segunda-feira, 10 de julho de 2017

Primeiro capítulo do livro Em busca de Abrigo de Jojo Moyes

Oi Gente!!!


Eu amo os livros da Jojo Moyes e eu não resisti quando vi este lançamento, então resolvi postar um capítulo do livro para vocês degustarem. Um romance, onde colocara a prova o amor de uma jovem e um soldado separados pela distância e ainda sendo fiéis aos seus sentimentos provando que o amor pode resistir a distância. Abaixo o primeiro capítulo do livro.

Foto: Capa livro Em busca de um abrigo


"PRÓLOGO

O Arcebispo beijará a mão direita da rainha, depois o Duque de Edimburgo subirá os degraus até o Trono e, após tirar a coroa, ficará de joelhos diante de Sua Majestade e, colocando as mãos entre as da rainha, dirá em tributo: Eu, Philip, Duque de Edimburgo, torno-me vosso vassalo, empenhando vida, saúde e devoção terrena; fé e confi ança depositarei em vós e estarei disposto a viver e morrer para vos defender.
Com a ajuda de Deus.
Ficando de pé, então, deixará a Coroa na cabeça de Sua Majestade e a beijará na bochecha esquerda.
Da mesma maneira, o Duque de Gloucester e o Duque de Kent, individualmente, prestarão homenagens.

TRECHO EXTRAÍDO DO PROTOCOLO
DA CERIMÔNIA DE COROAÇÃO, 1953

Deve ter sido difícil, pensou Joy mais tarde, conhecer o futuro marido em um dia que devia ser da princesa Elizabeth. Ou rainha Elizabeth II, como fi caria conhecida de forma mais imponente ao final da cerimônia. Ainda assim, considerando a relevância da ocasião para as duas, foi bastante complicado (ao menos para Joy) ficar tão animada quanto deveria.
Com o céu no porto de Hong Kong cinzento e carregado, e o ar, úmido, o dia anunciava uma chuva torrencial, não um compromisso divino. Caminhando lentamente pelo Mirante com Stella, agarrada a uma pasta de partituras molhadas, com as axilas suadas e escorregadias feito manteiga derretida e a blusa colada às costas como glacê grudado no bolo, Joy não sentia propriamente um fervor monarquista ao pensar na festa de coroação dos Brougham Scott.

Em casa, a mãe já estava agitada e tensa, cheia de expectativa e insatisfação, em boa parte devido à presença do marido, que havia retornado de uma de suas viagens à China. Essas visitas sempre pareciam coincidir com uma piora brusca no humor de Alice, sepultando num fosso feio e escuro suas pretensões de uma vida melhor em outro lugar.
— Você não vai usar isso — disse a mãe, franzindo a testa, a boca contraída num muxoxo vermelho de desaprovação.
Joy olhou para a porta, desesperada para encontrar Stella e evitar a companhia dos pais no caminho até a mansão dos Brougham Scott. Tinha contado uma mentirinha ao explicar que os anfitriões haviam pedido que ela levasse antes as partituras. A presença dos pais, ainda que durante caminhadas, a deixava mareada.
— Você está tão sem graça, querida. E de salto alto… Assim vai ficar mais alta que todo mundo.
A palavra “querida” era um recurso familiar que Alice usava para amenizar um comentário desagradável.
— Vou ficar sentada.
— Não pode passar a noite toda sentada.
— Vou dobrar os joelhos, então.
— Devia colocar um cinto mais largo, para parecer mais baixa.
— E esmagar minhas costelas.
— Não sei por que você precisa ser tão difícil. Só estou tentando ajudá-la a ficar bonita. Já que você não tenta.
— Ai, mãe, eu não me importo. Ninguém vai dar a mínima. Até parece que alguém vai prestar atenção em mim. Todo mundo vai estar ouvindo os votos da princesa, ou seja lá o que ela for fazer.
Me deixe em paz, desejou Joy. Já bastava ter que aturar o humor corrosivo de Alice durante toda a festa.
— Bom, eu me importo. As pessoas vão pensar que eu criei você para não se preocupar com a aparência.
O Que As Pessoas Vão Pensar era muito importante para Alice. Hong Kong é um aquário de peixes dourados, dizia ela. Sempre havia alguém olhando para você, falando de você. Eles devem viver em um mundinho bem chato, então, Joy tinha vontade de retrucar. Mas não falava isso, sobretudo porque era verdade.

E ainda tinha seu pai, que, sem dúvida, iria beber demais e beijar todas as mulheres na boca, em vez de no rosto, fazendo com que elas olhassem de um lado a outro, desconfortáveis, sem saber se, de alguma forma, o teriam instigado a agir assim. Um pouco menos contido, mais tarde gritaria com Alice. Que tipo de mulher negaria um pouco de diversão ao marido, depois de semanas de trabalho
exaustivo na China (e todo mundo sabe como é horrível lidar com os orientais)?
Ele nunca mais foi o mesmo depois da invasão japonesa. Mas o casal não comentava esse assunto.
E também havia os Brougham Scott. E os Marchant. E os Dickinson. E os Alleyne. E todos os outros casais da elite, que moravam logo abaixo do Mirante, mas não da Robinson Road (nessa época, os níveis intermediários fi cavam com a classe trabalhadora), e se encontravam em todos os coquetéis no Clube de Críquete de Hong Kong e nas corridas no Hipódromo Happy Valley, assim como desfrutavam da companhia uns dos outros em viagens de barco movidas a xerez por ilhas remotas, queixando-se das dificuldades para conseguir leite, dos mosquitos, do preço dos imóveis e da estupidez impressionante dos criados chineses.

E falavam da Inglaterra, da saudade que sentiam de lá, dos visitantes ingleses, do quanto suas vidas eram sem graça e entediantes e de como a Inglaterra parecia insípida, por mais que a guerra já tivesse acabado anos atrás. Porém, acima de tudo falavam uns dos outros. Os militares usavam uma linguagem própria, com piadas internas e humor típico de quartel, enquanto os comerciantes discutiam e rebaixavam o desempenho dos concorrentes, e suas esposas se agrupavam e reagrupavam em intermináveis interações entediantes e tóxicas.
O pior era William, que ia a todas as reuniões sociais. Ele tinha o queixo recuado e cabelo louro, tão frágil e ralo quanto a própria voz estridente, as mãos pegajosas tocavam suas costas para empurrá-la a lugares aonde ela não queria ir. Enquanto fingia escutar, só por educação, Joy observava de cima o topo da cabeça dele, imaginando onde mais o cabelo iria rarear.
— Você acha que ela está nervosa? — perguntou Stella.
O cabelo dela, tão brilhante quanto verniz molhado, estava preso num coque. Não havia nenhum fi o solto para ficar arrepiado no ar úmido, ao contrário do cabelo de Joy, que travava uma batalha caótica para se libertar minutos depois de ter sido preso. Bei-Lin, sua amah, franzia a testa e resmungava sempre que via Joy prendê-lo, como se a garota fi zesse isso por causa de alguma rebeldia deliberada.
— Quem?
— A princesa. Eu estaria. Imagine só todas aquelas pessoas olhando.
Ao longo das últimas semanas, Stella, vestida de forma deslumbrante para a ocasião de saia vermelha, blusa branca e cardigã azul, havia demonstrado o que Joy considerava um interesse pouco saudável pela princesa Elizabeth, especulando sobre a escolha das joias, das roupas, sobre o peso da coroa e até mesmo se o novo marido sentiria ciúmes do título dela, considerando que ele não se tornaria rei. Joy começava a desconfiar que a amiga passara a se identificar com a soberana de forma nada apropriada para uma súdita.
— Bom, nem todos vão vê-la. Várias pessoas, como nós, vão só ouvi-la pelo rádio.
As duas se afastaram para deixar um carro passar, dando uma olhada para verificar se era algum conhecido.
— Mesmo assim, ela pode se enrolar com o discurso. Eu me enrolaria. Com certeza eu iria gaguejar.

