quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Trecho livro Glória e Ruína de Tracy Banghart

Oi gente, estou voltando depois de um ano sumida, queria começar com este livro que estou louca para ler, Glória e Ruína da autora Tracy Banghart. Quando eu comecei a ler o primeiro livro, eu não gostei muito mas persisti e continuei lendo, e o livro foi ficando tão bom que eu queria vir a noite lendo... Quando terminei de ler o livro bateu em desespero, porque ainda não tinha publicado o segundo livro, achei que ia entrar em parafuso... Mas enfim chegou o segundo livro e estou ansiosa para poder lê-lo e ver o que vai acontecer com estas personagens.


Crédito imagem: Editora Seguinte
"Capitulo Um
Serina


Serina Tessaro sentia a costela quebrada arder a cada puxada de ar. O corte não cicatrizado no braço queimava, o ferimento de bala no ombro doía e os hematomas dos socos do comandante Ricci gritavam. Na verdade, era difícil encontrar um pedaço de seu corpo não atormentado por dores intensas.
Mas as lembranças do corpo sem vida de Jacana, dos olhos ce‑ gos de Oráculo e das fileiras de mulheres corajosas que tinham morrido eram uma agonia maior.
Ela devia saber que, em Monte Ruína, sobrevivência significa‑ va dor.
Desde o momento em que chegara à ilha, condenada por ler crime da irmã, não dela —, Serina não parou de sentir dor. A dor das algemas, dos soluços das outras prisioneiras, de ser despida e inspecio‑ nada pelo comandante Ricci. E a agonia das lutas em si, de ver mu‑ lheres matarem umas às outras por comida. De ver Petrel, sua amiga, morrer. Quando chegara sua hora de lutar, Serina descobrira que não conseguia. Preferira se render a matar Anika, do hotel Tormento. Também havia pagado por aquela decisão com dor: banimento, ata‑ ques e a vingança do comandante Ricci. Ele a capturara e tinha obrigado a subir no palco e escolher uma mulher para enfrentar.
Quando Serina se recusara a lutar contra uma mulher e desafia‑ ra o próprio Ricci a ser seu adversário, imaginava que morreria.
Não tinha esperado uma rebelião.
Mas Retalho e o bando do hotel Tormento tinham atacado os guardas; Oráculo e Âmbar haviam matado o comandante Ricci; e Serina, diferente de muitas outras, havia sobrevivido até a manhã seguinte.
Cada respiração dolorosa era um presente de Oráculo, Retalho e todas as mulheres que haviam escolhido lutar contra os guardas em vez de entre si. Enquanto esfregava o sangue delas do anfiteatro, Serina jurou a si mesma que não deixaria que aquelas mortes fossem em vão  e que não decepcionaria as sobreviventes.
A aurora dançava pela ilha como uma graça em um vestido dourado, iluminando cada folha e rocha vulcânica dura com filigranas de luz enquanto ela e as outras tentavam apagar a carnificina da noite anterior. Todos os corpos tinham sido levados  as mulheres haviam sido entregues ao brilho  vermelho do vulcão e os guardas às profundezas frias do mar.  Logo,  todos  os  rastros  de  sangue sumiriam também.
Engolindo um gemido, Serina levantou devagar. O sol aquecia seu rosto. Penhasco passou do seu lado carregando um balde de água ensanguentada. Sua testa larga e queimada de sol estava franzida, em uma reflexão ou apenas cansaço. A mulher mais velha era  encarregada  das  novatas  do  bando da caverna e tinha sido uma das primeiras que Serina conhecera na ilha, junto com Oráculo.
Serina perdeu o fôlego. Lembrava perfeitamente daquela noite e de como estava aterrorizada  antes mesmo de ver uma luta e ficar sabendo que as mulheres deveriam se matar. Tinha  se  sentido  sozinha e com saudades da irmã.
Aquilo  não havia mudado. A separação de Nomi era uma dor mais aguda e mais profunda que  as  costelas  quebradas  e o ferimento de bala.
Penhasco  levou  balde  até  a  beira  do  anfiteatro  de  pedra  rachada,  onde  a  grama  amarelada resistente  de  Monte  Ruína  balançava  na brisa. Outra mulher, curvada  e exausta do trabalho  da  noite,  coletava os pedaços de tecido que elas tinham usado para lavar as pedras. Serina enxugou o suor da testa com as costas da mão.

