará no tempo e dará uma segunda chance para reviver um grande amor e também não cometer os mesmo erros tendo assim mudar o futuro!! Se isso será possível não sei mas vamos esperar para ver. 
O livro me fez lembrar muito a série Outlander, mas acredito que será tão boa quanto não vejo a hora deste livro estar disponível para venda. Abaixo o Trecho do livro:

Foto: Capa livro Meus dias com você
"Prólogo

29 de junho de 2013

É um dia quente e o sol brilhante contrasta brutalmente com o ambiente sombrio. O rosto de Zoe está pálido e inexpressivo quando ela desce do automóvel preto e percorre, insegura, o caminho até o prédio baixo de tijolos à sua frente. Sua mãe, Sandra, apressa-se para alcançá-la e segura, protetora, a filha pelo cotovelo.
O sol do meio-dia encurta as sombras de um grupo de pessoas paradas diante das portas. Zoe não consegue identificá-las, pois a luz brilhante as transforma em nada mais do que silhuetas, mas vê que uma ou duas estão fumando, soltando baforadas irregulares no ar quente de verão. Elas observam
quando Zoe se aproxima, e uma delas a saúda com um sorriso forçado.
Zoe não percebe.
Lá dentro, mãe e filha abrem caminho decididas até a primeira fileira. A sogra de Zoe, Susan, já está lá. Seus olhos estão vermelhos e inchados, apesar da maquiagem cuidadosamente aplicada, e ela consegue dar um fraco sorriso enquanto mãe e filha se sentam ao seu lado. Instintivamente, Zoe estende a mão e agarra a da sogra, apertando-a com firmeza no espaço do assento entre elas.
Elas ouvem, atrás de si, os sussurros, as fungadas e os murmúrios dos outros presentes, que se movem para tomar seus assentos. Mas o que prende a atenção delas por completo é o que está na frente: o caixão de Ed, colocado sobre uma mesa no meio da sala. Zoe olha para a inócua caixa de madeira e pensa que é impossível acreditar que o corpo de seu marido, tão forte, tão vibrante, tão alegre, esteja mesmo ali. É totalmente irreal. Totalmente injusto.

No dia em que ele morreu, também fazia calor. Como sempre, Zoe estava zanzando pelo apartamento, jogando coisas na bolsa: laptop, diário, maçã, celular, Coca diet, livro, iPad. 
– Se você colocar mais alguma coisa aí, vai precisar de um burro de carga para levar você ao trabalho – murmurou Ed enquanto escovava os dentes.
Um fio de pasta de dentes desceu pelo seu queixo e caiu no chão.
Ela revirou os olhos.
– Pelo amor de Deus, Ed – disse ela, começando a se irritar.
Sabia que estava exagerando, que ele apenas tentava deixar o ambiente mais leve, mas não conseguiu se controlar. Marchou até o banheiro, pegou um pedaço de papel higiênico e se agachou para limpar a pasta do chão.
Enquanto esfregava, sua unha ficou presa em um espaço entre duas tábuas
do piso e se quebrou.
– Que merda! – xingou ela, sentindo a raiva subir pela garganta como bile.
Levantou-se e marchou de volta para o banheiro, abriu com raiva a porta do armário e procurou a tesourinha de unha. Estava atrasada, Ed a estava deixando louca e ela só queria sair do apartamento. Assim que encontrou a tesourinha, cortou a unha quebrada, jogou o objeto de volta no armário e bateu a porta.
Saiu do banheiro pisando forte e viu Ed de cara amarrada na sala, tentando sair do caminho dela. Zoe não podia culpá-lo. Ela andava sempre zangada nos últimos tempos, uma raiva inexplicável que borbulhava sob a superfície, pronta para explodir a qualquer momento. Mas saber que esse sentimento estava ali não significava que ela fosse capaz de represá-lo.
Eram os hormônios, ela sabia. Sempre os malditos hormônios. Zoe abriu a porta do guarda-roupa com um puxão, para buscar suas sandálias. Quando enfiou a cabeça para procurar, ouviu a voz abafada de Ed dizendo algo no outro quarto.
– O que você disse? – perguntou ela, inclinando a cabeça para ouvi-lo melhor.
Ele apareceu à porta, prendendo o capacete na cabeça.
– Estou saindo para o trabalho. Até logo.
– Tchau. – Breve, seca.
Ela não estava com vontade de conversar, e Ed sabia disso. Ele se virou e saiu. Segundos depois, a porta bateu e ela ouviu o barulho dele destrancando a bicicleta e começando a pedalar. Sentiu uma pontinha de arrependimento, mas a ignorou e voltou a atenção para o guarda-roupa.

E essa foi a última vez que o viu vivo. Só ouviu a notícia bem mais tarde. Havia passado a manhã inteira em uma reunião e, quando saiu, Olive, sua chefe, a esperava em sua mesa com o rosto pálido.
– Olive? Está tudo bem? – perguntou Zoe.
Olive não disse nada por alguns segundos e Zoe começou a ficar preocupada. Teria cometido um erro? Estaria encrencada?
– Venha comigo – respondeu Olive.
Sua voz era suave e calma, não dura e irritada, o que deixou Zoe ainda mais confusa. Elas retornaram à sala de reuniões, de onde Zoe acabara de sair, e Olive fechou a porta.
– Sente-se – pediu ela, apontando para a cadeira ao seu lado e acomodando-se em outra.
– Por favor.
Zoe puxou a cadeira e se sentou na ponta, nervosa. Suas mãos tremiam.
– Zoe, não sei como lhe dizer isso – começou Olive, sem preâmbulos. –Houve um acidente. Com o Ed. Ele foi atropelado por um ônibus.
Ela parou e Zoe prendeu a respiração. Queria que Olive dissesse as palavras seguintes depressa, para acabar logo com aquela aflição, mas ao mesmo tempo não desejava ouvi-las, não realmente, não em voz alta.
Uma batida suave na porta quebrou o terrível silêncio e Zoe quase pulou da cadeira. Olive correu para abri-la. Zoe também se virou e, então, seu mundo desmoronou. Havia dois policiais parados na entrada. Estavam perguntando por ela. No lugar de palavras, um soluço sufocado escapou de sua boca. Ela tentou se levantar, mas suas pernas falharam e ela caiu de volta na cadeira. Suas mãos tremiam e, quando a policial entrou na sala, Zoe olhou para Olive, seus olhos implorando que ela lhe dissesse que tinha havido um terrível, um lamentável engano. Mas Olive não conseguia encará-la.
Zoe olhou para os sapatos da policial. Estavam tão polidos que a ponta refletia a iluminação do teto. Imaginou aquela mulher se preparando para o trabalho pela manhã, de pé na cozinha, polindo os sapatos até brilharem, pensando no dia que teria pela frente. Será que ela pensara que, mais tarde, teria que informar a alguém que seu marido havia morrido?
Ela continuou calada, olhando para o chão.
– Zoe? – disse uma voz.