Joy duvidava disso, pois Stella era o exemplo perfeito de tudo o que uma moça de família deveria ser. Ao contrário de Joy, a amiga tinha a altura certa para uma moça da sociedade e sempre usava roupas elegantes que seu alfaiate, Tsim Sha Tsui, criava de acordo com a última moda de Paris. Jamais tropeçava, fechava a cara na companhia de outras pessoas nem fi cava sem assunto ao conversar com
a interminável fi la de oficiais que, em licença, eram convidados para as “recepções” a fim de não pensarem na ida iminente para a guerra da Coreia. Muitas vezes Joy pensava que a imagem pública de Stella poderia ficar um pouco maculada se o seu talento para arrotar o alfabeto inteiro fosse tão visível quanto suas qualidades.
— Você acha que vamos ter que ficar até o fim?
— Até acabar a cerimônia? — Joy suspirou, chutando uma pedra. — Aposto que vai levar horas e horas e todos vão ficar bêbados e comentar sobre os outros. Minha mãe vai flertar com Duncan Alleyne e ficar repetindo que William Farquharson tem parentesco por afinidade com os Jardines e um futuro apropriado para uma garota do meu nível.
— Eu diria que ele é meio baixinho para uma garota do seu nível. Stella também tinha senso de humor.
— Por isso mesmo coloquei salto alto.
— Ah, Joy, fala a verdade. É muito emocionante! Vamos ganhar uma rainha nova.
Joy deu de ombros.
— Por que eu deveria me animar? Nem moramos no mesmo lugar que ela.
— Porque é nossa rainha. Tem quase a mesma idade que a gente. Imagine só isso! E é a maior festa que temos em anos. Todo mundo vai estar lá.
— Mas são as mesmas pessoas. Não tem graça ir a festas se são sempre as mesmas pessoas que estão lá.
— Ai, Joy, você gosta mesmo de sofrer. Tem um monte de gente nova, mas você não fala com elas.
— Não tenho nada para falar. Só estão interessadas em compras, roupas e em quem está desonrando quem.
— Como é que é? — retrucou Stella, com insolência. — E o que mais falta?
— Não estou falando de você, mas você entendeu. A vida precisa ser mais
que isso. Você nunca quis ir aos Estados Unidos? Ou à Inglaterra? Viajar pelo mundo?
— Já viajei. Conheço vários lugares. O pai dela era comandante da Marinha.
— Francamente, acho que as pessoas se interessam pelas mesmas coisas em todos os lugares. Quando moramos em Singapura, era um coquetel atrás do outro. Até minha mãe ficou entediada — disse Stella. 
— Enfim, nem sempre são as mesmas pessoas. Tem os oficiais. Hoje terão muitos, inclusive. E garanto que você não conhece todos.
Havia muitos oficiais. O terraço amplo dos Brougham Scott, que tinha vista para o porto de Hong Kong nos raros momentos em que a névoa no Mirante se dissipava, parecia um mar de uniformes brancos. Na casa, sob ventiladores zumbindo feito hélices gigantescas, os criados chineses, também vestidos de branco, se moviam silenciosamente com os sapatos macios, servindo bebidas geladas em bandejas de prata. O murmúrio de vozes aumentava e baixava, competindo com a música, que parecia abafada pelo calor denso e úmido. As bandeiras do Império Britânico penduradas em linhas presas ao teto pareciam roupas molhadas estendidas no varal, que quase não se mexiam apesar da brisa artificial.
Pálida, provocante e igualmente sem ânimo, Elvine Brougham Scott estava recostada numa chaise-longue de tecido adamascado no canto da sala de estar de mármore, cercada, como de costume, por vários oficiais prestativos. Usava uma blusa de seda cor de ameixa com decote de coração e uma saia longa rodada que caía em camadas em torno de suas pernas compridas e brancas (não havia marcas de suor nas axilas dela, observou Joy, fechando os braços com força).
Um dos sapatos — com pele de arminho artificial — já fora chutado para o chão, revelando as unhas vermelhas. Joy sabia o que a mãe diria quando a visse, engolindo em seco a própria frustração por não ser como Barbara Stanwyck para usá--lo. Batom Scarlet Woman era o mais próximo de vampiresco que Alice se permitia, embora não fosse por falta de vontade.

Joy e Stella entregaram as partituras e cumprimentaram com a cabeça, sabendo que a Sra. Brougham Scott não gostaria de ser interrompida.
— Como vamos ouvir a cerimônia? — indagou Stella, ansiosa, olhando de um lado para outro à procura do rádio. — Como vão saber que começou?
— Não se preocupe, meu bem, ainda faltam horas — respondeu Duncan
Alleyne, baixando a cabeça ao passar para consultar o relógio. 
— Não se esqueça de que são oito horas a menos na Inglaterra.
Duncan Alleyne sempre falava como o herói da Força Aérea Real num filme de guerra. As meninas achavam engraçado, mas Alice, para infelicidade de Joy, parecia achar que isso a transformava em Celia Johnson, a protagonista desses filmes.
— Sabia que ela precisa aceitar “os oráculos vivos de Deus”? — perguntou Stella, alegre.
— O quê?
— A princesa Elizabeth. Na cerimônia. Ela precisa aceitar os “oráculos vivos de Deus”. Não faço ideia do que sejam. Ah, e ela tem quatro Cavaleiros da Ordem da Jarreteira a seu dispor. Você acha que eles realmente tomam conta das ligas reais? Afinal, ela tem uma estilista real. Betty Warner me contou.
Joy ficou observando o olhar perdido de Stella. Por que ela não estava animada?
Por que a perspectiva do evento daquela noite a apavorava?
— E adivinha o que mais? O seio dela é ungido com óleo sagrado. O seio de verdade. Eu queria que não fosse pelo rádio, para a gente ver se o Arcebispo chega a tocar nele.
— Oi, Joy. Nossa, você está… está… Parece que com um pouco de calor, na verdade. Precisou vir a pé?
Era William, que corou com o próprio comentário e estendeu a mão frouxa numa tentativa nada convincente de cumprimento.
— Desculpe, eu não quis dizer… Eu quis dizer que vim a pé. Também.
E estou encharcado. Muito mais suado que você. Olhe só. Joy se apressou para pegar uma bebida cor-de-rosa numa bandeja que passava e tomou um gole generoso. A princesa Elizabeth não seria a única a entregar a vida pelo país naquele dia.
Houve um bom número de bebidas cor-de-rosa ao longo das horas que antecederam a coroação. Joy, que costumava ficar desidratada no clima úmido, descobriu que os drinques desciam com muita facilidade. Não tinham gosto de álcool, e a mãe estava prestando atenção em outra coisa, dividida entre o sorriso de Duncan Alleyne, igual ao do bonequinho Toby Jug, e a raiva que sentia da diversão
do marido. 