Nomi.


Ela precisava de um plano. A irmã estava presa em Bellaqua como uma das três graças do herdeiro. Pouco tempo antes, Serina queria exatamente o que Nomi possuía agora uma vida de luxo e beleza nos braços do homem mais poderoso de Viridia. Mas, para Nomi, aquela vida era uma prisão tão real quanto Monte Ruína, e Serina estava determinada a libertá‑la.
Anika e Val apareceram no topo do anfiteatro empurrando um carrinho enferrujado cheio de  sacos  de juta  as  rações que o comandante Ricci tinha escondido. Enquanto o levavam na direção de Serina, uma fila de mulheres se formou atrás delas, espalhando‑se pela rocha vulcânica que cobria uma seção dos bancos de pedra. Outras vieram da base do teatro, onde estavam descansando contra a parede da torre de vigia. No total, ela estimava que cerca de cento e cinquenta mulheres tinham sobrevivido, talvez uma dúzia a mais ou menos. A maioria encarava os sacos de juta com um olhar faminto.
Val e Anika pararam no fundo do anfiteatro.
O cabelo desgrenhado de Val se curvava em todas as direções ao redor de seu rosto bronzeado. Sua mandíbula estava machucada e seu pescoço, sujo de terra. Serina sorriu para ele, emocionada. Tivera a chance de escapar e deixá‑la para trás, mas havia ficado e ajudado. Ele notou sua expressão e relaxou, abrindo um sorriso.
   Como quer que a gente distribua as rações? Anika perguntou. Longos raios do sol matinal douravam sua pele morena. Tinha um olho inchado e tufos de cabelo escapavam de suas tranças apertadas, mas ela demonstrava a mesma confiança e resistência de quando chegara à ilha.
Serina tinha ouvido um boato de que as mulheres do hotel Tormento haviam tentado apelidá‑la de Sombra, mas Anika se recusava a reconhecer qualquer nome exceto o seu, alegando que era a única coisa que a mãe lhe dera que ninguém podia tirar dela.
Serina havia se rendido a Anika em vez de matá‑la quando foram postas para lutar. Aquele fora o começo de tudo, tornando Serina um alvo. Se o comandante Ricci não a tivesse obrigado a lutar, talvez elas nunca tivessem se rebelado.
  Vai ser mais fácil dividir a comida de modo justo se estivermos  todas  no  mesmo lugar Serina disse. Acho que cabemos no hotel Tormento, não? Elas tinham organizado uma enfermaria improvisada em um dos antigos salões de baile no térreo.
Serina ficaria contente se nunca mais tivesse que dormir no tubo de lava que seu bando chamava de lar. Oráculo não parecia se importar com os ventos sulfúricos da caldeira ou com a proximidade da parte ativa do vulcão, mas a rocha sempre parecera se fechar sobre Serina, e ela nunca conseguira esquecer que aquele espaço tinha sido aberto pela lava… a qual poderia se derramar sobre elas a qualquer momento.
Anika olhou de relance para as outras mulheres do seu bando. Nas horas que se seguiram à luta, na qual sua líder Retalho fora morta, Anika tinha assumido o comando, gritando ordens enquanto ajudava Val a levar os sete guardas sobreviventes ao complexo.
Ela se virou para Serina e assentiu.
   Temos espaço.
   Como podemos confiar no bando do hotel Tormento? — alguém  perguntou. Elas  vão  nos matar  enquanto  dormimos!
Serina encontrou a fonte da voz na multidão uma mulher com pouco mais de vinte anos, cabelo platinado e o rosto tenso  e corado.