Ela levantou os olhos. Três rostos a encaravam, esperando que ela falasse alguma coisa.
– Eu... Eu.... – As palavras não saíam. – Onde ele está? – conseguiu murmurar finalmente.
Aliviado por ter algo a dizer, o outro policial deu um passo à frente.
– Ele foi levado para o Royal Free Hospital. Sinto muito, mas ele... Não havia nada que os médicos pudessem fazer. – Ele se deteve por um instante.
– Podemos levá-la até lá se a senhora quiser.
Atordoada, Zoe assentiu e se levantou. Olive correu até ela, ansiosa para poder fazer algo útil.
– Vamos pegar as suas coisas, querida – disse ela, tomando Zoe pelo cotovelo e guiando-a para a porta.
Em sua mesa, Zoe abaixou-se para pegar a bolsa, que estava no chão, o casaco, que estava pendurado no encosto da cadeira, e conferiu se não estava deixando nada para trás. Então ela e Olive seguiram os policiais, que as conduziram até lá fora. Olive a ajudou a entrar na viatura, que aguardava na calçada. A rua estava estranhamente silenciosa. No fundo de sua mente, ela sabia que tinha que avisar às pessoas o que estava acontecendo, por isso, enquanto o carro se dirigia para o hospital, ela pressionou uma sequência de números que lhe era familiar. Primeiro, Jane, sua melhor amiga.
– Oi – disse Jane, atendendo ao primeiro toque.
Sua voz, leve e animada, soou tão incongruente que Zoe sentiu faltar o ar.
– Zo, o que aconteceu?
– Ed... – Sua voz falhou e ela lutou para conseguir pronunciar as palavras.
– É o Ed. Ele... Aconteceu um acidente e...
Ela não conseguiu terminar. Não era capaz de dizer a palavra. Não precisou.
– Que merda, Zo. Onde você está? Vou já para aí.
– Royal Free. – A voz de Zoe não era mais que um sussurro.
– Estou indo.
Quando Zoe desligou, eles estavam estacionando em frente ao hospital. Não havia tempo para ligar para mais ninguém. O sol descia atrás do edifício de tijolos, dando a ele uma estranha silhueta gótica contra o céu brilhante. Ela saiu do carro. Sua perna tremeu e ela tropeçou, mas a policial – ela não conseguia lembrar o nome da moça – segurou-a pelo cotovelo e restaurou seu equilíbrio. Caminharam até as portas e, quando elas se fecharam, Zoe sentiu que estava sendo engolida pelo inferno.
Ela foi conduzida até uma fila de cadeiras em uma pequena sala enfiada nas profundezas do hospital. Enquanto esperava, ficou olhando, sem realmente ver, os cartazes na parede sobre luto e depressão, lendo as palavras sem compreendê-las. O esforço para manter a mente vazia consumia todas as suas forças. Então ela ouviu uma voz familiar e olhou para cima, e ali estava Jane, que correu até ela, atravessando a minúscula sala, e logo estavam nos braços uma da outra, apertando com força, enquanto Zoe soluçava: soluços fortes, que sacudiam seu corpo como se fossem parti-la ao meio.
– Ele... Ele morreu.
Ela engoliu em seco, em meio a lágrimas abundantes, o nariz escorrendo.
– Ah, Zoe, Zoe, Zoe... – murmurou Jane, acariciando com vigor as costas da amiga querida. Elas ficaram assim até os soluços de Zoe diminuírem, depois se sentaram de mãos dadas.
– Eu fui tão má com ele hoje manhã... – disse Zoe quando sua respiração começou a se normalizar
– Ele nem olhou para mim. Ele teve ódio de mim, Jane.
– Zoe, Ed jamais teria ódio de você. Ele a adorava e sabia que você o amava. Por favor, não pense uma coisa dessas.
– Mas eu estava muito zangada com ele. E ele não tinha feito nada errado. Eu nem me despedi, e agora ele morreu e nunca mais vou poder dizer a ele quanto o amo. É tarde demais. O que vou fazer agora?
Antes que Jane pudesse responder, o médico chegou e elas foram levadas ao lugar onde Ed estava para identificar o corpo. Aturdida, Zoe ouvia as explicações dos médicos. Ed fora atingido por um ônibus, não teve a menor chance de escapar, já chegou morto ao hospital. As palavras “traumatismo
crânio-encefálico” e “nada que pudesse ser feito” ficavam invadindo sua cabeça, mas ela não tinha coragem de pensar em Ed sentindo dor, sofrendo.
Só conseguia se perguntar por quê. Por que ela o deixara sair de casa sem lhe dizer que o amava? Se o tivesse atrasado uns poucos minutos dando-lhe um abraço, ele estaria vivo agora e os dois poderiam resolver todos os problemas, tinha certeza. Se ela o tivesse levado de carro até o trabalho em vez de permitir que ele fosse de bicicleta – ela detestava que ele andasse de bicicleta, sempre temia que fosse atropelado e se machucasse...
Mas agora era tarde. Ed estava morto. Ah, meu Deus, Ed estava morto. Aturdida, ela foi levada até a maca onde Ed estava. Apesar dos ferimento eles o haviam limpado da melhor maneira possível, mas ainda havia vestígios de sangue no rosto e no peito –, podia ver seu Ed deitado ali. A vontade de tocá-lo, de abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem era avassaladora. Mas Zoe sabia que não era possível. Ela se virou e se afastou, com Jane segurando-a pelos ombros.