Por isso Joy ficou surpresa quando viu o rosto da princesa Elizabeth se multiplicar de repente no alto da parede da sala de jantar e passar a impressão de rir com cumplicidade de suas tentativas de andar em linha reta. Ao longo de várias horas, o barulho da festa foi aumentando aos poucos, preenchendo o primeiro andar da mansão, e as vozes dos convidados soavam pastosas e estridentes devido à quantidade abundante de bebida. Joy foi ficando cada vez mais introvertida, pois não tinha a habilidade de falar sobre os assuntos que eventos como aquele demandavam. Pelo visto, seu único talento era afastar as pessoas e não cativá-las. 

Finalmente livrou-se de William dizendo que tinha certeza de que o Sr. Amery queria discutir negócios com ele. Stella sumiu, engolida por um círculo de oficiais da Marinha encantados por ela. Rachel e Jeannie, as outras duas moças da sua idade, estavam sentadas em um canto junto dos namorados gêmeos com creme modelador no cabelo. Livre da reprovação — até mesmo da atenção — dos pares, Joy se tornou uma grande amiga dos drinques cor-de-rosa. Percebendo que seu copo esvaziara de novo, ela olhou ao redor em busca de outro criado. Parecia que todos haviam sumido… Ou talvez ela tivesse dificuldade de distingui-los dos convidados. Deviam ter vestido os criados com paletós que estampassem a bandeira britânica, concluiu, rindo sozinha. Paletó bandeiras. Ou coroas pequenininhas.
Joy percebeu vagamente o barulho de um gongo e a voz de tenor do Sr. Brougham Scott tentando reunir os convidados em torno do rádio. Apoiando-se por um instante numa coluna, ela esperou que as pessoas à sua frente se movessem. Quando isso acontecesse, poderia ir para o terraço e sentir a brisa. Porém, no momento, os corpos não paravam de balançar e se fundir, formando uma muralha intransponível.
— Meu Deus — murmurou Joy. — Preciso de ar.
Achou que essas palavras haviam sido ditas apenas em pensamento, mas de repente sentiu a mão de alguém em seu braço e ouviu um murmúrio:
— Vamos lá para fora, então.
Para sua surpresa, Joy percebeu que precisava olhar para cima (raramente era necessário, por ser mais alta do que quase todos os chineses e a maioria dos homens na festa). Conseguiu apenas discernir dois rostos compridos e sérios observando-a, oscilando acima de dois colarinhos brancos apertados.
Um oficial da Marinha. Ou dois. Não dava para ter certeza. De todo jeito, um deles segurava seu braço e a empurrava com delicadeza pela multidão, seguindo para a varanda.
— Quer se sentar? Respire fundo. Vou pegar um copo d’água para você. Depois de acomodá-la numa cadeira de vime, ele desapareceu.
Joy inspirou ar puro. Estava escurecendo, e a neblina encobria o Mirante, isolando a mansão do restante da ilha de Hong Kong. O único indício de que ela não estava sozinha era o som distante e desagradável das sirenes das barcaças passando pelas águas lá embaixo, o sussurro das árvores e o leve aroma de alho e gengibre no ar parado.
Esse cheiro foi a gota d’água para ela.
— Ai, meu Deus — resmungou Joy. — Ah, não…
Olhando para trás, notou com alívio que os últimos convidados já haviam entrado na sala onde estava o rádio. Então se inclinou, se apoiando no parapeito da varanda, e vomitou ruidosa e abundantemente.
Quando se sentou, com o peito arfando e o cabelo suado grudado na testa, abriu os olhos e viu à sua frente o oficial da Marinha lhe estendendo um copo de água gelada. Ela não disse nada. Só conseguiu encará-lo num terror mudo, antes de baixar o rosto, corado de vergonha, em direção ao copo. Torceu para que, de repente sóbria e constrangida, tornasse a olhar e ele não estivesse mais ali.
— Você quer um lenço?
Joy continuou de cabeça baixa, olhando, pesarosa, para o sapato alto demais.
Alguma coisa não identificada estava entalada em sua garganta, recusando-se a descer apesar de suas inúmeras tentativas de engoli-la.
— Olhe. Aqui. Pode ficar.
— Por favor, vá embora.
— Como assim?
— Eu pedi para você ir embora, por favor.
Caramba, se ela não saísse logo dali, sua mãe iria procurá-la e então seria um caos. Já dava para adivinhar os próximos capítulos: 1. Ela Não Tinha Competência Para Ir A Lugar Algum; 2. O Comportamento Vergonhoso Dela, ou Por Que Não É Como Stella?; 3. O Que As Pessoas Vão Pensar?
— Por favor, vá embora. Por favor.
Ela sabia que estava sendo grosseira, mas o pavor de um possível flagrante, assim como a possibilidade de ficar presa ali, obrigada a manter uma conversa educada enquanto sabe-se-lá-o-que talvez tivesse respingado na sua blusa — no seu rosto —, tornava sua atitude menos grave.