   Qual é o seu nome? Ela contraiu os músculos da perna para não cambalear. Estava prestes a cair de cansaço.
   Raposa a mulher cuspiu. Sou a líder do bando da floresta agora que Veneno morreu. Ela deu um olhar furioso para Anika. — Graças a ela.
   Veneno matou muitas de nós — uma voz amarga retrucou. O coro foi crescendo, insistente e furioso como um ninho de vespas.
   Ei! Serina gritou, erguendo as mãos para pedir silêncio.
  O comandante nos forçou a lutar, lembram? Anika não matou Veneno porque quis. Nenhuma de nós matou por escolha. Não somos inimigas.   vamos  sobreviver  se  trabalharmos  juntas, como ontem.
  Acha mesmo que vamos sobreviver? Garra, uma mulher baixa e atarracada do bando da caverna, gargalhou.   Não temos comida e nenhum jeito de arranjar  mais. Vamos todas morre aqui. Serina cruzou os braços, ignorando a dor aguda que irradiou do seu peito.

  Não vamos morrer. O próximo barco de prisioneiras chega daqui a uma semana, talvez duas, e vai  trazer  rações.  Podemos  subjugar os guardas e pegar a comida, então usar o barco para escapar…
Sua voz morreu. Aonde elas iriam? E como encontraria Nomi? Anika inclinou a cabeça.
   Os guardas não têm barcos? Por que não os pegamos? Podemos sair desta rocha e voltar para nossa família.
  Foi minha família que me mandou pra cá! alguém gritou. Val ergueu a voz sobre a algazarra crescente.
   Não barcos. Esta ilha também é uma punição para os guardas, inclusive para o comandante Ricci. Todos decepcionamos o superior de alguma maneira. Éramos cruéis demais, ou cruéis de menos. Ele enviava os soldados fracassados pra cá. Não temos barcos nem para uma evacuação de emergência. Nosso único contato com o mundo fora é por meio dos homens que chegam com as prisioneiras.
Val olhou para Serina com uma pergunta implícita.
Ela sabia o que ele queria. Val tinha um barco que mantivera em segredo por anos, no qual os dois haviam planejado escapar, rumando para Bellaqua para resgatar Nomi. A um sinal de Serina, ele ficaria calado. O barco continuaria sendo um segredo e a melhor chance que tinha de reencontrar a irmã.
No  dia anterior, ela estivera pronta para partir, mas descobrira que não podia abandonar Jacana, que a ajudara a procurar um jeito de sair da ilha. Agora Jacana estava morta. Serina não conseguira salvá‑la. Não havia  nada que a prendesse ali e a impedisse de pegar o barco de Val e salvar a irmã.
Nada exceto as mulheres de Monte Ruína. As mortas, como Jacana e Oráculo, por quem ela jurara vingança, e as vivas, que prometera tentar salvar.
Serina  não podia escapulir num barco e abandoná‑las, nem por Nomi. Daria um jeito de tirar a irmã das garras do herdeiro e do olhar gélido e vigilante do superior mas não daquele jeito.
  Existe um barco na ilha ela disse, ainda olhando para Val. Ele acenou de leve, mas seu cenho se franziu de tristeza. Mas é pequeno e aguenta duas ou três pessoas. Mesmo assim, pode ser útil.
   E como você sabe disso? — Anika perguntou, estreitando os olhos.
  É meu explicou Val. Escondi onde nenhum guarda e nenhuma prisioneira pudesse encontrar. Vim para a ilha para resgatar minha mãe, mas… A voz dele falhou. Ela tinha morrido quando cheguei.
Anika relaxou um pouco.