As horas seguintes foram como um borrão. Ela se lembra das pessoas trazendo-lhe chá, dando-lhe abraços de pesar, e se recorda do barulho dos carrinhos passando pela sala reservada aos parentes, onde ela se sentou e esperou. Então chegou Susan, a mãe de Ed, e as duas mulheres se abraçaram, unidas por uma dor que ameaçava sufocá-las.
Agora elas estão juntas outra vez. Só se passaram dez dias e ainda dói tanto que Zoe mal consegue acreditar que continua respirando. Um soluço rasga seu peito e escapa pelos lábios. Ela pressiona a mão na boca, tentando se controlar. Sua mãe aperta com força a outra mão. E então a cerimônia começa.
Zoe se senta, os olhos secos, quando o celebrante começa a dizer palavras bonitas e gentis sobre seu marido. Chega a vez de Zoe. Ela não se sente capaz de enfrentar tudo isso, mas prometeu a Susan, e ao subir ao púlpito, segurando uma folha de papel meio amassada, olhando para o mar de rostos, todas aquelas pessoas que amam Ed, que a amam, ela tem certeza de que precisa dizer algo. Zoe se aproxima do microfone.
– Escrevi algumas palavras que gostaria de dizer, mas agora não sei mais se estão corretas.
Sua voz vacila um pouco e Sandra faz menção de ir até lá para acalmá-la, mas Zoe balança a cabeça minimamente e respira fundo. 
– Nesses últimos quinze anos, Ed foi sempre meu mundo. Ele era tudo para mim, e a verdade é que a simples ideia de continuar vivendo sem a presença dele é como atravessar um imenso deserto sem nenhum sinal de água. Sinto que minha vida agora existe apenas pela metade, e ele mal acabou de partir. Sei que todos dizem que o tempo cura, mas não sei se quero que isso aconteça. Não quero que a lembrança dele, de tudo que vivemos juntos, desapareça. Quero guardá-la em minha mente para sempre, para que eu possa atravessar os dias tristes que sei que virão.
Ela faz uma pausa, olha para as mãos, fechadas com força sobre o púlpito, as articulações brancas.
– Eu vou levar para sempre o desejo de ter dito a ele algumas coisas que não disse, sempre vou desejar a chance de mudar algumas coisas que fiz no dia em que ele morreu e nos meses e anos antes desse dia. Mas não posso, então tentarei carregar comigo os momentos felizes e esquecer os ruins...
Ela se interrompe outra vez, olha para a frente e seu olhar cruza o de Jane. O rosto da amiga está pálido, tenso, uma versão apagada de si mesma.
– Espero que vocês possam fazer o mesmo. Lembrar-se de Ed com amor. Fico feliz por estarem aqui. Não sei se conseguiria sem vocês. Muito obrigada.
Então sua voz falha, as lágrimas começam a brotar e ela corre para seu lugar e para os braços da mãe.
O celebrante prossegue, mas Zoe mal consegue absorver as palavras. A cerimônia chega ao fim e, enquanto as cortinas ao redor do caixão de Ed são baixadas, a canção favorita dele, “Under My Thumb”, dos Rolling Stones, começa a tocar.
– Não! – grita Zoe.
Ela vira a cabeça, enterra o rosto nas mãos e deixa que as lágrimas fluam livremente. E, quando olha de novo, Ed já se foi. 

16 de agosto de 2013

De pé junto à janela, Zoe coça a cabeça e observa a chuva escorrer caudalosa pelo vidro encardido, arrastando para baixo, junto com a água, o seu humor. A batida da chuva na janela soa como um tambor distante e espelha o martelar de seu coração. Ela não sabe dizer em que ponto as gotas de chuva terminam e suas lágrimas começam.
Do lado de fora, ela vê o jardim embaçado pela chuva. Faz menos de dois meses que não cuida do jardim, mas ele já parece fora de controle. As rosas estão arqueadas sob o próprio peso. Dezenas de ervas daninhas e cardos se elevam, altivos, em um pequeno pedaço de terra. O deque está escorregadio de musgo e chuva. Ela fecha os olhos por um instante e vê Ed encurvado, plantando, podando, removendo a erva daninha com todo o cuidado. Esse pequeno pedaço de jardim era seu orgulho e sua alegria, uma das razões que os levaram a comprar o apartamento. Ela deveria cuidar das plantas, mas não tem coragem de ir até lá.  A simples ideia de olhar o jardim sem a presença de Ed provoca uma enorme pressão em seu peito.
Ela enfia a mão no fundo do bolso do casaco e sente a embalagem de alumínio. Olha para o relógio. Só se passaram duas horas desde que tomou a última dose, que a deixa meio tonta. Mas ela precisa muito desse socorro. É um antidepressivo. Está deprimida. É uma escolha fácil. Ela joga mais um comprimido na boca e o engole depressa, sem água, o que quase a faz engasgar.
Afastando-se da janela, Zoe entra na cozinha e destranca a porta dos fundos. A chave não coopera e ela insiste, desajeitada. Então, finalmente a chave gira com um clique. Zoe puxa a porta e sai. A chuva está tão forte que no mesmo instante seus cabelos se colam ao rosto, mas ela nem percebe. Atravessa o cascalho e pisa no deque. Inclina-se para a frente e arranca um cardo, alheia aos espinhos que lhe perfuram a pele. Ela o joga no chão com raiva, depois gira o corpo, puxa outro e faz o mesmo. Tomada pela raiva, começa a arrancar as ervas daninhas sem nem perceber o que está fazendo. 

Plantas voam, pétalas são arrancadas das flores. Ela está descontando a raiva no lugar que Ed mais amava. Isso não a faz se sentir melhor, mas ela não consegue parar. A chuva continua a bater em sua cabeça, colando as roupas na pele gelada, mas ela não sente frio. Não sente nada. Por fim, quando não há mais nada para ser arrancado, ela se vira e pisa na pilha que fez de folhas úmidas e encharcadas, água pingando de suas sobrancelhas, seus lábios, suas bochechas. Zoe tenta se levantar e voltar para dentro, mas o pé desliza para a frente, sem fazer o contato apropriado com o chão molhado e escorregadio.
Ela perde o equilíbrio e seu corpo se inclina para trás, como se estivesse em câmera lenta. Os braços giram depressa, tentando segurar algo, qualquer coisa, para evitar a queda. Mas não há nada além do vazio e ela sente o estômago saltar para a garganta enquanto cai para trás no chão molhado. Ela pensa que grita, mas não tem certeza, e sua cabeça bate em um vaso de cerâmica, quica e cai de novo no chão, com um barulho pavoroso. A dor é intensa, mas logo termina, pois ela perde a consciência e tudo ao seu redor fica preto.

Capitulo 1

18 de setembro de 1993

No instante em que acordo, meus olhos ainda fechados com força, sei que algo mudou. Enquanto minha mente se esforça para identificar o que pode ser, um pensamento louco surge de repente: talvez tenha sido um terrível pesadelo e Ed não esteja morto, afinal. Então eu me lembro de tudo outra vez e meu estômago se contrai, meus músculos se tensionam e eu sinto como se a delicada corda que me mantém presa à Terra, à minha vida, estivesse em perigo de se partir para sempre.
Então, o que há de tão diferente hoje?
Posso dizer, mesmo com os olhos ainda fechados, que o quarto está inundado de luz, o que já é estranho. Gosto do meu quarto bem escuro. Será que me esqueci de fechar o blecaute das cortinas ontem à noite? Talvez. Mas parece, definitivamente, mais do que isso. Algo me vem à mente. Não está claro, mas há uma memória vaga, espreitando nas sombras, tentando me escapar. Eu estava no jardim. Chovia, e eu estava arrancando as ervas daninhas descontroladamente. Eu me lembro disso. Mas depois não me lembro de muito mais. Há apenas um espaço em branco e uma ou outra imagem mais clara: uma queda, a dor na cabeça, rosas, o rosto de Jane, luzes no teto... e, depois, nada.
Será que estou em um hospital? Talvez seja isso. Eu caí, bati a cabeça e agora estou aqui, em uma cama de hospital, em segurança. Faz sentido, mas, de alguma forma, não acho que seja o que está diferente hoje.
Mantenho os olhos fechados por mais um minuto e escuto, com cuidado, os sons ao redor. Ouço um radiador batendo, como se o aquecimento acabasse de ser ligado. Identifico o som distante de um rádio e murmúrios, como se alguém estivesse conversando em uma cozinha, o zumbido de um chuveiro elétrico, alguém assobiando. Isso me é familiar, mas ainda não muito, e por certo não é típico de um hospital.