Houve uma longa pausa. O som de exclamações ruidosas e superpostas vinha da sala de jantar, algumas vezes mais alto, outras mais baixo.
— Acho que não. Acho melhor alguém lhe fazer companhia por um tempo.
Não era uma voz jovem, não tinha o tom excessivamente alto usado pela maioria dos oficiais, embora também não lembrasse o basso profundo proveniente de um longo convívio com o poder. Sua patente não devia ser superior à de um oficial.
Por que ele não vai embora?, pensou Joy.
Mas o sujeito continuava ali. Ela notou que tinha uma pequena mancha laranja na perna esquerda da sua calça imaculada.
— Olhe, estou muito melhor agora, obrigada. E eu realmente preferia que você me deixasse sozinha. Acho que vou para casa.
Sua mãe fi caria furiosa, mas ela poderia dizer que passara mal. Não seria exatamente uma mentira. Só aquele homem sabia a verdade.
— Deixe-me acompanhá-la — disse ele.
Mais uma vez as vozes aumentaram lá dentro, bem como gargalhadas estridentes e um pouco histéricas. Um disco de jazz começou a tocar e parou de forma igualmente abrupta.
— Por favor — insistiu o rapaz —, me dê a mão. Eu ajudo você a se levantar.
— Será que pode me deixar em paz?
Dessa vez, o tom pareceu grosseiro até mesmo para os ouvidos de Joy. Houve um breve silêncio e, após uma pausa interminável de tirar o fôlego, ela ouviu o barulho dos passos dele se afastando até a sala.

Joy estava desesperada demais para se sentir envergonhada. Levantando-se e tomando um grande gole de água gelada, ela seguiu a passos rápidos, ainda que meio cambaleantes, para dentro da casa. Com um pouco de sorte, avisaria aos criados e fugiria, enquanto os convidados estivessem ouvindo a transmissão.
No entanto, ao passar pela porta da sala, Joy viu todas as pessoas irem para a varanda. Stella, chorosa e com um olhar decepcionado, estava no primeiro grupo.
— Ai, Joy, dá para acreditar?
— O que foi? — indagou, pensando numa forma de passar pela amiga o mais depressa possível.
— Aquela porcaria de rádio. Foi quebrar logo hoje. Não acredito que só tem um nesta casa. Todo mundo sempre tem mais de um.
— Não precisa se desesperar, Stella, querida — interveio Duncan Alleyne, mexendo no bigode com uma das mãos, enquanto apoiava a outra no ombro de Stella, um pouco além da conta para seu declarado interesse paternal. 
— Logo alguém vai pegar outro na casa do vizinho. Você não vai perder quase nada.
— Mas vamos perder todo o início. E nunca mais teremos chance de ouvir.
Provavelmente não vai ter outra coroação enquanto estivermos vivos. Ai, não consigo acreditar.
Stella começou a chorar de verdade, sem se preocupar com os convidados, sendo que alguns certamente consideravam a cerimônia de sagração dos reis uma interrupção irritante em uma ótima festa.
— Stella, preciso ir — sussurrou Joy. — Desculpe. Estou passando mal.
— Mas você não pode ir embora! Fique pelo menos até trazerem o rádio.
— A gente se fala amanhã.
Vendo que seus pais continuavam no grupo sentado em torno do rádio mudo, Joy saiu correndo para a porta. Assentindo em sinal de agradecimento ao criado que a deixou sair, seguiu sozinha pelo ar úmido da noite, tendo como companhia apenas os enxames de mosquitos e um pequeno arrependimento pela forma como tratara o homem que deixara para trás.
Os expatriados de Hong Kong estavam acostumados a viver bem, com coquetéis e jantares quase todas as noites, portanto não era raro ter poucos gweilos na rua de manhã cedo. Mas Joy, que acordara sem qualquer vestígio de ressaca apesar do infeliz acidente com os drinques cor-de-rosa, se viu na situação incomum de estar sozinha.
Era como se o Mirante inteiro estivesse de ressaca. Enquanto chineses e chinesas caminhavam tranquilamente, alguns carregando cestas pesadas ou arrastando carroças de lixo, não havia um único europeu à vista. Nas fachadas das casas pintadas de branco, afastadas da rua, pendiam fi leiras de bandeirolas coloridas que pareciam pedir desculpas, e fotos da princesa sorridente eram exibidas nos parapeitos, tudo com aparência exausta devido aos excessos da noite anterior.

Andando nas pontas dos pés pelo apartamento, ela e Bei-Lin se comunicavam aos sussurros, afinal nenhuma das duas queria acordar Alice e Graham, cuja briga feia se estendera madrugada adentro. Joy concluiu que a única coisa a fazer era ir à parte nova da cidade para cavalgar. Todos estariam com dor de cabeça e mau humor, e o calor úmido, mais forte do que nunca, piorava a ressaca, garantindo
que passariam o dia com um torpor impaciente e esticados em sofás macios sob ventiladores de teto. Aquele não era um bom dia para ficar na cidade.
O problema de Joy era que naquela manhã em particular não havia ninguém para tirá-la de lá.
Tinha passado na casa de Stella por volta das dez horas, mas encontrou as cortinas fechadas e não quis tocar a campainha. O próprio pai, com quem em geral podia contar para levar sua princesa a qualquer lugar de carro, dificilmente acordaria antes do meio-dia. E ela não se sentia confortável em pedir a mais ninguém. Sentada numa cadeira de vime junto à janela, Joy cogitava a possibilidade de pegar um bonde até o centro da cidade e depois um trem, mas nunca tinha feito isso sozinha, e Bei-Lin se recusava a acompanhá-la, sabendo que a patroa fi caria ainda mais mal-humorada se acordasse e descobrisse que a empregada tinha saído para um “passeio”.
— Deus salve essa maldita rainha — resmungou Joy ao receber a recusa.