    Mas… não  entendi  direito disse  uma  voz  baixa.  Pertencia a Theodora, chamada de Boneca por seu corpo alto e flexível e pelo rosto moreno perfeitamente oval. Ela tinha sido designada para  bando  da caverna  junto  com  Serina. que  vamos  fazer quando o barco da prisão chegar? Você falou em fugir. Para onde? Serina abriu a boca, mas  nada  saiu. Ela não tinha  uma  resposta.
Val foi até o lado dela no palco, virou‑se para encarar as mulheres no anfiteatro e pigarreou.
   Existe  um  país  chamado  Azura  leste  de  Viridia,  do  outro lado do mar Galáteo ele disse. Meu pai era mercador e o visitou  uma vez. Ele  me  contou  que  em Azura as mulheres trabalham, têm posses e cuidam do próprio dinheiro. Podem até ler. Não é tão longe, mas nosso lado da fronteira é fechado, exceto para delegações convidadas pelo superior. Só que o lado deles da fronteira permite livre passagem.
Val tinha contado a Serina sobre aquela viagem, que havia inspirado o pai dele a ensinar a esposa a ler. Ela, por sua vez, passara a ensinar garotas  que iam à casa deles em segredo. Aquele fora o motivo pelo qual o pai de Val tinha sido morto e a mãe, mandada para Monte Ruína.  Explicava  muito  sobre  o  filho  deles  também.
   você  acha  que  devemos  ir   pra lá? Raposa  perguntou, afastando o cabelo platinado da testa franzida. Por que eles iam nos receber?
Val deu de ombros.
   Não como ter certeza. Mas  parece  mais  seguro  que  ficar aqui ou voltar para Viridia.
E então posso partir, Serina pensou. Quando as mulheres estiverem a caminho de Azura e não precisarem mais de mim, vou pegar o barco de Val e salvar minha irmã.
Mas e se Nomi não quisesse ser salva? Serina mordeu o lábio. Era possível que ela tivesse se acostumado à vida no palazzo e agora  achasse seu papel de graça menos repugnante do que esperava. Mas Serina duvidava. Nomi sempre falara que ser graça não fazia diferença alguma quando você não poderia escolher não ser uma.
E estava certa.
Por mais sofisticada que fosse a vida de Nomi, Serina ia lhe dar uma escolha. Era tudo o que a irmã sempre quisera, a chance de escolher seu próprio destino.
E, ainda que morresse tentando, Serina realizaria seu desejo.
  Então tomamos o barco da prisão Serina disse, erguendo a voz acima dos murmúrios céticos das mulheres. E vamos para Azura começar uma vida nova.
Os ombros de Anika caíram, mas  Serina não entendeu sua decepção. Seu olhar foi até as mulheres que enchiam o anfiteatro, algumas sentadas em bancos de pedra, outras em sobre a onda de rocha vulcânica negra que cobria metade dos assentos.
Havia tantos rostos macilentos, tantos ferimentos e olhos afundados. Fome e medo a encaravam. Algumas daquelas mulheres estavam ali havia anos e tinham presenciado inúmeras lutas e visto inúmeras colegas morrerem.
   Vocês   vêm  lutando  há  muito  tempo Serina  disse,  com  a voz falhando. Fica difícil acreditar que acabou ou que as coisas podem  melhorar. Mas  é  verdade.  Pelos  próximos  dez dias, essa  ilha é nossa. Conquistamos  a liberdade, assim como nosso nome e nossa vida.  Não importa o que aconteça quando chegarmos em Azura, isso vai se manter. Não somos mais prisioneiras.
As mulheres relaxaram um pouco. Serina vislumbrou sorrisos esperançosos em meio à exaustão. Até as líderes dos outros bandos pareceram se animar. Os braços de aço de Graveto pendiam ao lado do corpo. No contingente dos penhascos do Sul, um sorriso fino cruzou o rosto cheio de cicatrizes da líder Chama. Mas Anika não era a única que ainda parecia incomodada." Fonte: Companhia das letras

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