Finalmente, tento abrir os olhos e um mundo embaçado entra em foco devagar. Consigo perceber um teto branco, coberto com os mesmos redemoinhos e semicírculos que o do meu quarto de criança. Estranho, não vejo esse padrão há anos. Há até uma pequena marca cor-de-rosa, exatamente a mesma que fiz no teto do meu quarto quando joguei um batom em minha irmã e errei. Balanço a cabeça, confusa com essa lembrança. O lustre cinza pendurado no meio também me é familiar e parece puxar com força a minha mente, como uma criança puxando meu casaco, desesperada por atenção, desesperada para que a lembrança faça sentido.
Olho para a direita. Há uma cômoda ali, de pinho, coberta de adesivos e com um espelho em cima, cercado por lâmpadas. Está vazia, sem maquiagens, perfumes ou essas coisas, mas ainda assim me é tão familiar que me tira o fôlego.
Sento-me na cama, o coração batendo forte. Mal consigo respirar. Estou com medo de continuar olhando ao redor, mas não tenho escolha. Viro a cabeça e vejo o guarda-roupa de pinho que eu sabia que veria, uma porta aberta, a fileira de cabides vazios lá dentro. Na frente dele, há uma mala preta e uma caixa de papelão em que se lê Objetos da Zoe! escrito com marcador preto, ao lado de uma carinha desenhada mostrando a língua. Em cima, uma caixa de vinho com a marca da loja, Threshers, impressa, fechada com uma fita branca em que se lê a palavra Cuidado repetida em letras vermelhas
e berrantes. Eu sei, sem olhar, que lá dentro estão meus preciosos CDs, todos prazerosamente escolhidos na noite anterior.
Passeio os olhos pelo quarto. Um gancho vazio atrás da porta, onde deveria estar uma camisola; meu antigo CD player no chão, embrulhado em papel-bolha; uma escrivaninha sem papéis e canetas, apenas um pote solitário com um par de lápis sem ponta e um marcador. É o meu antigo quarto e está
exatamente igual ao dia em que parti para a universidade.
Meu coração ainda está martelando e eu respiro fundo algumas vezes, tentando acalmá-lo. Não há nada com que se preocupar, é apenas um sonho, digo para mim mesma. Sua mente está lhe pregando peças. Volte a dormir e, quando você acordar, tudo terá voltado ao normal, seja lá o que “normal” signifique.

Pouso a cabeça no travesseiro e fecho os olhos. Mas não resisto e, quando dou mais uma olhadela, nada mudou. Que diabos está acontecendo?
Empurro o edredom, coloco as pernas para fora da cama e, cautelosamente, olho no espelho. Só me vejo na altura da cintura, mas já identifico meu pijama curto e a blusa refletidos ao me aproximar – um pijama que não uso há cerca de dezoito anos. Não sei se estou pronta para o que vou ver, mas, ainda assim, sento-me com cuidado na ponta do banquinho e olho para o espelho.
Fico sem ar. Não porque seja horrível. Sou eu. Mas não eu aos 38 anos, com olheiras e linhas finas sob os olhos, além de um profundo V gravado na testa que já estou acostumada a ver. É uma menina de 18 anos, com bochechas coradas e sem rugas – e uma maquiagem preta sob os olhos que me faz parecer o Alice Cooper. Meu cabelo está tingido de uma estranha cor púrpura-avermelhada e está todo arrepiado, como uma juba. Com mãos trêmulas, eu o toco e semicerro os olhos diante do meu reflexo, com uma careta.
 Minha testa não enruga nem franze como costuma fazer, mas permanece suave e inexplicavelmente elástica. Eu rio alto. O som é inesperado e me faz dar um salto. É um som que não ouço há algum tempo. Mas me parece apropriado, pois essa situação é totalmente ridícula.
Como isso pode estar acontecendo?
Penso em voltar para a cama, enterrar a cabeça debaixo do travesseiro e fingir que nada daquilo está acontecendo. Mas estou curiosa. Apavorada e confusa, mas também curiosa para saber o que pode vir em seguida. Porque a verdade é que eu sei que é mais do que apenas um sonho. Não sei como, simplesmente sei. A sensação é de que é... real. Por mais louco que pareça, sinto que estou realmente aqui.
Entretanto, não tenho a menor ideia do que fazer. O que você faz quando acorda em sua vida antiga? Existe algum manual, um conjunto de regras a seguir? E quanto tempo vai durar até eu voltar à vida real? Um dia, uma semana, um mês? Para sempre? Estremeço com esse pensamento.
Eu me levanto. Há uma pilha de roupas jogadas na ponta da cama, amassadas por terem sido chutadas durante o sono. Eu me lembro com clareza de ter passado horas escolhendo o que vestir hoje, em meu primeiro dia na universidade. Estava me mudando para Newcastle e me sentia extremamente animada. Assustada também, mas principalmente animada.
“Mal posso esperar para sair daqui”, eu disse para minha melhor amiga, Amy. Mas eu estava só bancando a durona. A verdade era que eu amava a minha casa em Doncaster, com meus pais e minha irmã mais nova, Becky. Eu reclamava, é claro. Mas sabia que meus pais me amavam, e esse mundo era tudo o que eu conhecia. Morar em Newcastle, onde eu não conhecia ninguém, seria uma enorme mudança. É difícil acreditar que eu já fui uma menininha assustada.
Tiro o short do pijama e visto as roupas que estão na ponta da cama: meias compridas listradas de preto e branco; um vestido preto justo e curto; um cardigã grande demais. Olho para mim mesma. Estranhamente, me sinto muito bem com esta roupa. Estreito os olhos e observo a mesinha de cabeceira. Estou procurando meu celular e, de repente, solto um som de desaprovação (eu me pergunto se estou fazendo esse som também enquanto durmo e sorrio imaginando como seria engraçado se alguém estivesse me vendo). Estamos em 1993. 
Eu não tinha um celular em 1993. Ninguém tinha, a não ser empresários, com seus tijolões desajeitados permanentemente nos ouvidos. O que havia era meu rádio-relógio, que mostra as horas: 8h10. Desço as escadas para ver o que está acontecendo. Lembro-me de minha mãe me dizer certa vez que, quando saí de casa para a universidade, ela chorou por três dias inteiros. Nunca acreditei. Minha mãe não era do tipo chorona. Estava sempre ocupada demais cuidando de todos e não tinha tempo para a autoindulgência. Isso me parecia muito improvável.
Mas, quando desço, espio minha mãe pela porta entreaberta da cozinha por um minuto antes que ela perceba que estou ali. Ela parece tão jovem, o cabelo não mais grisalho, mas de um castanho escuro. Também está mais magra e usa uma blusa em vez dos incontáveis suéteres da Mark & Spencer que ela prefere atualmente. Está tão bonita... Eu tinha esquecido que um dia ela teve essa aparência. Uma voz monótona fala no rádio.