Não foi a primeira vez que ela se sentiu rebelde diante das restrições da própria vida, tanto geográficas quanto físicas. Quando ela e a mãe moraram na Austrália, pouco depois de os japoneses invadirem Hong Kong e as mulheres e crianças deixarem a colônia, Joy aproveitara uma liberdade inédita. Haviam fi cado com a irmã de Alice, Marcelle, cuja casa de praia parecia estar sempre de portas abertas para deixar Joy sair e uma variedade de vizinhos alegres e descontraídos, se comparados aos de Hong-Kong, entrar. Alice também se sentira à vontade lá, desabrochara no calor seco daquele lugar onde todos falavam sua língua e os homens, altos e morenos, flertavam descaradamente.
Os modos de Alice atingiram o auge da sofisticação. Suas roupas ultrapassavam tudo o que já havia sido visto, e ela podia ter a aparência que sempre quisera: chique, cosmopolita e exótica por causa do exílio. Por outro lado, Marcelle era mais nova e reverenciava de bom grado o gosto e o estilo da irmã.
Essa grande noção de boa vontade fazia Alice se sentir muito menos “incomodada”com Joy do que de costume, de modo a despachá-la para a praia ou para o shopping sem pensar duas vezes, ao contrário do que acontecia em Hong Kong, onde passava o tempo todo preocupada demais com as falhas na aparência da filha em seus modos, e também com os possíveis perigos num país não civilizado, para deixá-la sair sozinha.
— Odeio minha vida — disse Joy em voz alta, permitindo que seus pensamentos fluíssem e pairassem no ar, feito nuvens carregadas.
— Senhorita?
Era Bei-Lin, de pé à porta.
— Tem um cavalheiro querendo vê-la.
— Ver minha mãe?
— Não. Ele perguntou pela senhorita — respondeu Bei-Lin, com um sorriso significativo.
— Pode pedir para ele entrar.
Franzindo a testa, Joy ajeitou o cabelo e se levantou. Uma visita era a última coisa que ela queria.
A porta se abriu e entrou um homem que ela nunca tinha visto, vestindo uma camisa branca de manga curta e uma calça creme. O cabelo, bem cortado, era avermelhado, e ele tinha um rosto comprido e aristocrático e olhos azul-claros.
Também era alto e se curvava sem necessidade, talvez por hábito. Da Marinha, pensou Joy, sem muito interesse. Eles sempre se abaixam ao passar pelas portas.
— Srta. Leonard — disse o homem, que apertava com as mãos um chapéu de palha na frente do corpo.
Joy estava inexpressiva. Não fazia ideia de como ele sabia seu nome.
— Edward Ballantyne. Peço desculpas se isso for uma intrusão. Eu só queria… Pensei em ver como você estava.
Joy observou o rosto dele e corou de repente quando, para sua surpresa, o reconheceu. Só vira aquele rosto uma vez. Em duplicata. Levou, sem querer, a mão à boca.
— Tomei a liberdade de perguntar seu nome e endereço à sua amiga. Eu só queria ter certeza de que você havia chegado sã e salva em casa. Me senti muito culpado por ter deixado você voltar sozinha.
— Ah, imagine! — retrucou Joy, sem tirar os olhos dos próprios pés. — Eu estava ótima. Você é muito gentil — acrescentou depois de um instante, notando que estava sendo grosseira.
Os dois ficaram imóveis por alguns minutos até Joy perceber que ele não iria embora. Ela estava tão desconfortável a ponto de sentir a pele pinicando. Nunca se sentira tão envergonhada quanto na noite anterior, e então tudo se repetiu, como um sabor forte que insiste em ficar na boca. Por que ele não a deixava em paz? Em paz com a própria humilhação. Bei-Lin espreitava ansiosamente junto à porta, mas Joy a ignorou de propósito, não importava se iria oferecer à visita algo para beber.

— Na verdade, eu estava me perguntando se você gostaria de dar uma caminhada — começou o rapaz. — Ou jogar uma partida de tênis. Nosso comandante nos deu permissão especial para usarmos as quadras de Causeway Bay.
— Não, obrigada.
— Talvez eu pudesse lhe pedir para me mostrar alguma das atrações locais… É minha primeira vez em Hong Kong.
— Sinto muito, mas eu estava de saída — disse Joy, percebendo que ainda não conseguia olhar para ele.
Houve uma longa pausa. Ele definitivamente não tirava os olhos dela. Dava para sentir.
— Algum lugar interessante?
— Como?
Joy sentiu o coração acelerar. Por que ele não ia embora?
— Você disse que estava de saída. Fiquei curioso… Ora, para onde?
— Vou cavalgar.
— Cavalgar?
Ela ergueu os olhos, notando a animação na voz dele.
— Há cavalos por aqui?
— Por aqui, não — respondeu Joy. — Não na ilha, pelo menos. Na parte
nova da cidade. Um amigo do meu pai tem um estábulo lá.
— Você se incomodaria se eu fosse junto? Costumo cavalgar na minha cidade. Sinto muita falta. Na verdade, faz nove meses que não vejo um cavalo.
Ele usou um tom melancólico, como os militares em serviço usavam ao falar de suas famílias. Seu rosto se iluminou, os traços muito sérios se suavizaram e rejuvenesceram. Era preciso admitir que ele era incrivelmente bonito, de um jeito maduro.
Mas ele a tinha fl agrado vomitando na varanda.
— Tenho carro. Posso levar você. Ou apenas acompanhar, se for mais… mais conveniente.
Ela sabia que a mãe fi caria horrorizada quando Bei-Lin contasse que a Srta.
Joy desaparecera num carro com um desconhecido, mas as consequências provavelmente não seriam muito melhores caso ela fi casse o dia todo com Alice, servindo de saco de pancadas verbal para a ressaca da mãe. E havia algo muito atraente na ideia de seguir por estradas tranquilas com aquele homem estranho, alto e sardento, que, em vez de deixá-la desconfortável e sem jeito com as palavras, como acontecia com a maioria dos oficiais, simplesmente falava sem parar sobre seus cavalos na Irlanda (era curioso que não tivesse sotaque irlandês), sobre a vastidão dos campos de caça e, em contraste, o tédio interminável e claustrofóbico do confinamento de um navio, onde ficava preso no mesmo mundinho, com as mesmas pessoas, durante meses e meses a fio.