 Lentamente, minha mãe tira pratos e vasilhas da máquina de lavar louça com uma das mãos, enquanto na outra segura um paninho que passa em volta dos olhos de vez em quando. Meu coração se enche de amor por ela. Então Becky desce as escadas e quebra o encanto.
– Por que você está aí parada? – pergunta ela.
Eu a olho, incapaz de responder. Agora, quando vejo Becky, fico sempre impressionada ao perceber quanto ela está crescida. Ela é quatro anos mais nova do que eu e sempre a enxerguei como minha irmãzinha. Vê-la adulta me surpreende todos os dias. Essa aqui na minha frente é a Becky que eu
tenho fotografada na memória.
E, é claro, isso também prova uma coisa: Becky pode me ver, o que, de alguma forma, significa que toda essa coisa é real. Sem esperar uma resposta, Becky passa por mim e entra na cozinha.
– Mãe, cadê meu uniforme do hóquei? – pergunta com uma voz manhosa. Minha mãe se endireita.
– Ali, meu amor – responde ela, apontando para uma pilha de roupas bem passadas sobre a bancada.
Que Deus a abençoe. Ela tem a paciência de um santo. Minha mãe me observa e dá um leve sorriso.
– Olá, querida, está tudo pronto?
Então minha mãe também pode me ver. Certo. Respiro fundo e, hesitante, sorrio para ela. Normalmente, eu teria dito algo petulante, do tipo “Sim, mal posso esperar para sair daqui”. Mas, depois de ter visto como ela está chateada, não tenho coragem.
– Sim, as malas já estão prontas – respondo, percebendo, pela primeira vez, seus olhos inchados.
Dou um passo à frente e a abraço. Ela parece surpresa e leva alguns segundos para reagir. Ao sentir o cheiro de flor-de-maio de seu sabonete, fico nostálgica, lembrando-me da simplicidade da vida naquela época. Que pena que não é mais assim. Se ao menos eu só tivesse que me preocupar com sair de casa, decidir o que comer no café da manhã, fazer novos amigos!
Eu me afasto e noto que uma careta aparece brevemente no rosto de minha mãe. Deve estar se perguntando por que eu a abracei. Quando eu era adolescente, não me comportava assim. Estava muito ocupada me preocupando comigo mesma para perceber que minha mãe estava triste. Era muito mais provável que eu a ignorasse completamente, sujasse sua cozinha tão limpa e nunca parasse para abraçá-la só porque ela parecia chateada.

Comportar-me como uma adolescente vai ser difícil. Eu não sou mais essa pessoa. Mas vou ter que tentar. Vou até a pia para encher a chaleira com água.
– Chá? – pergunto para quem quiser ouvir.
– Sim, por favor, querida.
– Eu também – grunhe Becky, que está ao lado do armário onde ficam os cereais, enfiando um monte deles na boca direto da caixa, como se não comesse há um mês.
Acendo o fogo e coloco os saquinhos de chá nas xícaras antes de me sentar pesadamente à mesa, esperando a água ferver.
– Onde está o papai?
Estou morrendo de vontade de vê-lo novamente.
– Ah, ele acabou de sair para pegar um jornal. – Ela faz o sinal de aspas no ar com os dedos.
Todas sabemos que, quando papai sai para “pegar um jornal”, significa que ele está fumando um cigarro escondido. Ele volta com cheiro de fumaça e sempre há uma reveladora protuberância em forma de maço de cigarros no bolso de sua camisa, mas fingimos que não sabemos e ele também finge que não sabemos. Não sei por que nos damos esse trabalho. Eu reviro os olhos e vejo minha mãe andando de um lado para outro na cozinha.
Ela abre gavetas, limpa manchas imaginárias no balcão e cata cereais que caíram aos pés de Becky.
– Não limpe a bagunça dela. Ela já é grandinha – digo, olhando para a trilha de cereais que Becky vai deixando atrás de si como João e Maria na floresta.
– Cale a boca! – Becky parece furiosa.
– Está tudo bem, querida, eu não me importo. Já estou limpando mesmo.
– Mas...
Eu me controlo. Não suporto ver minha mãe sendo tratada como empregada, só que tenho plena consciência de que eu fazia exatamente o mesmo, por isso não respondo nada, me levanto e encho as xícaras com água, coloco leite em cada uma, adoçante para mamãe, um torrão de açúcar para Becky e deixo o meu chá puro.
– Quer comer alguma coisa, querida?
Minha cabeça dói. Eu a esfrego suavemente.
– Não, obrigada. Acho que vou tomar meu chá lá em cima e terminar de me preparar.
– Está bem. Daqui a pouco nos vemos. Mas não demore muito, seu pai quer pegar logo a estrada.
Concordo com um meneio de cabeça e subo a escada, colocando meu
chá com cuidado no chão ao lado da minha cama. Então me deito de novo. Preciso de um momento para pensar. Não sei quanto desse dia eu verei novamente, mas é estranho saber o que vai acontecer em seguida. Daqui a algumas horas, meus pais e eu juntaremos meus poucos pertences no carro e daremos adeus a Becky, que teve autorização para ficar em casa, ir ao treino de hóquei e almoçar com as amigas na cidade. Depois eu vou chegar a Newcastle, meu coração batendo de pavor enquanto dirigimos por ruas desconhecidas. Quando chegarmos à minha casa, vamos descarregar o carro e serei deixada sozinha pela primeira vez na vida, só eu e meus novos colegas de casa.
E é nesse instante que me dou conta do fato, que me atropela como um trem. Fico tão sem fôlego que mal consigo respirar. Não acredito que levei tanto tempo para lembrar. Foi neste dia – no verdadeiro, pelo menos – que eu vi Ed pela primeira vez. Meu Ed, por quem estive de luto a cada instante ao longo dos últimos dois meses; meu Ed, cuja morte me deixou arrasada, perdida e com raiva.
Eu viro de lado e aperto a barriga, respirando com dificuldade. Isso significaria... Não ouso sequer formar o pensamento...
Poderia isso significar que, após dois meses de luto pela morte dele, sentindo como se meu coração tivesse sido arrancado do peito, depois de sonhar em voltar a tocar a barba malfeita em seu queixo, tirar o cabelo de seus olhos, enlaçar seu pescoço bronzeado e manter seu corpo junto ao meu, eu vou ter a chance de vê-lo novamente?
Sinto-me atordoada diante dessa possibilidade. Mal posso acreditar. E mal posso esperar.

O ritmo do carro deve ter me feito adormecer porque, quando abro os olhos, já paramos, meu pai desligou o motor e, por um instante apenas, quando minha mãe se vira no banco do carona e sorri para mim, sinto que estou de volta em 1993, que está tudo bem, e eu sorrio para ela.
Então eu lembro, e sinto o ar faltar.
– Você está bem, querida? Está tão pálida.
Eu me ajeito no assento e limpo a baba do canto da boca.
– Tudo bem, só peguei no sono, me desculpe.
Papai pigarreia.
– Grande novidade.
– John, deixe a menina em paz.
– O que foi? Ela é uma adolescente, é isso o que eles fazem. – Papai aponta com a cabeça para a janela. – Olhe lá. É a sua nova casa. Espio pela janela e vejo a pequena casa onde vou morar durante o próximo ano. É tão familiar quanto meu próprio rosto e, apesar de tudo, me faz sorrir.
A porta simples da casa geminada está aberta. Saímos do carro, e uma mulher de meia-idade que me é familiar sai e vem ao nosso encontro.
– Olá, senhor... – diz ela, estendendo a mão para meu pai e sorrindo calorosamente.
– John – responde meu pai, sacudindo a mão com firmeza. – John Morgan.
E esta é minha esposa, Sandra. Elas apertam as mãos e em seguida a mulher se vira para mim, toda
sorridente.
– Então você deve ser Zoe – diz ela, apertando a minha mão. – Sou a mãe de Jane, Cara. É um grande prazer conhecê-la.
– Olá – murmuro, tentando não deixar transparecer que já sei quem ela é.
Levamos minha bagagem para dentro e a despejamos no primeiro cômodo que encontramos.
– Vou pegar a chaleira – fala mamãe, arrancando a fita adesiva de uma das caixas.
– Não é preciso, eu já fiz um bule – diz Cara, levando-nos para a cozinha.

Enquanto meus pais conversam com Cara, vou até o andar de cima para dar uma olhada antes que mais alguém chegue. Quando chego ao segundo quarto, porém, levo um susto. Aqui, de costas para mim, pendurando a calça jeans cuidadosamente no guarda-roupa, os cabelos louros balançando em um rabo de cavalo alto, está alguém que conheço muito bem.
Ela se vira para ver quem chegou e seu rosto excepcionalmente jovem e bonito se abre em um enorme sorriso.
– Oi, eu sou a Jane. Você deve ser Zoe. Entre e sente-se. Bem, se você encontrar algum lugar.
Ela empurra uma pilha de roupas para o lado, abrindo espaço para mim. Eu me sento e tento pensar no que dizer a alguém que conheço tão bem quanto a mim mesma, mas que devo fingir que estou encontrando pela primeira vez. Meu Deus, como eu gostaria que existisse um manual de instruções.
Tudo seria mais fácil.
– Que bom conhecer você finalmente – respondo, empoleirando-me precariamente na beirada da cama de solteiro.
– Também queria conhecer você logo. Eu estava torcendo para você chegar primeiro.
Bom, é assim que deve ser. Ninguém mais deve estar aqui ainda. Olho em volta, observando o quarto, e sorrio.
– Então parece que somos as únicas meninas. Quando será que os outros vão chegar?
Ela dá de ombros.
– Só Deus sabe, mas tomara que eles não sejam psicopatas.
Ela pisca, eu sorrio e, por um instante, o nó do meu estômago se desfaz. Essa é Jane, minha melhor amiga há cerca de vinte anos. Não há nada com que me preocupar.
– Quais eram mesmo os nomes deles... dos rapazes?
– Rob, Simon e Ed – respondo depressa demais, a voz fraquejando ligeiramente no último nome, e o sorriso de Jane vacila por um instante. 
Mas, segundos depois, ele retoma o brilho.
– Será que vamos ficar com algum deles? Sabe como é, um caso entre colegas de casa e que acaba, e aí fica um mal-estar pelo resto do ano? Tem que haver um, não tem? Acho que é lei.
Meu rosto fica em chamas. 

– Sim, deve acontecer.
Sem se deixar abater pela minha falta de entusiasmo, ela se espreme na cama ao meu lado e continua:
– Então, o que você vai estudar? Eu vou estudar teatro. Meus pais queriam que eu fizesse um curso que desse “futuro”, mas não sou inteligente o bastante. De qualquer forma, acho que vai ser divertido.
– Francês e marketing. – Minha resposta soa mortalmente maçante e sinto necessidade de elaborar. – Pensei que seria útil aprender uma língua e, você sabe, algo que possa realmente virar um trabalho. – Dou de ombros.
– Uau, a menina tem ambições. Gostei. – Ela pega um suéter da pilha de roupas e começa a dobrá-lo. – O que mais? E quanto a música, filmes, hobbies? Namorados? Você é uma campeã de karatê lésbica enrustida, aficionada em jazz?
– Ha ha, bem que eu queria ser interessante assim – respondo, achando graça. – Que nada, sou muito monótona, para dizer a verdade. E um pouco roqueira. – Olho para minhas roupas para provar isso. – Sou um pouco CDF e meu filme favorito é De volta para o futuro, porque acho que seria incrível viajar no tempo.
Eu me interrompo, percebendo o significado de minhas palavras.
– E não. Não tenho namorado. Nem namorada. – É claro que já tive namorados, mas me parece errado falar neles. – E você? – indago, sem muito interesse.
– Não há muito a relatar, para ser honesta. Meus pais diriam que eu joguei um pouco fora minha adolescência, bebendo no parque e quase não estudando para as provas finais, mas não tem problema, porque estou aqui agora e eles podem se orgulhar. – Ela revira os olhos.
– Eu tinha um namorado, Rich, mas ele foi para Plymouth e eu disse a ele que não fazia sentido tentarmos ficar juntos, então acho que nunca mais vou vê-lo. De qualquer forma, isso me dá a chance de conhecer algum cara bacana, um jogador de rúgbi bonitão, enquanto estou aqui, não é mesmo?
Ela sorri maliciosamente, mas, antes que eu possa responder, ouvimos passos pesados subindo as escadas. Meu corpo fica tenso, embora eu tenha certeza de que não pode ser Ed. Segundos depois, uma cabeça aparece à porta, um belo rosto coberto por uma farta cabeleira preta.