Ela nunca tinha escutado um homem falar como ele, livre das infinitas observações reticentes que caracterizavam o discurso da maioria dos oficiais com quem ela já conversara. Seu jeito de falar era objetivo e sincero, feito o de alguém que precisara ficar muito tempo sem dizer nada, por isso frases inteiras saíam de uma só vez, como acontece com alguém que se afoga e depois volta a respirar. Além disso, ele pontuava as frases com risadas espontâneas.
De vez em quando, parava, olhava para ela, como que envergonhado da própria falta de reticência, e ficava quieto até que a próxima ideia saísse pela sua boca. Joy percebeu que também estava rindo, com timidez a princípio, mas aos poucos foi se soltando com aquele desconhecido. Quando chegaram ao estábulo, ela irradiava animação e ria de um jeito como nunca rira. Após uma ausência de quarenta minutos, Alice não teria reconhecido a filha. Na verdade, Joy mal se reconhecia, olhando de soslaio para o homem ao lado, desviando o olhar timidamente quando encontrava o dele, comportando-se como… Ora, como Stella.
O Sr. Foghill disse que o deixaria montar. Joy torcia secretamente para isso, e, quando Edward conversou com ele no pátio do estábulo, falando com a mesma reverência dos grandes caçadores que conhecera e concordando com a superioridade evidente das linhagens irlandesas em comparação às inglesas, o viúvo baixinho deixou de lado toda a arrogância inicial e, inclusive, recomendou o próprio cavalo, um jovem animal de pelo marrom e porte altivo imponente, pedindo apenas que Edward desse algumas voltas com ele para checar sua habilidade com os arreios e as rédeas.
Sem dúvida, ficou satisfeito com o que viu, pois logo seguiram cavalgando devagar para o portão e depois saíram na estrada que levava à campina.
A essa altura, Joy não sabia o que estava acontecendo com ela. Notou que não conseguia parar de sorrir e assentir, mas se esforçava para escutar qualquer coisa que Edward dissesse, apesar da pulsação incomum em seus ouvidos. Ficou feliz por conseguir segurar as rédeas e observar o pescoço comprido e cinzento à frente, levantando e baixando a correia de acordo com o ritmo dos cascos no chão, porque não conseguia se concentrar em mais nada. Sentia-se ao mesmo tempo distante de tudo ao redor e muito ciente dos detalhes. Como as mãos dele. As sardas.
E as duas linhas que se formavam nas laterais da boca quando ele sorria. Nem sequer notou quando os mosquitos atacaram seu pescoço, fi cando presos debaixo do coque e se banqueteando com a pele macia e pálida.
O melhor de tudo era que ele sabia montar, e muito bem, sentando-se ereto e à vontade na sela, as mãos se mexendo com delicadeza para a frente e para trás, com o intuito de que as rédeas não batessem na boca do cavalo, e de vez em quando erguendo uma delas para espantar uma mosca inconveniente.
Joy já fora a um estábulo com outro homem de quem gostara, um banqueiro tímido amigo do seu
pai, mas sua leve paixonite se dissipou feito fumaça ao vento quando ela o viu sacolejar no lombo do cavalo, incapaz de disfarçar o medo assim que o animal começou a trotar, ainda que devagar. Quanto a William, ela nunca cogitou levá-lo nem perto de um lugar como aquele. Não havia nada mais eficaz para perder o encanto por um homem do que vê-lo montando.
Naquele momento, porém, Joy se deu conta de como era atraente um homem que sabia montar bem.
— Você já foi à Escócia? — indagou Edward.
— O quê?
— Esses mosquitos são insuportáveis — disse ele, dando um tapa na nuca. — Picam a gente em todos os lugares.
Joy corou e olhou para baixo. Os dois continuaram cavalgando.
O céu escureceu e ficou carregado, portanto Joy não sabia ao certo se era o ar úmido ou o suor que empapava sua roupa e grudava grama e sementes em sua pele. O clima também parecia deixar tudo mais abafado, disfarçando o som das patas dos cavalos como se as envolvesse em flanela, como se agasalhasse os dois com um cobertor quente e úmido. Lá no alto, na encosta da montanha, até os urubus pairavam no ar, parecendo gotas pretas de umidade, como se o próprio movimento demandasse muito esforço, enquanto as folhas que roçavam suas botas deixavam rastros molhados, apesar de não estar chovendo.
Se notou que os pensamentos de Joy se embaralhavam caoticamente, que ela enrubescia o tempo todo e não estava conseguindo falar, ou que seu cavalo, aproveitando a falta de atenção da amazona, se empanturrava de grama, Edward não comentou. Joy ficou mais calma quando os dois passaram a trotar numa trilha perto de um arrozal e, de novo, quando pararam numa barraca na beira da estrada para comprar um pedaço de melancia para ela. A tranquilidade, no entanto, era evidente, pois nessas ocasiões podia observá-lo sem constrangimento.
Então ela percebeu que a fita se soltara do cabelo, que caía em mechas suadas nos ombros. Mas Edward não demonstrou ter notado ao lhe estender o lenço, afastando um cacho do rosto dela.
O toque causou um choque elétrico na pele dela, e essa sensação durou vários minutos.
— Sabe, Joy, eu me diverti muito — disse ele, pensativo, enquanto os dois conduziam os cavalos de volta à estrebaria. — Você não faz ideia do que cavalgar significa para mim.
Joy sabia que em algum momento precisaria falar algo, mas achava que se abrisse a boca talvez dissesse algo inconveniente e inapropriado ou, pior, acabasse revelando o desejo estranho e lancinante que de repente passara a sentir.
Se não dissesse nada, qual seria a pior coisa que ele poderia pensar?

— Não conheço muitas moças que saibam cavalgar. Onde eu moro, as moças são… Como posso dizer? Meio corpulentas. Moças provincianas. Não do tipo que eu levaria para cavalgar. E, nos lugares em que ancoramos, só conheço as que querem ir a coquetéis e se divertir, e não sou muito bom nessas coisas. Já tive uma namorada parecida com você, mas ela… Bom, acabou. E faz anos que não encontro alguém com quem eu possa relaxar de verdade.
Ah, mas Joy queria beijá-lo. Eu sei, eu sei, teve vontade de gritar. Também é como me sinto. Sinto as mesmas coisas que você. No entanto, ela apenas sorriu e balançou a cabeça, olhando-o disfarçadamente por baixo do cabelo úmido, enquanto se censurava por ter se transformado de repente no tipo de garota que sempre desprezou. Não sabia o que desejava em um homem — nunca pensara que a iniciativa do desejo partiria dela — e acabou atraída por ele, não por causa de qualidades específicas, mas devido a uma enorme lista de negativas: a habilidade que Edward tinha de não deixá-la constrangida, o fato de que ele não parecia um saco de batatas montado em um cavalo e também de não olhá-la como se quisesse que ela fosse outra pessoa.
Alguma coisa brotou e cresceu em Joy: algo mais forte que náusea, porém igualmente incapacitante.
— Obrigado. Enfim. Eu me diverti muito. — Ele passou a mão na cabeça, eriçando o cabelo sobre a testa, e desviou o olhar. — E eu sei que, na verdade, você não queria que eu viesse.
Joy o encarou horrorizada, mas dessa vez foi ele quem manteve o olhar fixo à frente. Não conseguiu pensar em uma maneira de demonstrar que ele entendera errado — que havia sido do enjoo que ela tentara fugir, não dele — sem trazer
o assunto de volta à tona, afinal não queria ser lembrada por isso.
Ai, onde estava Stella quando mais precisava dela? A amiga sempre sabia como conversar com
homens. Quando Joy concluiu que uma breve negativa seria a melhor reação, era tarde demais, e os dois já estavam quase no pátio da estrebaria, os cavalos com as cabeças baixas, demonstrando cansaço.
Edward se ofereceu para levar os animais até as baias, e o Sr. Foghill sugeriu que ela se refrescasse no banheiro feminino. Ao ver o próprio reflexo no espelho, Joy se deu conta de que ele havia sido delicado. A aparência dela estava assustadora.
Seu cabelo era uma maçaroca molhada, feito um chumaço no ralo de uma banheira. Quando tentou ajeitá-lo com os dedos, os fios se arrepiaram no alto da cabeça. Seu rosto estava suado e sujo de poeira. Havia manchas verdes na blusa branca, onde o cavalo tentara esfregar a cabeça, deixando marcas de saliva e grama, quando ela desceu da sela. Com força, Joy passou uma toalha úmida na pele, quase chorando por causa da sua incapacidade de se lembrar de levar um pente ou uma fi ta extra. Stella nunca esqueceria uma coisa dessas. Mas, quando ela saiu do banheiro, Edward a recebeu com um grande sorriso, como se não houvesse nada de errado com sua aparência. Então ela percebeu que a calça dele também estava manchada de suor e barro, limpa apenas da panturrilha para baixo,
onde fi cara protegida pelas botas que pegara emprestado com o Sr. Foghill.
— Sua carruagem está aguardando — disse ele, rindo da própria aparência.
— Vai ter que me mostrar o caminho de volta. Não faço ideia de onde estamos.
Edward ficou um pouco mais calado na volta para casa, e Joy sentiu o próprio silêncio de forma mais intensa. Deu instruções sobre o caminho, mas, apesar de se sentir à vontade na companhia dele, não foi capaz de encontrar nada interessante para dizer. Tudo pareceria fútil, pois o que ela queria mostrar era que, no espaço de apenas quatro horas, ele deixou o mundo dela fora dos eixos.
Nos olhos de Edward, ela viu outras terras, campos verdejantes e cães de caça, camponeses excêntricos e um mundo sem coquetéis. Na voz dele, ouviu um discurso livre de artifícios e gracejos, a quilômetros de distância da linguagem educada dos abastados expatriados de Hong Kong. Naquelas mãos grandes e sardentas, ela enxergou cavalos, bondade e algo mais, algo que fez seu estômago se contrair de ansiedade.
— Eu queria ter conhecido você antes — disse ele, mas sua voz foi levada pelo vento.
— O quê? O que você disse? — Joy levou a mão ao ouvido para escutar melhor.
Ele desacelerou o carro e repetiu para que ela pudesse ouvir:
— Eu disse que queria ter conhecido você antes.
Um veículo cheio de oficiais da Marinha passou a toda velocidade, buzinando para cumprimentá-lo.
— Eu… Eu… Ah, sei lá. É muito frustrante saber que vou embora depois de amanhã.
O coração de Joy congelou. Ela sentiu cada veia virando gelo.
— O quê? Como assim?
— Embarcamos daqui a dois dias. Tenho mais um dia em terra, de licença, e depois seguimos para a Coreia.
Joy não disfarçou sua expressão horrorizada. Isso era muito cruel. Ter encontrado alguém — Edward — e esse alguém ir embora tão depressa…
— Quanto tempo?
Sua voz, quando saiu, era baixa e trêmula. Não parecia a dela. Ele se virou para encará-la, percebeu algo no rosto dela e se voltou para o volante, dando a entender que iria parar o carro.
— Acho que não vamos voltar para cá — disse ele, olhando-a fixamente.
— Faremos nossa parte com os ianques na Coreia e depois iremos para Nova York. Vamos passar meses no mar.