É Rob. Ao vê-lo, a tensão sai aos poucos do meu corpo.
– Qualquer pessoa pode participar, ou é só para as meninas? – pergunta ele enquanto o resto do seu corpo segue a cabeça para dentro do quarto.
– Entre – diz Jane. – Qual deles é você?
Ele sorri.
– Rob. O mais bonito.
Eu sorrio. Rob é bonito, mas também é mulherengo e terá dormido com metade das calouras antes do final do mês. Além disso, ele não é nenhum Ed.
– Prazer em conhecê-lo, o mais bonito – respondo.
Rob se senta ao meu lado na borda da cama, esticando os pés à frente. Enquanto Jane e Rob conversam, olho ao redor para as manchas escuras de umidade, para os quadrados de tinta mais escura e fita adesiva nos locais em que cartazes antigos deixaram suas marcas, e penso em como o dia tem sido surreal.
Por alguma razão, acordei em 1993, de volta à minha vida aos 18 anos. Se é apenas por um dia ou se vai durar muito tempo, não tenho ideia, e neste momento não me importo, porque só consigo pensar em uma coisa: Ed. Se tudo acontecer igual à primeira vez – e, como tem sido assim até agora, não tenho nenhuma razão para acreditar que vai ser diferente –, vou conhecer Ed em breve. Não vai ser meu Ed como conheço agora. Será o Ed que vi pela primeira vez, o jovem sexy e um pouco arrogante de quem gostei, mas por quem não me apaixonei perdidamente à primeira vista: não houve nenhum raio, nenhuma faísca elétrica. Só havia eu e um garoto, encontrando-nos pela primeira vez, com todo um mundo de possibilidades à nossa frente.
Desta vez, vai ser difícil – quase impossível – eu me comportar como se não o conhecesse. Eu o amei e odiei intensamente; eu o abracei, eu o confortei e briguei com ele, eu o perdi e chorei por ele. Com tudo isso na cabeça, como poderei enfrentar a situação? Não faço a menor ideia.
– O que você acha?
Com um sobressalto, sou trazida de volta e vejo Jane e Rob olhando para mim com expectativa, esperando uma resposta.
– Desculpe, eu estava a quilômetros de distância. O que você disse?
Espero que nenhum deles tenha percebido a tensão em minha voz.
– Vamos encontrar o tal lugar? – pergunta Rob. – Tomar uma cervejinha antes que os outros cheguem?

– Boa ideia.
Preciso mesmo de um pouco de álcool para me dar coragem de atravessar as próximas horas. Uma bebida é exatamente o que vai me ajudar. Levanto-me depressa.
– Vou só colocar minhas coisas no meu quarto antes de meus pais irem embora.
Descemos a escada para nos despedir enquanto meu pai coloca minhas malas e caixas no quarto ao lado do de Jane.
– Cuide-se, querida. – Mamãe me abraça com força e sinto lágrimas brotando em meus olhos outra vez. – Não se esqueça de me ligar e venha logo para casa nos visitar.
– Mas não muito depressa, pois estou pensando em alugar seu quarto – brinca meu pai, que sorri e me dá um abraço rápido.
Eu aceno enquanto o carro segue pela estrada, deixando-me sozinha em minha nova vida. Eu consigo fazer isso. Consigo viver de novo uma vida de estudante. Afinal, é apenas um dia – que pode ser o dia que venho esperando desde que perdi Ed.
– Certo, vamos – digo, inspirando profundamente e colando um sorriso no rosto enquanto nós três começamos a curta caminhada até nosso bar. À medida que atravessamos a porta de vaivém, fico surpresa pela pontada de nostalgia. Faz muito tempo desde que estive aqui e as lembranças vêm à tona. Imagino Ed na mesa de bilhar, linhas profundas se formando na testa enquanto ele se concentra para encaçapar a bola preta, meio bêbado, um copo de cerveja equilibrando-se na borda da mesa. Lembro-me de Jane ficar tão embriagada que caiu da cadeira e tirou uma soneca no canto do bar. Quase posso ouvir a canção “No Rain”, da banda Blind Melon, na jukebox que costumávamos usar, enfiando infinitas moedas para ouvir nossas músicas favoritas. E, apesar do ridículo absoluto da situação e da apreensão pelo que está por vir, um entusiasmo súbito toma conta de mim quando me sento à mesa para passar a tarde com essas pessoas – meus amigos mais antigos, que acabei de conhecer.

Três horas mais tarde, estamos de volta à casa. Simon já chegou e, depois de uma rápida apresentação, começamos a resolver a questão dos armários da cozinha enquanto dividimos uma garrafa de vinho barato que compramos a caminho de casa. Tem gosto de querosene, mas está aplacando um pouco minha ansiedade.
Lá fora já começou a escurecer e eu sei o que isso significa. Ed estará aqui em breve. Sinto o nó em meu peito apertar. Ainda não aceitei completamente o fato de que nunca mais verei Ed. Entretanto, em algum lugar no fundo de minha alma, sei que é verdade e morro de medo, pois percebo que seu rosto já está começando a ficar embaçado em minha memória, por mais que eu tente desesperadamente mantê-lo lá. Posso ver o contorno de seu rosto, quase traçá-lo com a ponta dos dedos, mas não consigo mais definir o desenho de seus olhos, o formato de seu nariz, o arco dos seus lábios, e isso tem me deixado louca.
Não sei se vou aguentar estar na frente de todas essas pessoas quando o vir de novo. Como olhar para ele sem estender a mão para tocá-lo ou, pior ainda, sem me jogar em seus braços? Como posso me conter?
Os ponteiros do relógio de plástico barato em cima da pia movem-se de maneira ininterrupta; a torneira pinga, pinga, pinga sob a luz branca da cozinha. Minhas mãos começam a suar e minha mente fica confusa. Vozes murmuram na periferia da minha mente, mas estou bloqueando tudo, concentrada no ar que entra e sai de meus pulmões, na subida e descida do meu peito, no constante e insistente bater do meu coração. Eu só quero que a espera acabe logo.
E então, como que em resposta às minhas preces, ouço baterem na porta com força e, antes que alguém tenha a chance de ir até lá, a porta da cozinha se abre e ali está Ed, um sorriso enorme iluminando seu lindo rosto.
O sangue corre para a minha cabeça e eu acho que vou desmaiar no mesmo instante. Ao meu redor há uma onda frenética de atividade quando todos se levantam para cumprimentá-lo, mas eu permaneço imóvel, os olhos virados para um ponto ao lado da cabeça dele, com muito medo de encarar Ed.
Mas tenho que fitá-lo e, quando forço meus olhos, sinto como se tivesse levado um soco no estômago. Oh, Deus. É ele, ele está realmente aqui.