Ele disse isso fitando-a nos olhos, aparentemente indicando a impossibilidade de se manter qualquer vínculo quando uma das pessoas está sempre em movimento.
Joy achou que sua cabeça ia explodir. Percebeu que as mãos haviam começado a tremer. Era como receber a chave de uma cela na prisão e descobrir que é de borracha. Deu-se conta, consternada, de que ia chorar.
— Não posso — murmurou, mordendo o lábio.
— O quê?
Edward se inclinou, e sua mão ficou muito próxima da dela.
— Não posso deixar você ir embora. Não posso!
Dessa vez falou alto, os olhos fitando os dele sem disfarçar. Mesmo enquanto falava, não acreditava de fato no que dizia, na absoluta impropriedade dessas palavras na boca de uma jovem daquele nível. Mas não parecia possível contê-las… Jorravam da boca feito pedras sólidas, quentes, despejadas diante dele como se fossem oferendas.
Houve uma pausa longa e eletrizante, durante a qual Joy achou que iria morrer.
Edward segurou sua mão. A dele estava seca e quente.
— Achei que você não gostasse de mim — falou.
— Nunca gostei de ninguém. Quer dizer, até hoje. Eu nunca tinha me sentido à vontade com alguém. — Ela falava sem rodeios, as palavras saindo sem censura, e nem assim ele se afastou. — Acho muito difícil conversar com as pessoas. E não existe ninguém com quem eu queira realmente conversar. Com exceção de Stella. Minha amiga. E, quando você apareceu hoje de manhã, fiquei com
tanta vergonha do que aconteceu ontem à noite que foi mais fácil mandar você embora do que ser simpática. Mas você ficou, entramos no carro e tudo o mais…
Nunca me senti daquele jeito. Nunca senti como se não estivessem me julgando.
Como se eu pudesse ficar quieta e a outra pessoa entendesse isso.
— Achei que você estava de ressaca — disse Edward, rindo.
Mas Joy estava muita emocionada e concentrada para rir.
— Concordo com tudo o que você disse hoje. Eu já senti tudo o que você descreveu. Lógico que as caçadas, não, porque nunca fi z isso. Mas todas as coisas que você disse sobre coquetéis, gostar mais de cavalos e não se importar se as pessoas acham que você é meio estranho… Bem, também sou assim. Essa sou eu. Foi como ouvir meus pensamentos. Por isso não posso… Não posso deixar você
ir embora. E, se está horrorizado com o que eu disse e acha que sou a pessoa mais sem vergonha e atirada que já conheceu, tudo bem, não me importo, porque essa foi a única vez na vida que fui totalmente sincera.

Duas lágrimas grossas e salgadas escorriam lentamente pelas bochechas coradas de Joy, carregadas da emoção no discurso mais longo que ela já tinha feito. Engolindo em seco, tentou contê-las, sentindo-se ao mesmo tempo assustada e eufórica com o que falara. Ela se jogou em cima daquele desconhecido de um jeito que a mãe, e provavelmente Stella também, acharia louco. E era mentira quando disse que não se importava. Se ele lhe desse as costas, se fizesse algum comentário trivial sobre o ótimo dia que tiveram juntos e que, sem dúvida, ela devia estar exausta, Joy se conteria até chegar em casa e então encontraria um jeito de… de se matar, ora. Porque não suportaria continuar na superfície da vida depois de mergulhar fundo e encontrar algo incrível, sereno e intenso. Diga que ao menos entende o que eu falei, desejou Joy. Mesmo que só diga que entendeu,
para mim já vai bastar.
Fez-se um longo e doloroso silêncio. Outro carro acelerado passou por eles.
— Acho que é melhor voltarmos — sugeriu Edward, colocando uma das mãos novamente no volante e usando a outra para engatar a marcha um pouco emperrada.
A expressão de Joy ficou paralisada e, de forma lenta e imperceptível, seu corpo se encolheu no banco do carona, a coluna tão tensa que parecia prestes a se quebrar. Ela entendera errado. Claro que entendera errado. De onde ela tirara que com uma explosão assim ganharia o respeito de um homem, o coração dele?
— Desculpe — sussurrou, aproximando a cabeça do peito. — Desculpe mesmo. Ai, nossa, como sou boba!
— Desculpar o quê? — indagou Edward, estendendo a mão e puxando para trás o cabelo molhado que tapava o rosto de Joy.
— Quero falar com seu pai.
Joy o encarou, inexpressiva. Será que ia contar ao seu pai que ela era uma tola?
— Olhe — disse Edward, segurando o queixo de Joy com a mão, que cheirava a suor. E a cavalo. — Sei que vai achar um pouco repentino, mas se você aceitar, Joy, quero pedir a ele sua mão em casamento.

— Você não acha que vamos dizer que sim, não é? — indagou a mãe, com uma expressão de pavor e espanto, sem entender como brotara na filha um sentimento tão forte por um homem qualquer. (Seu mau humor piorara porque os dois haviam chegado antes que ela tivesse se maquiado.) — Nós nem o conhecemos! — acrescentou, como se ele não estivesse ali.
— Vou lhe dizer tudo o que quiser saber, Sra. Leonard — prometeu Edward, estendendo à frente as pernas compridas na calça suja.
Joy o observou com a alegria atônita de quem acaba de ganhar algo. Passara o restante da viagem meio aturdida, rindo quase histericamente da loucura do que haviam acabado de fazer. Ela não o conhecia! Ele não a conhecia! E mesmo assim sorriram um para o outro com uma cumplicidade louca, deram-se as mãos,meio constrangidos, e ela prontamente entregou sua vida para ele. Nunca pensou em encontrar alguém, nem sequer cogitou procurar.
Mas ele parecia saber o que estava fazendo e dava a impressão de saber melhor do que ela própria o que era mais conveniente. E nem de longe se deixou afetar pela perspectiva de revelar tamanha insanidade aos pais dela.
Edward respirou fundo e começou a relatar os fatos.
— Meu pai é juiz aposentado e ele e minha mãe se mudaram para a Irlanda, onde criam cavalos. Tenho uma irmã e um irmão, ambos casados e mais velhos que eu. Estou com vinte e nove anos e entrei para a Marinha há quase oito, desde que saí da faculdade. Além do meu soldo, tenho um fundo
privado.
Se a mãe de Joy torceu um pouco o nariz ao ouvir sobre a Irlanda, o gesto foi neutralizado pela expressão “fundo privado”. Mas foi no rosto do pai que Joy se concentrou, desesperada atrás de algum sinal de aprovação.
— É repentino demais. Não entendo por que vocês não podem esperar.
— Você acha que a ama? — perguntou o pai, recostando-se na cadeira, com o copo de gim-tônica na mão, e encarando o rapaz.
Joy enrubesceu. Parecia quase obsceno ouvir isso do pai em alto e bom som. Edward a observou por bastante tempo, antes de segurar sua mão, fazendo-a corar de novo. Nenhum homem jamais a tocou na frente dos pais.
— Não sei se algum de nós dois já pode falar em amor — respondeu Edward devagar, quase se dirigindo a Joy. — Mas não sou criança e não sou bobo. Já conheci várias garotas e tenho certeza de que Joy é única.
— Isso é verdade — interveio a mãe.
— Só posso dizer que acho que posso fazê-la feliz. Se eu tivesse mais tempo aqui, estaria tranquilo, mas a verdade é que logo mais vou ter que ir embora.
Joy não pensou em questionar a rapidez dos sentimentos de Edward. Simplesmente ficou grata por parecerem tão fortes quanto os dela. Ainda digerindo o fato de que alguém a havia chamado de única de um jeito positivo, Joy precisou de alguns minutos para perceber que a mão dele estava suada.
— É muito repentino, Graham. Diga a eles. Os dois nem sequer se conhecem.
Joy notou o brilho nos olhos da mãe, revelando sua inquietude. Ela está com inveja, pensou de repente. Está com inveja porque se sente decepcionada com a própria vida e não suporta a ideia de que alguém esteja prestes a mudar minha vida para melhor.
O pai continuou encarando Edward por mais algum tempo, como se estivesse planejando algo. Edward sustentou seu olhar.

— Bem, as coisas são rápidas hoje em dia — disse Graham, fazendo um gesto para Bei-Lin trazer mais bebidas. — Você lembra como era durante a guerra, Alice.
Joy precisou se esforçar para conter um pequeno surto de empolgação. Apertou a mão de Edward e sentiu um aperto fraco em resposta.
O pai esvaziou o copo. Por um instante, pareceu atento a alguma coisa acontecendo do outro lado da janela.
— Por isso, eu concordo, meu jovem. O que você pensa em fazer nas próximas
trinta e seis horas?
— Queremos nos casar — disse Joy, sem fôlego.
Sentiu-se capaz de falar, porque, ao que parecia, só faltava mesmo decidir os detalhes e nada mais.
O pai não a ouviu. Estava falando com Edward.
— Vou respeitar sua vontade, senhor.
— Então lhes dou minha bênção. Para ficarem noivos.
O coração de Joy se alegrou. E se entristeceu.
— Podem se casar na sua próxima licença.
Fez-se um silêncio atônito. Joy, tentando conter a decepção, mal se deu conta dos passos de Bei-Lin atrás da porta, se apressando para contar a novidade à cozinheira. A mãe alternava o olhar entre a filha e o marido. O Que As Pessoas Vão Pensar?
— Se vocês têm certeza do que sentem um pelo outro, então esperar não vai ser um problema. Podem comprar as alianças, anunciar o noivado e se casar mais tarde.
O pai deixou com estardalhaço o copo na mesa laqueada, como se declarasse encerrado o julgamento.
Joy se virou para encarar Edward, que inspirou fundo e devagar. Por favor, discorde, desejou ela. Diga a ele que precisa se casar comigo logo. E me leve junto no seu grande navio cinza.
Mas Edward nada disse.
Observando-o, Joy sentiu a primeira pontada de desapontamento com seu novo parceiro, o primeiro breve e amargo indício de que o homem em quem depositara suas maiores esperanças, toda a sua confiança, talvez não fosse, na verdade, o que ela esperava.
— Quando vai ser isso? — indagou, tentando manter a voz firme. — Quando você acha que seu navio vai atracar?
— Na volta, nossa próxima parada vai ser em Nova York — respondeu Edward, quase como se pedisse desculpas. — Mas só daqui a uns nove meses. Talvez até mesmo um ano.

Joy se endireitou e olhou para a mãe, que relaxara e estava quase sorrindo: um sorriso paternalista, que quer dizer “Ah, os jovens. Podem achar que estão apaixonados, mas vamos ver o que acontece daqui a seis meses”. Com um arrepio, Joy se deu conta de que Alice queria provar que tinha razão. Queria confirmar que não existia amor verdadeiro, que todo mundo acabava se prendendo a casamentos tão infelizes quanto o dela. Bem, se seus pais achavam que ela seria desencorajada por isso, estavam errados.
— Então vejo você daqui a nove meses — disse Joy para os olhos azuis do noivo, tentando passar com o olhar tanta certeza quanto sabia que sentia.
— Só não deixe… Não deixe de escrever para mim.
A porta se abriu.
— Deus salve a Rainha! — exclamou Bei-Lin, entrando com a bandeja de
bebidas." Fonte Editora Intrínseca

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