Eu me levanto e me movo lentamente para trás da cadeira, segurando-a com força, na esperança de que possa me sustentar. Então o encaro outra vez, tentando absorver cada centímetro de sua presença. Seu cabelo escuro está caído sobre os olhos azuis brilhantes e ele fica tentando afastá-lo com a mão, um gesto tão familiar que chega a doer. Ele parece tão jovem... Não posso acreditar que, quando nos vimos pela primeira vez na vida real, eu não tenha me apaixonado nem um pouco por ele.
Agora sinto como se meu coração tivesse sido arrancado e estivesse pendurado na frente de todos, exposto diante de meus amigos. Estou apaixonada por esse homem, meu coração está partido porque ele se foi, e eu sei que esta pode ser minha única chance de vê-lo outra vez. No entanto, não posso dizer a ele como me sinto.
Pelo menos não com palavras. Mas por certo ele saberá. No instante em que olhar nos meus olhos, com certeza ele vai ver tudo o que compartilhamos desde este momento. É impossível que ele não perceba o vínculo que nos une. Preciso fazer com que este momento fique marcado, pois pode ser minha única chance.
Então respiro fundo, seco a mão no vestido e a estendo, dando um passo à frente, tentando fazer com que pare de tremer.
– Zoe. Muito prazer em conhecê-lo.
Quando ele toma minha mão na dele, tudo ao meu redor explode.
– Muito prazer em conhecê-la também – diz, o timbre profundo de sua voz vibrando direto em meu coração.
Eu seguro a mão dele por um segundo a mais que o necessário e sinto o calor fluindo para a minha pele. Ele também sente, tenho certeza, e olho no fundo de seus olhos. Mas o encanto é quebrado por outra batida e ele gentilmente puxa a mão e se vira na direção de um rosto que está espiando pela porta.
O rosto de Ed se ilumina e ele envolve com seu braço protetor os ombros da recém-chegada, puxando-a para si, os olhos cheios de amor. Ela é alta e graciosa, tem cabelos curtos elegantes e seus olhos estão cheios de afeto. É claro que ela adora Ed e que o sentimento é mútuo. 
– Pessoal, esta é mamãe. Mãe, esse é o pessoal.
Ele abre os braços de forma majestosa por todo o ambiente e todos nós murmuramos nossos cumprimentos. Mas eu só consigo pensar no dia em  que fiquei de pé ao lado de Susan no funeral de Ed, observando as cortinas serem fechadas em volta do caixão, nós duas abraçadas, unidas pelo luto.
– Mamãe quis ter certeza de que cheguei aqui sem me perder, não foi, mãe?
Susan baixa a cabeça e abre um sorriso de desculpas.
– Sim, sinto muito por ser uma mãe constrangedora, mas vocês sabem como é: preciso ter certeza de que meu menininho está bem.
Ela sorri e Ed resmunga, mas eu sei que no fundo ele está feliz por ela estar aqui. Neste momento de sua vida, ela é a única mulher do mundo que ele ama.
– Mas ela não vai ficar por muito tempo, vai, mãe?
– Não, não se preocupe, não vou tirar sua liberdade. – Ela dá uma espiada na garrafa de vinho sobre a mesa. – E não sei se meu estômago é forte o suficiente para beber aquilo ali. Ed revira os olhos e ela sorri, o mesmo sorriso travesso que ele dá quando acha que está sendo engraçado.
– Desculpe, é melhor eu ir embora antes que ele me mate.
Susan coloca a bolsa no ombro e vai dar um beijo em Ed, o que faz meu estômago se contrair de inveja. Eu daria tudo para beijá-lo agora. Mas estou aprendendo. Só preciso esperar.
– Muito prazer em conhecer vocês – diz Susan, e então os dois deixam a cozinha e ele a acompanha até a porta. Luto para meu coração desacelerar enquanto a conversa em torno de mim volta ao normal. Para eles é apenas mais um dia, ainda que emocionante e cheio de novos conhecidos. O que pensariam se soubessem o que estou enfrentando?
– Você está bem? Está pálida.
O rosto de Jane se contrai de preocupação enquanto ela traga com força o cigarro. Eu sorrio debilmente, afastando a fumaça para longe do meu rosto.
– Estou bem. Só um pouco bêbada, acho.
– Ha ha! Nós mal começamos. Você precisa ganhar mais resistência, menina!
Segurando o cigarro na boca, ela vai até a pia, lava uma caneca, enche-a com água e leva-a de volta à mesa. 

– Aqui, beba isto.
Pego a caneca, torcendo para que ela não perceba minha mão tremendo, e bebo tudo de um só gole.
– Está melhor?
Faço que sim.
– Obrigada.
– Boa. Então, mais vinho.
Ela derrama mais um pouco da bebida vagabunda e quente em meu copo e sorri. Ed volta, remexendo em sua mochila. Eu o observo, sabendo o que ele vai tirar dali, e em seguida surge uma garrafa de vodca.
– Muito bem, alguém quer uma bebida decente?
Um “Sim!” em uníssono é a resposta, e eu dou um suspiro. Quero fazer com que este momento fique marcado e, se estiver bêbada, não vou me lembrar de nada. Mas também não quero parecer uma desmancha-prazeres no dia em que essas pessoas me conhecem. Os copos são enchidos – não há gelo, mas alguém encontrou uma garrafa de Coca diet – e vão sendo distribuídos. Pego um deles e o levo aos lábios, observando os rostos dos meus amigos ao redor da mesa, tentando não fitar o homem que eu amo mais do que qualquer outro no mundo.
– Saúde – diz Ed.
Ele levanta o copo e me encara. Sinto como se seus olhos estivessem olhando dentro de mim – não apenas para mim – e meu rosto queima. Levanto o copo e toco no dele e finalmente ele desvia o olhar. Meu coração bate tão rápido que parece que vou voar da cadeira.
O resto da noite passa como uma névoa de bebida, gargalhadas e conversas até a madrugada, quando por fim chega a hora de dormir. Eu não quero ir para a cama. Não tenho ideia do que vai acontecer amanhã, se voltarei a ver Ed ou se isso só vai acontecer uma vez, e realmente não quero ir dormir, só para garantir. Mas estou cansada e bêbada e sei que não tenho escolha. Mesmo que fique mais um pouco acordada, este dia não pode durar para sempre.
– Boa noite – diz Ed quando chegamos ao topo da escada.
– Boa noite, querido.
– Opa, não tão depressa.

Eu tremo e escondo minhas bochechas vermelhas com o cabelo.
– Desculpe, estou um pouco bêbada. Boa noite, Edward Williams. Foi um enorme prazer conhecê-lo.
Levanto a mão e ele a segura, sacudindo-a gentilmente. Seu toque me
faz tremer.
– Foi um prazer absoluto conhecê-la também, Zoe Morgan.
Então ele solta a minha mão, fecha a porta atrás de si e se vai. "

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